01/Jun/2026
A possível formação do fenômeno climático El Niño nos próximos meses pode trazer desafios relevantes para a safra brasileira de grãos 2026/27, especialmente na Região Centro-Oeste e no Matopiba (Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia). O risco reside principalmente no atraso do plantio da soja, no encurtamento da janela do milho de segunda safra e na maior ocorrência de veranicos e temperaturas elevadas, o que pode interferir no desenvolvimento satisfatório das lavouras. Embora considere alta a probabilidade de consolidação do fenômeno ainda neste inverno, a tecnologista-meteorologista Laísa Faria Viana, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), alerta para a necessidade de cautela diante de previsões alarmistas sobre um eventual "super El Niño". Ela afirma, ainda, que os principais impactos para o Brasil tendem a se concentrar na irregularidade das chuvas no Centro-Norte do País, enquanto o Sul pode registrar condições mais favoráveis para soja e milho, mas também enfrentar riscos de excesso de precipitações. Viana observa, além disso, que eventuais perdas de produção em importantes polos agrícolas da Ásia e da Austrália podem reduzir a oferta global de commodities, sustentar preços internacionais e abrir oportunidades para as exportações brasileiras. Por outro lado, ressalta que os efeitos sobre o Brasil não são necessariamente positivos, já que o próprio País também pode enfrentar problemas climáticos e produtivos decorrentes do fenômeno. Segue a entrevista:
Vários setores estão tratando esse possível El Niño como uma ameaça global à produção de grãos. Do ponto de vista técnico, o que já é risco real e o que ainda é exagero nas previsões?
Laísa Faria Viana: O uso de termos como "Super El Niño" ou "El Niño Godzilla" tem sido propagado pela mídia muitas vezes sem o devido rigor científico, podendo gerar ansiedade antecipada no produtor. Entretanto, a possibilidade de El Niño se estabelecer é elevada. Mantida a atual dinâmica de aquecimento das águas do Oceano Pacífico, o fenômeno deve se consolidar ainda durante o inverno de 2026. Devido a esse rápido aquecimento, a NOAA publicou, em 14 de maio, o status oficial de "El Niño Watch", que significa que as condições no Pacífico estão evoluindo de forma consistente para a ocorrência do fenômeno climático, com alta probabilidade, de 82%, de consolidação já no trimestre maio-junho-julho. No entanto, o fenômeno não está oficialmente configurado e sua intensidade ainda é uma dúvida. Existe potencial para que o evento atinja intensidade de moderada a forte nos próximos meses, caso as águas subsuperficiais do Pacífico continuem emergindo para a superfície, o que pode fortalecer o fenômeno entre o fim do inverno e o início da primavera de 2026. O período entre abril e maio corresponde à chamada barreira de previsibilidade, quando os modelos climáticos apresentam menor confiabilidade na projeção da intensidade do fenômeno climático. Mas só a partir de junho, a previsibilidade aumenta, permitindo avaliações mais consistentes sobre sua evolução.
Se El Niño se confirmar a partir de meados de 2026, em que janela ele mais pode interferir na safra brasileira de grãos: plantio e desenvolvimento da soja ou semeadura da segunda safra de milho?
Laísa Faria Viana: O período potencialmente mais sensível é o início da safra 2026/27, quando a principal interferência de El Niño pode ocorrer no plantio da soja e, por efeito cascata, na segunda safra de milho. Como o evento costuma intensificar seus efeitos atmosféricos sobre o Brasil entre a primavera e o verão, ele provoca forte irregularidade nas chuvas do Centro-Oeste e do Matopiba logo no início da estação chuvosa. Desta forma, os meses de setembro e outubro passam a registrar longos períodos secos, os veranicos, e temperaturas elevadas, o que força o produtor a empurrar o plantio da soja, muitas vezes para novembro, para evitar falhas de germinação e morte das sementes por falta de água. É exatamente esse atraso na soja que estrangula o calendário agrícola. Ao plantar a soja mais tarde, a colheita também ocorre tardiamente, empurrando a semeadura do milho segunda safra para fora da janela agroclimática ideal ou, no mínimo, para seu limite. Esse atraso representa um risco elevado, pois expõe o milho ao corte abrupto das chuvas de outono antes que a cultura consiga se desenvolver plenamente e encher os grãos.
No Brasil, El Niño costuma trazer mais chuva para o Sul e maior irregularidade no Centro-Norte. Para a safra 2026/27 isso tende a ser mais favorável ou mais perigoso para soja e milho? Onde estaria o maior ponto de atenção?
