28/May/2026
O avanço das projeções climáticas para um possível El Niño forte ou muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027 reforça a percepção de encurtamento do intervalo entre os eventos mais intensos registrados desde a metade do século passado. Caso o episódio previsto confirme intensidade acima de 2°C no Oceano Pacífico Equatorial, o mundo poderá registrar dois eventos extremos em intervalo inferior a cinco anos, cenário considerado incomum na série histórica moderna. Desde 1950, cinco episódios foram classificados por parte da comunidade científica como “super” El Niño ou El Niño muito forte. Os principais registros ocorreram em 1972/73, 1982/83, 1997/98, 2015/16 e 2023/24. O fenômeno de 2015/16 segue como o mais intenso da era instrumental, com aquecimento aproximado de 2,6°C acima da média na região Niño 3.4, utilizada pela Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) como referência de monitoramento. O episódio de 2023/24 permanece em debate entre pesquisadores.
Parte dos cientistas considera que o fenômeno atingiu intensidade suficiente para ser incluído entre os super El Niños, já que o aquecimento chegou próximo de 2°C, limiar frequentemente associado aos eventos historicamente fortes. Outros especialistas entendem que o episódio permaneceu ligeiramente abaixo do patamar extremo. A discussão ganha relevância porque altera a percepção sobre a frequência dos eventos severos. Entre 1972 e 1982 houve intervalo de dez anos. Depois, o espaço entre os episódios aumentou para 15 anos entre 1982 e 1997 e para 18 anos entre 1997 e 2015. Com a inclusão de 2023/24, porém, o intervalo caiu para oito anos. Caso um novo evento muito forte se confirme em 2026/27, o período entre super El Niños poderá cair para apenas três anos. As projeções atuais da NOAA indicam 96% de probabilidade de persistência do El Niño entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027. Modelos climáticos do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas (ECMWF) chegaram a projetar aquecimento próximo de 3°C em determinados cenários, embora ainda exista elevado grau de incerteza.
A NOAA utiliza o Oceanic Niño Index (ONI) para medir a intensidade do fenômeno, baseado na temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 do Pacífico Equatorial. Pela classificação normalmente utilizada, aquecimento acima de 1,5°C caracteriza evento forte, enquanto níveis próximos ou superiores a 2°C entram na categoria muito forte ou historicamente forte. Os cientistas destacam que a atmosfera funciona como um sistema caótico, o que amplia divergências entre modelos meteorológicos e reduz a previsibilidade de longo prazo. Pequenas diferenças nas condições iniciais e nos parâmetros de simulação podem gerar resultados bastante distintos entre centros de previsão. Os impactos históricos dos super El Niños foram amplos e afetaram produção agrícola, recursos hídricos, energia e segurança alimentar em diferentes regiões do planeta. O episódio de 1972/73 provocou secas severas na América Central, Austrália, Índia, Indonésia, Brasil e partes da África, além do colapso da pesca no Peru. O evento de 1982/83 gerou enchentes no Peru, secas intensas no Nordeste brasileiro e milhares de mortes.
Em 1997/98, considerado o mais forte do século XX, o fenômeno esteve associado a cerca de 23 mil mortes no mundo, perdas expressivas em recifes de coral e surtos epidêmicos na África Oriental. Já o episódio de 2015/16 afetou mais de 60 milhões de pessoas e intensificou secas e queimadas na Amazônia. O evento de 2023/24 esteve relacionado a recordes globais de temperatura, estiagens históricas na Amazônia e enchentes severas no Rio Grande do Sul. O fenômeno também contribuiu para que a temperatura média global ultrapassasse temporariamente 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. No Brasil, os modelos climáticos indicam risco elevado de irregularidade hídrica caso o novo evento se intensifique. As projeções apontam tendência de redução das chuvas no Norte e Nordeste, aumento das temperaturas e agravamento das condições de seca. Ao mesmo tempo, o Sul do País pode enfrentar maior frequência de chuvas intensas, enchentes, enxurradas e deslizamentos, especialmente entre primavera e verão.
O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) identifica o Rio Grande do Sul como a área com sinal mais robusto de aumento do risco hidrológico em um cenário de El Niño intenso. Santa Catarina e Paraná também aparecem sob maior risco de extremos de precipitação, embora com maior variabilidade regional. Além dos efeitos sobre chuvas, pesquisadores destacam que a combinação entre El Niño e aquecimento global tende a intensificar ondas de calor, incêndios florestais e perdas agrícolas. A Amazônia e o Pantanal permanecem entre as áreas mais vulneráveis à associação entre seca prolongada e temperaturas elevadas. Apesar do avanço das projeções, os centros meteorológicos ressaltam que ainda não há definição sobre a intensidade final do fenômeno. As probabilidades continuam distribuídas entre diferentes cenários, sem predominância absoluta de uma única categoria climática. A expectativa é de maior precisão dos modelos a partir de junho, com a redução da chamada barreira de previsibilidade da primavera do Hemisfério Norte. Fonte: G1. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.