01/Jun/2026
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que ajudar o agronegócio com renegociação das dívidas da forma como foi aprovado pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado pode ser um "tiro no pé", gerando restrição de crédito a agricultores. Ele rebateu a tese de que o agronegócio é terra arrasada e frisou que a estimativa de impacto com a medida pode chegar a R$ 800 bilhões. "A pretexto de querer ajudar o agro, renegociar dívidas pode ser um tiro no pé. Pode haver restrição de crédito para o agronegócio. Como demanda recurso público para atender um escopo muito grande de agricultores, pode, sim, prejudicar os Planos Safras, o próximo, que nós estamos prestes a anunciar, e os dos próximos anos", afirmou. Durigan ainda definiu seu cargo como "uma espécie de pastor", que precisa compatibilizar interesses e evitar "pautas-bomba". Nessa linha, disse que o governo se dispõe a discutir um ajuste no teto do microempreendedor individual (MEI), além da possibilidade de contratar um segundo empregado. "Não podemos discutir agora um aumento do Simples Nacional em geral". Segue a entrevista:
Os bancos têm afirmado que podem faltar recursos para o Plano Safra. Há esse risco?
Dario Durigan: Desde 2023, o governo federal adota medidas para ajudar, sensível às questões de mudança climática. Foram várias as medidas adotadas todos os anos e os Planos Safra sempre foram recordes. O agronegócio tem gerado recordes de produtividade, mas, de fato, tem uma questão de variação da inadimplência. Um termômetro é olhar o Banco do Brasil, que tem um histórico de inadimplência no agro de 1% a 2% e que hoje está chegando de 5% a 6%. Houve um crescimento considerável, mas 94% do agronegócio está em dia. Não se trata de dizer que o agronegócio é terra arrasada, ou uma grande calamidade. De fato, há um grupo de agricultores que pode estar com dificuldade. A maioria está com dívidas antigas da época da pandemia, quando teve um aumento muito grande em insumos. A Fazenda está olhando para atender os agricultores que estão com problema, que está em região que teve ou seca ou inundação, mas não reconsiderar a dívida de todos os agricultores, inclusive os que estão adimplentes. Sentimos uma oposição do Senado, dizendo que teria que renegociar a dívida do agro como um todo, inclusive pegando instituições privadas, dívidas de agricultores com bancos privados fora do Plano Safra, dívida de agricultores com cerealistas, com traders, que de fato ficam muito fora do escopo de uma política pública de renegociação. No ímpeto de querer abraçar toda a renegociação de dívida privada que existe no País, consumiria uma quantidade de recurso público que não é possível hoje no País.
E já há uma estimativa de impacto?
Dario Durigan: Pode chegar a R$ 800 bilhões quando você considera isso no tempo. É um impacto muito grande e, de outro lado, existe uma insistência em travar o teto de taxa de juros para o agricultor. Ao fazer isso, também problematiza que os bancos concedam operações de crédito. A pretexto de querer ajudar o agro, renegociar dívidas pode ser um tiro no pé. Pode haver restrição de crédito para o agronegócio. Como demanda recurso público para atender um escopo muito grande de agricultores, pode, sim, prejudicar os Planos Safras, o próximo, que nós estamos prestes a anunciar, e os dos próximos anos. A minha insistência é para favorecer o agricultor que tem problema, que está endividado, que demonstra que teve perda, que está numa região que foi afetada, e não reabrir um amplo programa para diminuir taxa de juros a custo do Tesouro e correndo o risco de não ter crédito nos bancos.
E o que houve entre essa última reunião e a votação no Senado? Reforço: vai faltar dinheiro para o Safra? Se não para esse, para os próximos?
Dario Durigan: É uma pergunta que não cabe muito a mim. É importante saber dos senadores da CAE, porque o que foi combinado e acordado no dia anterior na Fazenda não foi seguido. Como não tem aval, não tem acordo da Fazenda, a Fazenda fica à vontade para propor veto, para propor uma outra medida, caso seja necessário e caso esse tema avance. Eu falei com o presidente Davi Alcolumbre. Não tenho condição de fazer uma grande renegociação, estabelecendo teto de taxa de juros para todos os bancos do País. Eu pedi para que ele não caminhasse com a votação em plenário antes de voltar a falar comigo. Não foi votado. Ficamos de fazer uma próxima conversa, ainda sem data.
Vai ser recorde de novo o Plano Safra?
Dario Durigan: Não fechamos ainda o Plano Safra. Temos avançado muito nos planos dos anos anteriores. É claro que a taxa de juros mais alta pressiona a quantidade de recurso que pode ser disponibilizada e também a taxa de juros que vai ser apresentada aos agricultores. Devemos apresentar nas próximas semanas.
Em matéria de pautas-bomba, quais seriam os impactos de uma correção na tabela do microempreendedor e do Simples Nacional?
Dario Durigan: Não podemos discutir agora um aumento do Simples Nacional em geral. O impacto pode chegar a R$ 50 bilhões. Uma discussão pontual sobre MEI, que permite ter um escalonamento do aumento do teto, permite que mitigue o impacto dessa política. Discuto com as equipes e com os outros ministérios um incentivo quando se aumenta o limite do MEI, para que tenha mais contratações de pessoas físicas enquanto MEI e não num modelo celetista. Minha preocupação é previdenciária. O incentivo de contratar MEIs que, de fato, são trabalhadores vinculados com subordinação de emprego, com prejuízo à Previdência. Esse estímulo ao MEI, numa espécie de simplesmente mitigar o custo do empregador, que é um custo da Previdência, pode custar caro para o País na frente. Nós vamos discutir um ajuste no teto do MEI, além da possibilidade de contratar um segundo empregado.
O impacto seria de quanto?
Dario Durigan: É um impacto mitigado, depende do escalonamento que vai ser feito, mas não é para ser um impacto grande. Não deve passar de R$ 5 bilhões.
Em um novo governo, o próximo ministro da Fazenda vai ter cabelo branco por falta de recursos...
Dario Durigan: Ministro da Fazenda sempre vai ter cabelo branco no Brasil. Estamos cheios de pautas-bomba e o momento eleitoral traz isso. Há demandas setoriais. Os deputados e senadores que têm interesses específicos.
O que mais preocupa o senhor?
Dario Durigan: Tem uma série de coisas que me preocupam. Meu esforço é de dialogar com o Congresso e mostrar com argumento qual foi o trajeto construído nos últimos anos, para que a gente mantenha a consistência e coerência do que nós estamos fazendo juntos, governo federal e Congresso Nacional. O tema das dívidas rurais preocupa, porque pode impactar fiscal, Plano Safra, crédito agrícola, gerando um problema de uma outra ordem. Me preocupa bastante. O tema da PEC dos templos também me preocupa. A gente valoriza os evangélicos e as igrejas. Eu propus que a gente tivesse uma espécie de delimitação. Aqui na Fazenda, eu sou uma espécie de pastor, de padre, porque eu tenho o meu ofício de não permitir que, ao aprovar uma PEC dessa, toda a população brasileira pague 1% a mais no CBS e IBS, que é o nosso IVA dual. Não é razoável. Isso vai gerar efeito, isso pode gerar inflação, pode aumentar a taxa de juros, pode aumentar a carga tributária de outros setores. O meu engajamento sobre bomba fiscal é argumentativo.
Fonte: Broadcast Agro.