Laísa Faria Viana: No Sul, o aumento da disponibilidade hídrica frequentemente reduz riscos de estiagem e favorece a soja e milho. Entretanto, episódios persistentes de excesso de chuva elevam riscos de doenças, dificuldades operacionais e perdas na colheita. Entretanto, o maior ponto de atenção para 2026/27 tende a estar no Centro-Oeste e no Matopiba, regiões onde atrasos de chuva e maior frequência de veranicos podem comprometer tanto a soja quanto o milho segunda safra.
O risco para Mato Grosso, Matopiba e Goiás é de falta de chuva, atraso no início do plantio ou excesso de calor? Qual desses fatores pesa mais sobre produtividade e sobre a janela de plantio do milho segunda safra?
Laísa Faria Viana: Nessas áreas, os três fatores importam, porém têm pesos diferentes. Para a definição da janela agrícola, o maior risco é o atraso do início das chuvas, pois interfere diretamente na semeadura da soja e reduz o tempo disponível para semeadura do milho segunda safra. Para a produtividade, o impacto mais severo normalmente ocorre pela combinação entre veranicos prolongados e temperaturas elevadas durante o florescimento e o enchimento de grãos, fases altamente sensíveis ao estresse hídrico.
No Sul do Brasil, um El Niño pode ajudar a recompor a umidade, mas também pode causar excesso de chuva. Para Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, qual é o limite entre favorecer e comprometer a safra?
Laísa Faria Viana: Para as culturas de verão, como soja e milho, o aumento das chuvas é geralmente benéfico. El Niño reduz o risco de estiagens durante o crescimento e o enchimento de grãos, o que frequentemente resulta em produtividades acima da média. O limite desse benefício é ultrapassado quando o excesso de chuva se prolonga para o período de enchimento e colheita. Chuvas persistentes nessa fase podem deteriorar a qualidade dos grãos, dificultar a entrada de máquinas no campo e provocar perdas. Já para as culturas de inverno, como trigo, aveia e cevada, El Niño tende a ser predominantemente prejudicial. Como o Sul já possui umidade elevada no inverno, o aumento adicional das chuvas na primavera favorece epidemias de doenças fúngicas, especialmente a giberela no trigo, e compromete tanto a produtividade quanto a qualidade dos grãos. Além disso, a menor incidência de radiação solar pode afetar o desempenho do arroz irrigado nas áreas de várzea.
A imprensa estrangeira tem destacado o risco para Ásia, Índia e Austrália, com condições mais secas e quentes em regiões agrícolas estratégicas. Isso pode mexer com as commodities agrícolas desses países a ponto de alterar fluxos comerciais e preços internacionais de forma relevante para o Brasil?
Laísa Faria Viana: Sim. Eventos climáticos simultâneos em grandes regiões produtoras têm potencial para alterar oferta global, estoques, preços futuros e rotas comerciais. Secas em partes da Ásia ou da Austrália podem afetar trigo, arroz e algodão. Perdas em outros polos agrícolas podem favorecer as exportações brasileiras e elevar preços internacionais. Por outro lado, o Brasil também pode enfrentar impactos internos, tornando os efeitos econômicos menos lineares do que simplesmente ganhos para exportadores.
Comparando Brasil, Argentina e Estados Unidos, quem tende a perder mais e quem pode ganhar com esse El Niño, considerando soja, milho e trigo?
Laísa Faria Viana: Historicamente, a Argentina costuma apresentar recuperação produtiva em anos de El Niño após períodos secos, principalmente para soja e milho. Nos Estados Unidos, os impactos são mais variáveis e dependem do posicionamento sazonal do fenômeno sobre cinturões agrícolas específicos. Em termos gerais, a Argentina tende a ter maior chance de benefício, enquanto o Brasil apresenta maior heterogeneidade regional.
Se El Niño vier forte, o impacto maior deve aparecer primeiro no campo, nos preços futuros, no seguro rural, no crédito ou nas decisões de área dos produtores?
Laísa Faria Viana: O impacto aparece primeiro nos preços futuros e nas decisões dos produtores. Como El Niño pode ser previsto com antecedência, o mercado reage antes mesmo de a semente ir para o solo. Uma simples mudança na probabilidade do fenômeno já altera os preços futuros, refletindo expectativas de quebra ou recorde de safra. Em seguida, o impacto chega às decisões do produtor. Com a previsão em mãos, ele pode ajustar a época de plantio, escolher as cultivares mais adequadas e definir o nível de investimento. É nessa fase de planejamento que o produtor busca crédito e, a partir dele, contrata o seguro rural, sempre seguindo as regras do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc). O impacto físico no campo, como excesso de chuva, veranicos ou ondas de calor, é a última etapa dessa cadeia. É o evento real que confirma, ou corrige, a tendência já precificada pelo mercado e que, quando adverso, aciona as indenizações do seguro rural.
Fonte: Broadcast Agro.