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22/Jun/2026

Crédito Rural: El Niño eleva riscos ao Agronegócio

A perspectiva de um El Niño de forte intensidade entre o final de 2026 e o início de 2027 aumenta as preocupações sobre a evolução do crédito rural no Brasil. O fenômeno climático, associado a chuvas acima da média na Região Sul e períodos de seca mais severos nas Regiões Norte e Nordeste, pode pressionar a rentabilidade dos produtores, comprometer a capacidade de pagamento e prolongar os desafios enfrentados pelo sistema financeiro no financiamento ao agronegócio. A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou recentemente o retorno do El Niño e atribuiu 63% de probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade muito forte, configurando um chamado "Super El Niño".

O cenário surge em um momento de fragilidade para parte dos produtores rurais, que ainda enfrentam os efeitos combinados de juros elevados, aumento do endividamento e sucessivos eventos climáticos adversos observados nos últimos anos. Dados do Banco Central mostram que a inadimplência das operações rurais com recursos direcionados atingiu 7,4% em abril de 2026, avanço de 4,2% em relação ao mesmo período do ano anterior. Paralelamente, a volatilidade provocada pelo conflito no Oriente Médio e pelas oscilações nos mercados de commodities acrescenta incertezas às perspectivas de renda do setor. Embora as projeções para a produção de culturas como soja, milho, café e açúcar ainda permaneçam favoráveis, a combinação entre possíveis perdas de produtividade e preços menos remuneradores pode reduzir a geração de caixa dos produtores.

Esse quadro tende a aumentar a pressão sobre a capacidade de pagamento das operações de crédito rural. Um agravamento das condições climáticas poderá levar instituições financeiras a ampliar provisões para perdas, intensificar renegociações de dívidas e alongar prazos de financiamento. O processo exigiria maior alocação de capital regulatório e poderia afetar os resultados dos bancos com maior exposição ao agronegócio. O Banco do Brasil aparece entre as instituições mais sensíveis a esse cenário. Com carteira agropecuária de aproximadamente R$ 418 bilhões, o banco registrou inadimplência de 6,22% nas operações rurais com atraso superior a 90 dias em março. No primeiro trimestre, as provisões líquidas para devedores duvidosos cresceram 86% na comparação anual, alcançando R$ 18,9 bilhões. Após renegociar cerca de R$ 40 bilhões por meio do programa Regulariza Agro, a instituição projetava uma melhora gradual dos indicadores ao longo do segundo semestre de 2026.

No entanto, a combinação entre os efeitos do conflito geopolítico e a possibilidade de um El Niño mais intenso pode postergar esse processo de recuperação. As culturas de soja e milho concentram parcela relevante da carteira rural do Banco do Brasil e figuram entre as mais suscetíveis aos impactos climáticos. Diante disso, o banco já passou a considerar uma retração de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) da agropecuária em 2026. Para instituições financeiras com menor exposição ao setor rural, os efeitos tendem a ser mais limitados. Bancos que concentram operações em grandes grupos agroindustriais contam com clientes que possuem maior acesso ao mercado de capitais, melhor estrutura de gestão de riscos e instrumentos mais sofisticados de proteção financeira, fatores que podem reduzir os impactos sobre a qualidade das carteiras de crédito. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.