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07/May/2026

Entrevista com Pedro Lupion – presidente da FPA

O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado federal Pedro Lupion (Republicanos-PR), diz que o setor agropecuário vem sendo "punido" por um posicionamento ideológico diferente daquele do governo Lula. Ele menciona ataques ao setor quase diários, com mudanças em decretos, portarias e resoluções, os quais, afirma, levam à reação da bancada. "O governo está, cada dia mais, falando para a sua própria bolha e a bolha que o apoia é contrária ao agro", avalia Lupion. Líder da maior bancada temática do Congresso, com 342 parlamentares, Lupion reconhece avanços da gestão Lula em biocombustíveis e aberturas de mercado, mas critica o enfraquecimento do Ministério da Agricultura no poder decisório do Executivo. "As demandas do setor são extremamente importantes e tem de haver o mínimo de interesse desse governo em atender o setor. Às vezes não há esse interesse e, por isso, a crítica", justificou. Lupion reconhece que o tensionamento entre agronegócio e Executivo ocorre em momento em que o setor dependerá mais de apoio do governo federal. "Realmente, há uma tempestade perfeita que atinge o setor", disse, citando a necessidade de Plano Safra robusto e renegociação das dívidas rurais. Segue a entrevista:

O agronegócio tem falado que vive uma tempestade perfeita. Diante desta conjuntura, o setor dependerá mais do apoio do governo federal neste ano?

Pedro Lupion: Muito. É um ano extremamente difícil. Realmente, há uma tempestade perfeita. Isso é resultado de uma série de fatores que culminaram todos neste ano: aumento expressivo do custo de produção com insumos agropecuários caros, a questão geopolítica internacional, os preços baixos das commodities, frete e diesel elevados, custo alto com mão de obra, crédito escasso e caro, produtores endividados, dificuldade de disponibilidade de fertilizantes, juros reais com custo efetivo de 20% ao produtor. Com todo esse cenário, o produtor põe o pé no freio - reflexo visto nas feiras agropecuárias, com retração de 22% na Agrishow. É uma situação extremamente preocupante. Não é uma questão de volume de produção, porque a produtividade se mantém. Os problemas advêm do valor de comercialização dos produtos e da pressão do custo de produção.

Quais são as medidas necessárias para socorrer o setor?

Pedro Lupion: Começa por um Plano Safra com juro equalizado de fato e com disponibilidade de crédito no mercado, porque não adianta nada fazer um Plano Safra mirabolante que acabe em uma semana. Seguro rural é outro tema extremamente preocupante, após dois últimos Planos Safras sem recursos destinados para a subvenção do seguro rural. Isso é um problema muito sério, porque isso torna o crédito mais caro. Seguro rural hoje é inexistente, sobre o qual temos um projeto de lei de modernização que visa torná-lo adequado ainda para a próxima safra.

A FPA costuma ser crítica em relação ao atual governo. Como conciliar essa postura combativa com a necessidade de articulação de medidas em prol do setor especialmente neste ano?

Pedro Lupion: O posicionamento é o mesmo dos últimos três anos: criticamos o governo quando tem de ser criticado, mas abrimos o diálogo quando é necessário. Não temos porta fechada em lugar nenhum. As demandas do setor são extremamente importantes e tem de haver o mínimo de interesse desse governo em atender minimamente o setor. Às vezes não há esse interesse e, por isso, a crítica. Precisamos demonstrar quando está errado e tentar buscar soluções para cada um dos desafios. Entoaremos as críticas conforme forem tratadas as demandas do setor.

2025 foi um ano de tensionamento nessa relação entre Executivo e bancada agropecuária. O que podemos esperar para 2026, tratando-se de ano eleitoral? Pode piorar?

