20/May/2026
Segundo a consultoria Veeries, o setor brasileiro de grãos entra no quarto ano consecutivo de preços pressionados para soja e milho, em um cenário de margens reduzidas, aumento da desigualdade de produtividade entre produtores e mudanças estruturais no mercado global de alimentos. O atual ciclo de baixa nos preços apresenta intensidade menor que a crise observada em 2005 e 2006, mas possui duração mais prolongada e efeitos disseminados ao longo da cadeia produtiva. Atualmente, a soja é negociada próxima de R$ 100,00 por saca de 60 Kg em Mato Grosso, em torno de R$ 110,00 por saca de 60 Kg no Centro-Oeste e próxima de R$ 120,00 por saca de 60 Kg no Rio Grande do Sul. A recuperação mais consistente dos preços tende a depender de algum choque climático relevante na oferta global, embora ainda não exista visibilidade sobre o momento desse eventual ajuste.
Nas últimas duas décadas, o crescimento da produção brasileira de soja e milho foi sustentado por expansão de área, câmbio competitivo, ganhos de produtividade, perfil empreendedor do produtor rural e forte crescimento da demanda chinesa. Nesse período, a área plantada avançou quase 4% ao ano, enquanto a produção cresceu aproximadamente 6% ao ano e as exportações aumentaram perto de 8% ao ano. Para os próximos anos, a dinâmica global deverá mudar. O mercado internacional tende a migrar de um modelo baseado prioritariamente em eficiência produtiva para outro com maior peso para segurança de abastecimento, resiliência logística e confiabilidade das cadeias globais. Nesse ambiente, o Brasil pode ampliar participação como fornecedor estratégico de alimentos, especialmente diante das incertezas comerciais e geopolíticas envolvendo os Estados Unidos. A China deverá permanecer como principal mercado para a soja brasileira, porém com menor capacidade de impulsionar o crescimento do setor nos mesmos níveis observados nas últimas décadas.
O governo chinês mantém metas de aumento da autossuficiência em soja, atualmente estimada em cerca de 15%, com objetivo de alcançar 60% por meio de expansão de área, ganhos de produtividade e adoção de novas tecnologias transgênicas. Apesar disso, a execução dessas metas continua limitada. Há dez anos, a China projetava importar 83 milhões de toneladas de soja em 2025, mas o volume efetivo alcançou 112 milhões de toneladas. Para 2030, o plano chinês projeta importações de 99 milhões de toneladas, enquanto a consultoria estima demanda de 126 milhões de toneladas. Para 2035, a projeção oficial chinesa é de 82 milhões de toneladas, frente à estimativa de 137 milhões de toneladas calculada pela Veeries. O crescimento da demanda global deverá se deslocar gradualmente para regiões como África Subsaariana, Oriente Médio, Norte da África e Índia. Essas regiões devem concentrar parcela relevante do crescimento populacional mundial na próxima década.
A Índia deverá adicionar aproximadamente 112 milhões de habitantes no período, aproximando-se da faixa de renda per capita historicamente associada ao aumento do consumo de proteínas observado anteriormente na China. Entretanto, esses novos mercados não apresentam velocidade de expansão comparável à chinesa, reduzindo o potencial de substituição integral do papel desempenhado pela China no crescimento da demanda global de commodities agrícolas. Mudanças nos padrões de consumo também aparecem no radar do setor. A ampliação do uso de medicamentos para emagrecimento baseados em GLP-1 nos Estados Unidos pode reduzir o consumo alimentar per capita, especialmente em produtos de maior volume. Aproximadamente 10% da população norte-americana já utiliza medicamentos desse tipo. Entre os usuários, parte reduziu o número diário de refeições, movimento que poderá afetar a demanda agregada por alimentos e proteínas no longo prazo.
Dentro da porteira, destaca-se o aumento das diferenças de produtividade entre produtores. Na soja, o grupo mais eficiente ampliou a produtividade em 19 sacas de 60 Kg por hectare nos últimos dez anos, enquanto o quartil inferior avançou apenas 6 sacas de 60 Kg por hectare no mesmo período. No milho de 2ª safra, os municípios mais produtivos também ampliaram distância em relação às regiões de menor eficiência. A elevação da produtividade média dos produtores intermediários deverá representar uma das principais oportunidades estratégicas do agronegócio brasileiro nos próximos anos. Em contrapartida, propriedades com baixa eficiência e margens pressionadas tendem a enfrentar maiores dificuldades de permanência na atividade. O cenário reforça a crescente heterogeneidade do agronegócio brasileiro, com diferenças cada vez mais relevantes entre regiões, níveis tecnológicos e modelos produtivos. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.