10/Jun/2026
A perspectiva de novas tarifas sobre produtos brasileiros nos Estados Unidos levou empresas de diversos segmentos industriais a anteciparem exportações e reforçarem estoques no mercado norte-americano. O movimento ocorreu diante da expectativa de adoção de sanções comerciais com base na Seção 301 da legislação dos Estados Unidos, cuja proposta prevê tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Assim, a indústria brasileira intensificou as exportações para os Estados Unidos nos primeiros meses de 2026 diante da expectativa de adoção de novas tarifas comerciais pelo governo norte-americano. Máquinas e equipamentos, calçados, embarcações, produtos químicos e motocicletas registraram crescimento expressivo nos embarques, em um movimento de antecipação às possíveis medidas tarifárias em discussão nos Estados Unidos.
Desde o início do ano, o setor produtivo acompanhava a possibilidade de imposição de novas taxas com base em investigação conduzida sob a Seção 301 da legislação comercial norte-americana. A perspectiva de aumento das tarifas estimulou empresas a acelerar negócios e embarques para o principal mercado de destino de diversos segmentos industriais brasileiros. No setor de máquinas e equipamentos, as vendas para os Estados Unidos atingiram em abril o maior valor mensal em aproximadamente um ano e meio. Na indústria química, os embarques alcançaram 209,7 mil toneladas em março, volume 29% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior e o maior nível em 14 meses. Em abril, as exportações do segmento retornaram para 144 mil toneladas, patamar próximo à média observada após a implementação das medidas tarifárias.
A indústria calçadista também ampliou sua presença no mercado norte-americano. Em abril, as exportações totalizaram 843 mil pares, volume 40,5% superior ao embarcado no mesmo mês de 2025. Os Estados Unidos permanecem como principal destino das exportações brasileiras de calçados. No segmento de motocicletas, os embarques para os Estados Unidos cresceram 35% em abril na comparação anual. O mercado norte-americano ocupa a segunda posição entre os destinos das exportações do setor, atrás apenas da Argentina. O cenário comercial passou por mudanças após decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, em 20 de fevereiro, que derrubou as alíquotas mais elevadas do pacote tarifário anteriormente adotado pelo governo Donald Trump com base em legislação de emergência. Para os produtos brasileiros, a medida eliminou sobretaxas que poderiam alcançar até 50%.
Embora essas tarifas tenham sido substituídas por uma alíquota global de 10%, a decisão restabeleceu temporariamente condições de competitividade mais equilibradas para os produtos brasileiros no mercado norte-americano. Esse ambiente, porém, poderá ser alterado novamente. As investigações conduzidas pelas autoridades dos Estados Unidos sobre práticas consideradas prejudiciais a empresas multinacionais norte-americanas resultaram na recomendação de aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. A proposta será submetida a audiência pública marcada para 6 de julho. A possibilidade de elevação das tarifas tem levado empresas brasileiras a anteciparem exportações e contratos comerciais, buscando ampliar os embarques antes da eventual adoção das novas medidas, que podem reduzir a competitividade dos produtos nacionais no mercado dos Estados Unidos.
Além dos riscos associados ao aumento das tarifas, especialistas alertam para a possibilidade de aplicação retroativa das sanções previstas na Seção 301. Diferentemente do sistema tributário brasileiro, a legislação norte-americana permite que medidas desse tipo alcancem embarques realizados anteriormente à formalização da cobrança, elevando a insegurança para exportadores que aceleram vendas na tentativa de evitar futuras restrições. O processo conduzido pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) encontra-se em fase final. Por possuir sólida base jurídica dentro da legislação comercial norte-americana, a Seção 301 é considerada mais resistente a questionamentos judiciais do que o pacote tarifário anterior, cuja aplicação foi limitada por decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos. Paralelamente, as negociações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos permanecem em andamento.
Entretanto, novos temas de divergência entre os governos reduziram as expectativas de uma solução rápida para a disputa comercial, elevando a cautela entre exportadores. Levantamento da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex) mostra que, desde o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, a participação do mercado norte-americano nas exportações brasileiras de manufaturados recuou de 21,4% para 19,7%, refletindo o ambiente de maior instabilidade no comércio bilateral. O cenário reforça a preocupação da indústria brasileira com a manutenção do acesso ao mercado dos Estados Unidos, principal destino de exportações para diversos segmentos manufatureiros e considerado estratégico para produtos de maior valor agregado. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.