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29/Jun/2026

Clima: Agro mais preparado para enfrentar El Niño

A possibilidade de formação de um Super El Niño entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027 voltou a ganhar relevância nas análises econômicas e do agronegócio, principalmente pelos possíveis impactos sobre a inflação, a produção agrícola e os mercados globais de commodities. Embora o fenômeno represente um fator adicional de risco para diversas cadeias produtivas, especialistas avaliam que o agronegócio brasileiro apresenta hoje condições mais favoráveis para enfrentar seus efeitos em comparação com episódios anteriores. Segundo estimativas da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), a probabilidade de ocorrência de um Super El Niño supera 80%. A consultoria meteorológica Nottus projeta que a anomalia de temperatura poderá ultrapassar 2,5°C, intensidade semelhante à registrada entre 2015 e 2016.

O cenário já passou a integrar as avaliações do Comitê de Política Monetária (Copom), diante do potencial de pressionar os preços dos alimentos e influenciar a trajetória da inflação. Projeções do Goldman Sachs indicam que um evento climático dessa magnitude poderá elevar em 15,8% os preços globais das commodities alimentícias até 2028. Estimativas da GO Associados apontam impacto adicional de 0,55% no IPCA em 2026 e de 0,2% em 2027, o que tende a reduzir o ritmo esperado de flexibilização da política monetária. Apesar dessas projeções, os efeitos sobre a produção agrícola brasileira deverão variar significativamente entre culturas e regiões. A safra nacional 2025/26 caminha para um recorde de 358,6 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), impulsionada pela expansão da área cultivada e pelos ganhos de produtividade, especialmente na soja.

O avanço da irrigação, da mecanização e das práticas de manejo também fortalece a capacidade de adaptação do setor frente aos riscos climáticos. Na soja, os impactos tendem a ser regionalizados. Estimativas da XP indicam que, mesmo em um cenário de Super El Niño, a produtividade nacional poderá recuar cerca de 5%, com maiores efeitos concentrados na região do Matopiba. Em contrapartida, a Região Sul do Brasil poderá ser beneficiada pelo aumento das chuvas normalmente associado ao fenômeno, favorecendo o desenvolvimento das lavouras, desde que os volumes permaneçam dentro de padrões adequados. O milho apresenta maior vulnerabilidade, principalmente na 2ª safra de 2027, cuja produtividade depende da regularidade das chuvas durante o ciclo de desenvolvimento. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projeta déficit global de 22 milhões de toneladas de milho na próxima temporada e de 5 milhões de toneladas de trigo, cenário que poderá ampliar a sensibilidade dos preços internacionais caso ocorram perdas adicionais de produção.

Entre as principais commodities agrícolas, o açúcar aparece como uma das mais expostas aos efeitos do fenômeno climático. O El Niño poderá reduzir simultaneamente a produtividade da cana-de-açúcar no Brasil e restringir a oferta exportável de Índia e Tailândia, principais concorrentes do mercado internacional. Ainda assim, o setor parte de uma base confortável, com expectativa de moagem entre 640 milhões e 650 milhões de toneladas na safra 2026/27, o que tende a amenizar parte dos riscos de oferta. No café, o comportamento climático merece atenção especial. Temperaturas elevadas e menor disponibilidade de umidade durante as fases de expansão e enchimento dos frutos podem comprometer a produtividade das lavouras de café arábica. Paralelamente, condições mais quentes e secas previstas para Vietnã e Indonésia também poderão afetar a produção mundial de café robusta, aumentando a sensibilidade do mercado internacional.

Apesar das preocupações crescentes, os mercados futuros ainda não incorporaram prêmio climático relevante nas principais commodities agrícolas. Produtos como soja, milho, açúcar, etanol, algodão e proteínas continuam sendo negociados com base em um cenário de oferta global considerada confortável, mantendo predominância de expectativas baixistas no curto prazo. Além do agronegócio, o primeiro impacto econômico do fenômeno poderá ocorrer no setor elétrico. A redução dos reservatórios nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste poderá levar ao retorno da bandeira tarifária vermelha patamar 2 ainda no segundo semestre de 2026. Os reflexos sobre os preços dos alimentos tendem a ocorrer principalmente ao longo de 2027, caso eventuais perdas de produtividade se confirmem durante o desenvolvimento das próximas safras. Fonte: InfoMoney. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.