01/Jun/2026
No artigo passado destaquei que na COP31, na Turquia, deverá ser adotada uma decisão sobre agricultura. Em sintonia com o enfoque de implementação das ações climáticas, que é um legado pela COP30, é mais do que necessário ampliar o financiamento para apoiar os países nas suas políticas e estratégias de agricultura. A ideia deste novo artigo é mostrar, com base nas informações enviadas pelos países ao portal on line de Sharm el-Sheikh, criado na Convenção do Clima (UNFCCC), que há uma ampla diversidade de ações climáticas de agricultura e segurança alimentar (nome acordado para designar práticas de agricultura no contexto de clima). Ao contrário das visões que preconizam o fim da pecuária, do uso de fertilizantes nitrogenados, da agricultura intensiva, do uso da biotecnologia e da edição gênica, não existe uma receita que possa ser adotada em todos os cantos do mundo para evitar perdas e impactos dos sistemas agrícolas decorrentes dos eventos climáticos externos.
Agricultura na UNFCCC é tratada sob um enfoque de adaptação, de resultados de mitigação e de cobenefícios que decorrem dessas ações. Esse reconhecimento levou anos para ser alcançado e respeita a lógica das realidades, necessidades e desafios de cada país que norteiam as contribuições nacionalmente determinadas (NDCs). Isso sugere que há uma miríade de tecnologias e práticas produtivas voltadas para todos os sistemas agrícolas, independentemente do tamanho das áreas produtivas. A Nigéria busca estimular sistemas agrícolas resilientes pela adoção de tecnologias que permitam gerar créditos de carbono por meio de regimes aprimorados de pastoreio abrangendo entre 20 e 50 mil hectares, testar aditivos alimentares para reduzir emissões de metano e lançar um registro piloto de créditos de carbono. Ademais, está investindo na implementação do FarmWiseNG, aplicativo móvel integrado com IA que fornece previsões do tempo personalizadas, estratégias de controle de pragas e preços de mercado.
Já a Alemanha destaca iniciativas voltadas à conservação do solo, monitoramento de carbono e cooperação internacional em agricultura sustentável e mitigação climática. Aponta políticas públicas voltadas para ampliar práticas de conservação do solo como cultivo reduzido, plantio direto, rotação de culturas, culturas de cobertura e aplicação de compostos e projetos internacionais e multilaterais com apoio a mais de 200 projetos entre 2014 e 2024, incluindo parceria com a FAO para o desenvolvimento de uma ferramenta para pecuária de baixo carbono. Por sua vez, o Quênia apresentou projetos com foco no enfrentamento de vulnerabilidades climáticas, como secas persistentes e chuvas extremas. Possui como objetivos a automação e disseminação de avisos agrícolas gerados por IA utilizando dados históricos, o fortalecimento de cooperativas de pequenos agricultores e a promoção de parcerias público-privadas para facilitar compras de insumo em grande escala e reduzir custos de produção.
Entre as principais iniciativas, destacam-se o manejo sustentável dos ecossistemas com a meta de restaurar 2,4 milhões de hectares de pastagens degradadas até 2031 e a expansão do seguro de pecuária para proteger mais de 200 mil famílias contra riscos climáticos. A Austrália, país que copreside a COP31 com a Turquia liderando as negociações, tem uma agricultura extremamente competitiva e destaca políticas voltadas à agricultura sustentável e segurança alimentar, com ênfase em práticas de baixo carbono, resiliência climática e rastreabilidade das cadeias produtivas. Entre as principais iniciativas adotadas vale apontar o Programa de Agricultura Climaticamente Inteligente; o Framework Australiano de Agricultura Sustentável; a Estratégia Nacional de Rastreabilidade Agrícola (2023-2033) e a Estratégia Nacional do Solo. Na Nova Zelândia, a agricultura de baixo carbono se baseia em tecnologias para acelerar pesquisa e desenvolvimento e a comercialização de ferramentas de mitigação de emissões.
