10/Jun/2026
Para o diplomata e ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o banco dos Brics, Marcos Troyjo, as relações econômicas entre Brasil e Estados Unidos atravessam um período de distanciamento influenciado por divergências políticas entre os governos dos dois países, cenário que tem reflexos sobre o comércio bilateral e os fluxos de investimento direto. O atual contexto é marcado por elevado grau de politização das relações bilaterais, reduzindo o potencial de cooperação econômica entre as duas maiores democracias ocidentais. O afastamento político tem produzido efeitos considerados negativos sobre os negócios entre os dois países, afetando tanto as oportunidades comerciais quanto a atração de investimentos estrangeiros. Nos últimos doze meses, os Estados Unidos representaram menos de 10% da corrente de comércio brasileira. O desempenho evidencia um aproveitamento limitado do potencial existente na relação econômica entre os dois mercados. O Brasil participa com aproximadamente 1% das compras realizadas pelos Estados Unidos junto ao restante do mundo.
O mercado norte-americano movimenta cerca de US$ 3,6 trilhões em comércio internacional, volume equivalente ao Produto Interno Bruto (PIB) da França somado ao de todo o continente africano. O relacionamento entre os governos perdeu intensidade nos últimos anos, reduzindo o espaço para iniciativas voltadas à ampliação da cooperação econômica e comercial. Além das questões diplomáticas, há mudanças estruturais na economia norte-americana. Os Estados Unidos têm combinado políticas comerciais mais restritivas com medidas destinadas a aumentar a competitividade doméstica, especialmente por meio da redução da carga tributária corporativa. A estratégia integra o processo de fortalecimento da indústria norte-americana e busca ampliar a capacidade de atração de investimentos produtivos para o país. Nesse contexto, os Estados Unidos passaram a oferecer condições consideradas mais favoráveis para a instalação de novos empreendimentos industriais.
Para o Brasil, o cenário representa um desafio adicional na disputa global por investimentos, especialmente em um ambiente de crescente competição internacional por capital produtivo, tecnologia e integração às cadeias globais de valor. A análise reforça a importância das relações entre Brasil e Estados Unidos para setores exportadores, incluindo o agronegócio e a indústria de transformação, que dependem do acesso ao mercado norte-americano e dos fluxos de investimento para ampliar competitividade e participação no comércio internacional. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reforçou o argumento do governo federal sobre a abertura do Brasil para as tratativas setoriais com os Estados Unidos, com foco no campo comercial. Ele também ponderou que o diálogo precisa ser civilizado, sem "ameaças". Foram mencionados os seguintes segmentos: etanol e açúcar; indústria aeronáutica; bem como os setores de serviços, infraestrutura de telecomunicação e tecnologia de nuvem. O debate setorial é civilizado e se faz entre países que têm demandas pontuais em relação a outro.
Brasil e Estados Unidos vivem um dos momentos mais improdutivos da relação bilateral justamente quando a geopolítica voltou a comandar as decisões econômicas globais. A distância entre os dois países representa uma oportunidade desperdiçada em um cenário marcado por disputa entre Estados Unidos e China, avanço do protecionismo, corrida por inteligência artificial e maior peso estratégico de alimentos, energia e minerais críticos. Os próximos cinco anos vão ser mais importantes do que os últimos 20. O Brasil precisa se relacionar com os Estados Unidos em uma conjuntura internacional mais instável, marcada pelo rescaldo da pandemia, pela guerra na Europa, pela tensão no Oriente Médio e pela rivalidade entre Estados Unidos e China. O ex-presidente do NDB avaliou que as tarifas em discussão nos Estados Unidos, inclusive as associadas à investigação sob a Seção 301, podem prejudicar setores específicos no Brasil, mas não representam o maior problema macroeconômico da relação bilateral.
Os Estados Unidos importam cerca de US$ 3,6 trilhões por ano, enquanto as vendas brasileiras ao mercado norte-americano somavam US$ 36 bilhões antes do tarifaço. De tudo que os Estados Unidos compram do resto do mundo, 1% vem do Brasil. É pouco. O efeito macroeconômico das tarifas tende a ser limitado, mas o Brasil deve reagir com firmeza para evitar prejuízos regionais e setoriais. É preciso dialogar para que essas tarifas não sejam acrescidas ao valor exportado. Macroeconomicamente, o efeito é limitado. Mas, setores de alguns Estados como Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo serão bastante prejudicados. Um risco maior para o Brasil está na perda de competitividade diante da melhora do ambiente de negócios norte-americano. Desburocratização, desregulamentação e corte de impostos nos Estados Unidos são fatores capazes de atrair investimentos em um momento de reorganização das cadeias globais. Parte do investimento industrial que deixou a China tende a migrar para países com menor carga tributária, como Vietnã, Índia e os próprios Estados Unidos, enquanto o Brasil mantém um peso tributário mais elevado.
A China tem buscado reduzir sua dependência externa e, ao mesmo tempo, ampliar a dependência de outros países em relação a ela. Nesse contexto, terras raras e minerais críticos ganharam centralidade nas disputas comerciais. A China buscará ser menos dependente do maior número de países possível e buscará fazer com que o maior número de países possível seja dependente dela. A corrida por inteligência artificial não reduz a importância das commodities. Ao contrário, a nova economia depende de energia, água, alimentos, petróleo e minerais críticos. A grande corrida do mundo é a corrida pela IA. Esse cenário deveria aproximar Brasil e Estados Unidos, duas economias com potencial de cooperação em alimentos, energia, tecnologia e segurança de suprimento. Não existe nada mais improdutivo do que o momento atual entre as duas maiores democracias do Ocidente. Oportunidades estão sendo desperdiçadas. A solução das tensões bilaterais exigirá visão estratégica acima do calendário eleitoral. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.