01/Jul/2026
A Sociedade Rural Brasileira (SRB) avaliou que o Plano Safra 2026/27 não atende plenamente às necessidades de financiamento do setor agropecuário, apesar da redução das taxas de juros em algumas linhas de crédito. Segundo a entidade, o volume de recursos anunciado permanece distante da demanda da atividade e não resolve as dificuldades financeiras enfrentadas pelos produtores, marcadas por margens reduzidas, custos elevados e aumento do endividamento. O custo total estimado para a implantação da safra brasileira gira em torno de R$ 1,5 trilhão, enquanto o Plano Safra disponibiliza pouco mais de R$ 580 bilhões, considerando os recursos destinados à agricultura empresarial e à agricultura familiar. Desse total, R$ 525,1 bilhões serão direcionados à agricultura empresarial. A entidade considera que a redução das taxas de juros foi limitada diante do cenário econômico do setor. Nas operações de custeio empresarial, os juros passaram de 14% para 12,5% ao ano, patamar considerado ainda elevado para reduzir o custo financeiro da produção.
A combinação de margens apertadas, aumento dos custos de produção e alta nos preços de insumos, como fertilizantes e óleo diesel, continua restringindo a capacidade de investimento dos produtores. Outro ponto destacado foi a redução de 7,2% nos recursos destinados às linhas de custeio e comercialização. A entidade avalia que esses financiamentos já eram insuficientes para atender à demanda do setor e que a diminuição do volume disponível amplia as restrições ao financiamento das atividades agrícolas. A SRB também observou que parte dos recursos anunciados no Plano Safra depende da originação de crédito pelo sistema financeiro, por meio de instrumentos como as Cédulas de Produto Rural (CPRs), as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) e os recursos da poupança rural. Esses valores representam uma estimativa de financiamento e sua efetiva disponibilização dependerá das análises de crédito realizadas pelas instituições financeiras, que permanecem mais rigorosas diante do aumento do endividamento no setor. Assim, o alcance do programa deverá ser avaliado conforme o volume efetivamente contratado ao longo da safra.
A entidade também considera que a renegociação das dívidas rurais é condição indispensável para restabelecer a capacidade financeira dos produtores e ampliar o acesso às linhas de crédito do novo Plano Safra. O elevado nível de inadimplência limita a contratação de novos financiamentos e compromete a continuidade da atividade agropecuária para parte dos produtores. Nesse contexto, a associação destaca a importância do Projeto de Lei nº 5.122/2023, aprovado pelo Senado em junho e atualmente em tramitação na Câmara dos Deputados. A proposta prevê mecanismos para renegociação das dívidas rurais e, na avaliação da entidade, representa instrumento relevante para permitir que produtores regularizem sua situação financeira e mantenham o acesso ao crédito rural. O Sistema Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná) avaliou que, embora o Plano Safra 2026/27 apresente volume recorde de recursos para a agricultura empresarial, as condições das linhas de crédito permanecem pouco atrativas diante do cenário econômico enfrentado pelos produtores rurais.
O volume de recursos, por si só, não garante maior capacidade de investimento no campo. A efetividade do programa depende da oferta de linhas de crédito compatíveis com a realidade financeira dos produtores, incluindo taxas de juros, prazos e instrumentos adequados ao atual cenário do setor. Nas operações de custeio, o Plano Safra fixou juros de 12,5% ao ano para grandes produtores e de 9% ao ano para os beneficiários do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp). As propostas apresentadas em fevereiro ao Ministério da Agricultura e Pecuária, em conjunto com o Sistema Ocepar, a Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Seab) e a Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores Familiares do Estado do Paraná (Fetaep), defendiam taxas máximas de 10,5% ao ano para as linhas gerais e de 7% ao ano para o Pronamp. Apesar da redução nas taxas em relação ao ciclo anterior, os custos financeiros continuam elevados diante do ambiente de juros altos, margens reduzidas, sucessivas perdas provocadas por eventos climáticos e aumento do endividamento dos produtores, fatores que limitam a capacidade de contratação de novos financiamentos.