Pedro Lupion: Agora o governo começa a mostrar as garras do poder. O governo está, cada dia mais, falando para a sua própria bolha e a bolha que apoia o seu governo é contrária ao agro. As demonstrações estão todas aí: resolução do Conama, resolução do Conselho Monetário Nacional, comitê gestor da reforma tributária querendo emissão de nota fiscal de produtor não contribuinte. Há uma série de cascas de banana que estão no caminho. Os pontos e as vírgulas que vêm nos decretos, nas portarias, nas resoluções, atrapalham muito o dia a dia. Então, isso todos os dias tende a tensionar.

O senhor disse na Agrishow que o setor era respeitado no governo Bolsonaro e não na gestão atual. O governo Lula não fez nada favorável ao agronegócio, na sua opinião?

Pedro Lupion: Fez algumas coisas importantes como, por exemplo, a abertura de mercados que faz com que os nossos produtos cheguem mais longe. Isso não dá para negar, mas é uma política começada lá atrás pela ex-ministra Tereza Cristina e que foi continuada. Por outro lado, infelizmente, o Ministério da Agricultura perdeu totalmente o protagonismo na tomada de decisão dentro do governo e isso enfraquece o setor. Quando for para elogiar, elogiamos o governo, bem como quando for necessário criticar, criticamos. Todos os avanços que tivemos no setor foram em consequência a reações que a bancada e o Congresso tiveram contra medidas que seriam prejudiciais ao agronegócio.

O novo ministro da Agricultura, André De Paula, visitou a FPA e falou em inaugurar uma nova fase na interlocução com a bancada. Essas pontes estão mesmo sendo construídas?

Pedro Lupion: Temos um bom diálogo com ele, que vem do Parlamento, com mandatos acumulados. Mas é um tempo escasso à frente da pasta. É possível principalmente evitar muitos danos ao setor, como na revisão de dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes) para a concessão do crédito rural, o que está travando o financiamento ao produtor em todo o Brasil. O próprio ministro da Agricultura entendeu o tamanho do problema e está nos ajudando a resolver.

O senhor citou o Plano Safra como uma das principais medidas que o setor agropecuário vai precisar neste ano. Os pedidos do setor vão de R$ 623 bilhões a R$ 674 bilhões, com necessidade de orçamento do Tesouro de R$ 25 bilhões. São números factíveis?

Pedro Lupion: Não acredito que o governo chegará perto disso. A irresponsabilidade fiscal do governo é tão grande que eles não têm de onde tirar esse valor. O Plano Safra hoje não chega a 25% do montante do financiamento do setor. O problema é que muitos dos que financiam o setor estão quebrados. Precisamos encontrar essas alternativas. Esses números são os desejados, mas acho muito difícil alcançarmos. Além disso, não adianta ter um Plano Safra mirabolante com o produtor endividado sem conseguir acessar o crédito. A renegociação das dívidas rurais precisa ser resolvida porque estamos chegando em ponto sem volta, similar ao visto na década de 1990.

No ano passado, a bancada foi criticada por parte de entidades do setor pela postura reativa e pouco propositiva. O que levou a isso? É uma questão do contexto atual?

Pedro Lupion: Temos que reagir quando o setor é atacado e, infelizmente, com o atual governo temos que reagir todos os dias. Todo dia tem uma novidade que pede reação. Ao mesmo tempo, estamos trabalhando em uma nova lei para ampliar os títulos agrícolas, a Lei do Agro 3. Isso é propositivo, bem como a modernização do seguro rural. Agora, no meio desse caminho, a gente tem de ficar reagindo, com PDL, denúncia.

O agronegócio, em geral, deve manter a resistência à reeleição do presidente Lula neste ano, tendo em vista o pleito de 2022?

Pedro Lupion: O produtor rural, sim. O agronegócio é amplo demais e tem grandes conglomerados empresariais que têm o maior interesse pela permanência do Lula. Mas o produtor rural, na média, com certeza prefere um governo mais à direita do que à esquerda. Isso é uma questão ideológica muito clara. Inclusive, o setor tem um entendimento que está sendo punido nesses anos por ter um posicionamento ideológico diferente ao do governo.

Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.