24/Jun/2026
A taxonomia sustentável servirá de guia para o mercado aprofundar as análises sob o filtro ESG (critérios ambiental, social e de governança corporativa). "A taxonomia detalha muito bem critérios de salvaguardas, obrigatoriedade de não prejudicar os objetivos e de contribuir para os mesmos, o que guia o mercado a uniformizar e aprofundar as suas análises ASG", afirmou Marcos di Tullio, co-diretor de sustentabilidade da Régia Capital. Di Tullio diz que a taxonomia vem para ajudar a delimitar e detalhar o entendimento do mercado sobre o que de fato é sustentável. "Isso importa não apenas para evitar o greenwashing, mas para ajudar os alocadores a identificarem melhor as oportunidades de investimento sustentável", afirmou Di Tullio. A Régia, criada pela BB Asset e pela gestora JGP, foi uma das quatro gestoras de fundos de investimento selecionadas para participar do processo oficial de testagem da TSB. As outras são a Vox Capital, o Patria e o BTG Pactual. O Comitê Interinstitucional da TSB também selecionou bancos e empresas para participar da discussão. Segue a entrevista:
O que a taxonomia sustentável muda para a gestora, para os investimentos, para o mercado?
Marcos di Tullio: A taxonomia vem para ajudar a delimitar e detalhar o entendimento do mercado sobre o que de fato é sustentável e como uma atividade pode ser desenvolvida nesse âmbito. Isso importa não apenas para evitar o greenwashing, mas para ajudar os alocadores a identificarem melhor as oportunidades de investimento sustentável, empregarem recursos no que de fato tem um viés socioambiental e ainda buscarem e incentivarem a transição de atividades para práticas mais sustentáveis. A Taxonomia detalha muito bem critérios de salvaguardas, obrigatoriedade de não prejudicar significativamente os objetivos, e de contribuição aos mesmos, o que guia o mercado a uniformizar e aprofundar as suas análises ASG. Isso eleva o patamar de sustentabilidade do mercado brasileiro e nos alinha às melhores práticas globais de finanças sustentáveis.
Que tipo de oportunidade deve surgir com a criação da Taxonomia Sustentável Brasileira?
Marcos di Tullio: A Taxonomia Sustentável Brasileira foi muito precisa em ser aberta à transição, principalmente de setores como o agro e gás natural, que são muito significativos no perfil das emissões brasileiras. Ao mesmo tempo, deixou muito bem delimitados alguns critérios para a transição, como o encerramento do desmatamento e o aumento da proporção do biometano nos casos citados. Esses dois fatores vão ser positivos para a difusão e promoção das teses de transição no mercado de finanças sustentáveis. A transição é extremamente necessária para o avanço dos objetivos climáticos e socioambientais, e significativa para aumentar o leque de oportunidades de investimento sustentável no Brasil, nos permitindo ir além das atividades que já são muito sustentáveis e gerar ainda mais impacto.
Quais contribuições a Régia deve levar para o Comitê Interinstitucional da Taxonomia Sustentável Brasileira?
Marcos di Tullio: A Régia participa do exercício de testagem da primeira fase da taxonomia. Observamos que muito do que sugeriríamos já vem sendo pensado. Ainda assim, destacamos a importância de disponibilizar ao mercado ferramentas que facilitem a aplicação da taxonomia, visto a sua completude e complexidade, e capacitações amplas ao mercado e às empresas. O esforço de aproximação com as empresas brasileiras é muito importante para que elas passem a compreender o valor da taxonomia para os seus negócios também e para que haja um alinhamento entre o que os investidores vão passar a demandar e as informações que elas divulgam. Além disso, é importante que elas comecem a analisar as possibilidades de alinhamento das próprias atividades e iniciativas desenvolvidas ao escopo da taxonomia, o que aumentaria as possibilidades de investimento, gerando benefícios para elas e para os investidores. A taxonomia é voltada justamente para a classificação das atividades dessas empresas e, por isso, é vital que elas estejam atentas e abertas a essas novas orientações.
Que desafios essa classificação gera?
Marcos di Tullio: A taxonomia é bastante sofisticada e isso pode gerar um custo de observância, sobretudo para empresas menos maduras. Nesse sentido, é muito relevante que seja dada uma atenção especial também às pequenas e médias empresas, que constituem grande parte do empresarial brasileiro, e apresentam oportunidades de investimento sustentável significativas. Quando se olha para negócios que causam impacto, boa parte são de pequeno ou médio porte, então é importante que eles estejam bem integrados à taxonomia. Esse processo de testagem é importante justamente para entender esses impactos e calibrar a forma como as informações serão exigidas em diferentes níveis.
Quais países já têm a sua taxonomia e como podem inspirar o futuro regramento no Brasil?
Marcos di Tullio: Vários países atualmente já contam com sua própria taxonomia sustentável. Os que influenciaram a taxonomia brasileira foram México, Colômbia e União Europeia. Além dessas taxonomias, existem diversas outras e que, com certeza, influenciam umas às outras. Essa influência se dá tanto por fornecer uma base a outra taxonomia, como por uma novidade que pode se adequar à realidade de um outro país, principalmente quando se olha regionalmente, onde as similaridades podem ser maiores. Um exemplo claro disso foi o pioneirismo do México ao lançar objetivos sociais, trazendo inclusive a pauta da redução da desigualdade de gênero, que viemos a adotar aqui também.
Por que é importante ter uma taxonomia brasileira?
Marcos di Tullio: Entre os diferentes países, as necessidades para adequação a uma economia sustentável, tanto no nível das atividades quanto do mercado financeiro, variam muito. Aqui no Brasil por exemplo, precisamos de um caderno de agricultura extremamente detalhado e específico para abarcar as peculiaridades e relevância nacional. Diversos critérios que não fariam sentido em outros países nós precisamos aqui e vice-versa. O mesmo vale para quais atividades podem ser enquadradas: a construção de aterros sanitários, por exemplo, é prevista na Taxonomia Brasileira, mas não faz sentido na Taxonomia Europeia. A Europa já conta com uma destinação de resíduos capilar e completa, então o que importa lá é priorizar ao máximo a reciclagem e a compostagem. Aqui, o nosso foco ainda está em etapas anteriores: garantir o recolhimento dos resíduos e assegurar que eles não terminem em aterros impróprios, lixões, ruas ou rios. Essas diferenças nacionais são tão significativas que originaram o objetivo de redução de desigualdades na Taxonomia Brasileira, algo que não poderia ficar de fora quando classificamos o que é sustentável no Brasil. Seria irresponsável ignorar a questão da raça, por exemplo, sendo um país tão plural e desigual nesse âmbito, ao mesmo tempo, isso pode não fazer sentido na Taxonomia de países que não têm um histórico e realidade como a nossa.
Fonte: Broadcast Agro.