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15/May/2026

Agronegócio brasileiro precisa de mudanças culturais

Segundo a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o agronegócio brasileiro precisa promover mudanças culturais e reconhecer contradições ligadas à expansão da fronteira agrícola, ao desmatamento ilegal e à exclusão de populações vulneráveis. O setor precisa abandonar uma postura defensiva e admitir problemas estruturais ainda presentes no modelo de crescimento do agronegócio brasileiro. A discussão deve avançar além da expansão contínua da produção e considerar inclusão social e responsabilidade ambiental. O discurso de que ganhos de produtividade eliminariam a necessidade de abertura de novas áreas agrícolas foi criticado. Apesar da modernização tecnológica, a expansão territorial continua ocorrendo, acompanhada de contradições como o desmatamento ilegal. O debate ambiental não deve colocar o agronegócio em oposição aos povos indígenas.

O setor tem responsabilidade social diante de populações vulneráveis e deveria assumir papel mais ativo na proteção dessas comunidades. Parte relevante das lideranças do agronegócio continua concentrada na expansão dos negócios, mesmo em meio ao discurso de maior eficiência produtiva. Há uma contradição entre a defesa pública de crescimento sustentável e o contínuo aumento de áreas cultivadas por grandes grupos do setor. O agronegócio brasileiro precisará equilibrar produtividade, inclusão social e responsabilidade ambiental para construir uma narrativa mais consistente no mercado internacional e junto à sociedade brasileira. Para a Fundação Dom Cabral (FDC), o agronegócio brasileiro ainda utiliza narrativas simplificadas e ufanistas para defender sua imagem internacional e precisa enfrentar problemas estruturais, como grilagem de terras e desmatamento ilegal na Amazônia, para melhorar sua reputação global.

O uso de discursos genéricos pelo setor, como “alimentamos 1 bilhão de pessoas” ou “somos o agro mais sustentável do mundo” não contribuem para construir estratégias sólidas de posicionamento internacional. O setor ainda reage de forma defensiva às críticas, sem planejamento consistente de longo prazo. Isso contribui para ampliar divisões e percepções extremadas sobre o agronegócio. Há distanciamento crescente entre parte da população urbana e o campo. Em experiência recente com jovens da capital de São Paulo, observou-se predominância de avaliações negativas sobre o agronegócio entre participantes mais jovens. Parte das críticas está ligada à percepção de que ganhos de produtividade são obrigações inerentes à competitividade econômica, e não diferenciais ambientais do setor. Apesar das críticas, há pontos positivos do agronegócio brasileiro, especialmente na oferta de alimentos acessíveis no mercado doméstico.

O País mantém refeições nutricionalmente completas a preços competitivos em relação a outros mercados internacionais. Porém, persistem problemas graves ligados ao avanço ilegal sobre áreas da Amazônia. Desmatamento ilegal, grilagem e expansão de atividades agropecuárias em áreas irregulares continuam afetando a imagem do setor no exterior. Temas ambientais seguem dominando a percepção internacional sobre o agronegócio brasileiro. Os assuntos mais associados ao Brasil no exterior são desmatamento, queimadas e questões relacionadas aos povos indígenas. A FDC defendeu que a preservação da Amazônia será decisiva para a inserção internacional do Brasil e afirmou que o setor precisa reconhecer avanços, mas também admitir fragilidades estruturais que ainda precisam ser enfrentadas.

O agronegócio brasileiro avançou na incorporação da agenda de sustentabilidade e clima, mas ainda enfrenta desafios ligados ao desmatamento ilegal, à governança corporativa e à valorização de ativos ambientais para ampliar sua competitividade internacional. A Fauna Projetos afirmou que o setor apresentou postura mais alinhada às discussões globais de sustentabilidade durante a COP30, realizada em Belém (PA), no ano passado. Houve evolução no posicionamento do agronegócio em relação ao debate climático e ambiental. Porém, que o combate ao desmatamento ilegal permanece como um dos principais desafios do setor. Parte relevante dos impactos ambientais estaria concentrada em um grupo reduzido de grandes produtores. Cerca de 2% dos grandes produtores responderiam por 98% do desmatamento, cenário que compromete a imagem internacional do agro brasileiro.

O Fórum Econômico Mundial avaliou que as grandes empresas do setor têm avançado na adoção de práticas socioambientais, impulsionadas por exigências regulatórias e de investidores. Relatórios ambientais e de governança passaram a integrar rotinas de compliance corporativo. Apesar disso, o agronegócio ainda apresenta fragilidades em governança e transparência, fatores considerados relevantes para investidores internacionais. O mercado busca maior clareza sobre estratégia, gestão e modelos de negócios das empresas do setor. A Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) afirmou que o Brasil ainda comunica de forma insuficiente seus diferenciais ambientais. O País possui vantagens competitivas relevantes, como o Código Florestal, ativos de carbono em florestas nativas e plantadas e menor dependência de combustíveis fósseis em comparação com outros países produtores.

A agropecuária brasileira desempenha múltiplas funções ambientais, conciliando produção de alimentos, conservação da biodiversidade e armazenamento de carbono. O cenário geopolítico global reforça a importância de sistemas produtivos mais descarbonizados. O avanço da agenda ambiental no agronegócio dependerá da capacidade do setor de enfrentar problemas estruturais, fortalecer a governança e transformar sustentabilidade em diferencial econômico concreto no mercado global. Para a Fauna Projetos, o agronegócio brasileiro passou a reconhecer os impactos das mudanças climáticas sobre a produção, mas ainda precisa avançar em adaptação, combate ao desmatamento ilegal e redução da dependência de insumos importados. Eventos climáticos extremos já provocam perdas relevantes na agropecuária brasileira.

Na cafeicultura, por exemplo, a produção nacional de café registrou perdas de 12% em 2024 em decorrência das condições climáticas adversas. Destaque também para os impactos econômicos de eventos extremos na Região Sul do País. Estimativas iniciais apontavam prejuízos potenciais de R$ 20 bilhões em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, mas as perdas efetivamente registradas teriam alcançado US$ 20 bilhões. Parte do setor já vem adotando práticas para ampliar a resiliência produtiva, com destaque para sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF). A inserção de árvores nos sistemas produtivos contribui para redução de temperatura e maior estabilidade das lavouras, especialmente na cafeicultura. É preciso eliminar o desmatamento ilegal. A degradação ambiental afeta diretamente o ciclo hidrológico e a produtividade agrícola. O desmatamento na Amazônia influencia o regime de chuvas e a agricultura do Centro-Oeste brasileiro.

O Brasil já possui ferramentas técnicas e métricas para monitorar emissões e ganhos ambientais da agropecuária tropical, mas ainda comunica de forma insuficiente esses avanços ao mercado internacional. Instituições como Esalq/USP, Embrapa e FGV estruturaram iniciativas voltadas à ampliação de métricas ambientais para o setor. Destaque para avanços em regiões vulneráveis do Semiárido nordestino. Políticas de convivência com a seca e a instalação de mais de 800 mil cisternas contribuíram para retirar cerca de 1 milhão de pessoas da condição de vulnerabilidade hídrica. No mercado de fertilizantes, a elevada dependência brasileira de insumos importados foi criticada. A interrupção da produção de ureia pela Petrobras em 2015 ampliou a vulnerabilidade do País diante das atuais tensões geopolíticas e da alta dos fertilizantes nitrogenados. Sustentabilidade e segurança produtiva precisam avançar de forma conjunta, em um cenário de maior pressão internacional sobre a agropecuária brasileira. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.