O Sistema Faep também destacou que menos de 80% dos recursos disponibilizados no Plano Safra 2025/26 foram efetivamente contratados no Paraná. O elevado nível de endividamento, aliado à falta de linhas de crédito mais atrativas e ao enfraquecimento dos mecanismos de gestão de risco, reduz a demanda por novos financiamentos e amplia a vulnerabilidade dos produtores diante de eventuais perdas de safra. A entidade criticou ainda a ausência de medidas voltadas à renegociação dos passivos acumulados pelos produtores rurais durante o lançamento do Plano Safra 2026/27. Outro ponto apontado foi a ausência de definições sobre o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR). O Sistema Faep havia solicitado a destinação de R$ 4 bilhões para o programa e considera que o fortalecimento do seguro rural é fundamental para reduzir o risco das operações de crédito, preservar a capacidade de pagamento dos produtores e ampliar a segurança das instituições financeiras.
A Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar) avaliou que o Plano Safra 2026/27 trouxe avanços importantes na redução das taxas de juros e na ampliação dos recursos para investimentos, mas ponderou que o crescimento do volume total anunciado esconde uma redução da oferta de crédito com recursos controlados para custeio e comercialização e uma maior participação de linhas com juros livres. Na análise da entidade, um dos principais pontos positivos é a redução das taxas de juros do crédito rural entre 0,5% e 1,5% em relação ao ciclo anterior. A Ocepar também destacou a queda de 1,5% nas taxas dos programas Prodecoop e Procap Agro, o aumento dos recursos destinados à equalização dos juros, de R$ 3,9 bilhões para R$ 5,6 bilhões, e a criação do incentivo "Campo + Sustentável", que prevê descontos de até um ponto porcentual para produtores que mantiverem o Cadastro Ambiental Rural (CAR) regular e adotarem práticas sustentáveis. Outro destaque apontado pela entidade é a ampliação dos recursos para investimentos, que cresceram 38,1% na comparação anual, alcançando R$ 140,2 bilhões.
Entre as linhas com maior expansão estão o Pronamp, com alta de 17%, além das modalidades de juros controlados não equalizados (+81%) e de recursos livres com juros livres (+85%). Apesar dos avanços, a Ocepar afirma que o Plano Safra 2026/27 apresenta pontos de atenção. O principal deles é a elevada participação de recursos com taxas de juros livres para atender produtores e cooperativas, além da redução de R$ 30 bilhões no volume de recursos destinados ao custeio e à comercialização e da diminuição dos recursos voltados aos programas de investimento direcionados às cooperativas. A entidade também observou que foi mantido em R$ 3,5 milhões o limite de renda bruta anual para enquadramento no Pronamp. A análise também ressalta que permanecem indefinições relevantes para o setor. Segundo a Ocepar, há falta de informações sobre as renegociações das dívidas dos produtores rurais e recursos para a Subvenção ao Prêmio de Seguro Rural, temas considerados importantes para a implementação do novo Plano Safra.
A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) avaliou que o Plano Safra 2026/27 não enfrenta o crescente endividamento dos produtores rurais e mantém o setor dependente de anúncios anuais, sem previsibilidade para investimentos de médio e longo prazo. O acréscimo de R$ 9 bilhões em relação ao ciclo anterior fica aquém dos desafios enfrentados no campo. O principal problema do Plano Safra não é apenas o volume de recursos anunciado, mas a ausência de medidas voltadas à reestruturação do passivo acumulado pelos produtores. Muitas propriedades seguem com patrimônio e capacidade produtiva preservados, mas com fluxo de caixa pressionado por custos mais altos, juros elevados, perdas climáticas e dificuldade de acesso ao crédito. Na avaliação da entidade, sem uma solução para o endividamento, novos financiamentos perdem parte de sua função de estimular investimentos e podem ampliar as dificuldades financeiras de quem já está com margem apertada. A entidade considera que o crédito rural, isoladamente, não resolve o quadro financeiro atual do produtor.