A AgriZeroNZ é uma parceria público-privada que investe em ferramentas tecnológicas inovadoras, como aditivos alimentares e vacinas para reduzir metano. Espera-se reduzir as emissões em 30% até 2030 e chegar perto de zero até 2040. Além disso, criou um guia de medição de emissões, com uma metodologia padronizada lançada em dezembro de 2024 para apoiar os agricultores no cálculo no acompanhamento das emissões de GEE provenientes das fazendas. O Brasil apresentou o Plano ABC+, que tem o potencial de disseminar tecnologias de baixa emissão de carbono em 72,68 milhões de hectares até 2030, podendo reduzir até 1Gt CO2eq. Adicionalmente, foram demonstradas estratégias de inclusão da agropecuária e agricultura familiar no contexto de ações climáticas, bem como de estratégias para reduzir emissões na aquicultura e na pesca. Todos esses enfoques evidenciam que há uma multiplicidade de agriculturas que precisam de inovação contínua.
Desde sistemas meteorológicos avançados, agricultura de precisão e ferramentas de inteligência artificial, passando por tecnologias amplamente disponíveis para recuperar áreas degradadas, ampliar a implementação de sistemas integrados, fomentar o uso de bioinsumos, incluindo fertilizantes verdes, fortalecer a produção de florestas comerciais e de biocombustíveis sustentáveis, dentre outras ações que permitam catalisar produção de alimentos e energias renováveis associada a ganhos de adaptação e mitigação. O objetivo de adaptação ligado à agricultura precisa ser amplamente amadurecido. Na prática, a falta de água, a degradação contínua dos solos, a disseminação de pragas e a intensificação dos eventos climáticos extremos, como é o caso do El Niño neste ano, incrementam os riscos que ameaçam os sistemas produtivos. Estar preparado para enfrentar esses riscos torna-se, cada vez mais, uma questão estratégica para a agricultura.
Esse amplo leque de ações climáticas de agricultura e segurança alimentar precisa ser substancialmente ampliado e isso requer catalisar recursos financeiros, facilitar acesso a financiamento, estimular a captação de financiamento pelos países e o envolvimento do mercado financeiro em investimentos, além de promover cooperação e parcerias entre países, empresas e sociedade civil. O comércio internacional é outro potencial aliado da produção sustentável, na medida em que os países reconheçam os enfoques de agropecuária de baixo carbono dos seus parceiros comerciais e valorizem os atributos climáticos nas transações comerciais. Na reunião de clima em Bonn, em junho de 2026, ocorrerá o primeiro encontro do grupo que o Brasil conseguiu criar na COP30, sobre mudanças do clima e comércio internacional. Na perspectiva de agricultura, torna-se central discutir como a agricultura livre de desmatamento, que recupera áreas degradadas, que entrega biocombustíveis com baixa intensidade de carbono e produtos com menor intensidade, podem ter acessos preferenciais via redução tarifária e quotas, por exemplo.
Vale pensar em futuros acordos entre países produtores e importadores, onde se estabelecem parcerias, transferência de tecnologias e até investimentos lastreados na implementação da agropecuária de baixo carbono. Esses temas precisam ganhar espaço na UNFCCC quando se observa a demanda dos países para aprimorar suas Agriculturas. As transições que as agriculturas no mundo demandam para enfrentar impactos climáticos e tornar viável a segurança alimentar global e o bem-estar dos produtores, independentemente do seu tamanho e sistema produtivo, são, por natureza, capital intensivo e dependentes de um amplo rol tecnológico, incluindo seguros. Arrisco dizer que as bases para amadurecer essa discussão estão postas. E que a capacidade de estimular agriculturas inovadoras, que se tornem efetivamente resilientes e possam continuar produzindo de forma sustentável em ritmo sustentado de longo prazo, exigirá, cada vez mais, ampliar inovação, financiamento e cooperação. Fonte: Rodrigo C. A. Lima. Broadcast Agro.