A Faesp também criticou a falta de uma política agrícola estruturante e de longo prazo. O modelo atual, baseado em anúncios a cada safra, impede o produtor de saber com antecedência quais serão as regras, os juros, os limites de financiamento e a disponibilidade efetiva de recursos. Essa incerteza dificulta decisões de investimento que, no agro, muitas vezes exigem horizonte de cinco a dez anos ou mais. A entidade defende a substituição da política de anúncios anuais por um projeto permanente para o setor, chamado pela Faesp de “Plano Brasil para o agro”. A proposta seria dar estabilidade às regras de financiamento, seguro e apoio à produção, com horizonte de médio e longo prazo. Outro ponto levantado é a necessidade de tratar a agricultura de forma integrada, com uma política agrícola única para diferentes perfis de produtores. Pequenos e médios produtores representam mais de 70% das propriedades rurais do estado de São Paulo e precisam ser contemplados em uma estratégia nacional de financiamento e gestão de risco.
Recordes de produção não significam, necessariamente, aumento de renda ou lucro para o produtor. Parte relevante da produção nacional está concentrada em grandes propriedades, enquanto pequenos e médios produtores enfrentam margens cada vez mais estreitas. A fragilidade da política de seguro rural também foi apontada como um dos principais gargalos da agropecuária brasileira. Com cobertura considerada limitada diante da área cultivada no País, os produtores continuam expostos a eventos como secas, enchentes, geadas e incêndios, sem instrumentos suficientes de proteção financeira. O Plano Safra só terá efeito mais consistente se vier acompanhado de medidas para reestruturar o endividamento rural, ampliar a cobertura do seguro, oferecer crédito compatível com a realidade financeira do campo e criar uma política agrícola permanente. O setor precisa de previsibilidade e segurança jurídica para continuar produzindo, investindo e mantendo empregos.
A Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) avaliou que o Plano Safra 2026/27 trouxe avanços na redução das taxas de juros, mas ainda não resolve gargalos estruturais do crédito rural em estados de grande escala produtiva. Para a entidade, o reajuste de 1,7% no volume da agricultura empresarial não recompõe a inflação do período e fica abaixo da demanda do setor. A queda dos juros do custeio empresarial, de 14% para 12,5% ao ano, foi considerada positiva, mas insuficiente. O custo do crédito ainda está distante da realidade dos produtores, que chegam ao novo ciclo com margens apertadas, custos elevados e endividamento acumulado. Essa redução é importante e vai ajudar no planejamento, mas ainda está muito aquém da necessidade dos produtores.
O setor vem de safras desafiadoras, com aumento do endividamento e repactuação de dívidas. Um dos principais pontos levantados pela entidade é o baixo alcance do crédito oficial. Na última safra de soja em Mato Grosso, pouco mais de 4% dos produtores conseguiram acessar recursos do Plano Safra para custeio, reflexo da defasagem dos critérios de enquadramento do Pronaf e do Pronamp, que não acompanharam a evolução dos custos, dos preços e da escala produtiva, além da burocracia das linhas oficiais. A entidade também apontou lacunas na política de gestão de risco. O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) não recebeu o reforço esperado, apesar do aumento dos eventos climáticos. A Famato defendia a destinação de R$ 3 bilhões ao programa. O seguro rural vem sendo deixado de lado há anos dentro da política de crédito rural.
A Famato também criticou a vinculação de incentivos financeiros à validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR). Para a entidade, produtores que cumprem suas obrigações não podem ser penalizados pela demora do poder público na análise dos cadastros. Vincular incentivos ao CAR validado coloca em desvantagem produtores que estão fazendo tudo certo, mas dependem da capacidade do Estado para avançar na análise. O endividamento rural também foi apontado como um dos principais desafios não endereçados pelo programa. Diante do aumento do endividamento e das dificuldades acumuladas nas últimas safras, havia expectativa de que o Plano Safra trouxesse um alento mais concreto. Nesse ponto, o plano deixa uma lacuna importante. A Famato reconheceu os avanços nos juros, mas reforçou a demanda por uma política de crédito mais acessível e menos burocrática para atender produtores de Mato Grosso. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.