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05/May/2026

Alimentos podem ser fonte de pressão inflacionária

Para além do choque dos efeitos da guerra, principalmente nos combustíveis, outro grupo começa a aparecer no radar como fonte de pressão inflacionária maior do que o previsto este ano e no próximo. A dinâmica benigna dos alimentos observada em 2025 pode dar lugar a dois anos seguidos de alta acima do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), impondo ainda mais dificuldade à tarefa do Banco Central de trazer o indicador à meta de 3%. Mais do que a escalada dos preços de fertilizantes causada pelo conflito entre Estados Unidos e Irã, que bloqueou o escoamento de parte relevante da produção do insumo, entram na conta também intempéries climáticas que têm potencial de causar uma tempestade perfeita para a inflação.

Em primeiro lugar, há a probabilidade não desprezível de que o El Niño de 2026 seja forte. O evento, que ocorre em meados do ano, coincidiria com o período seco na Região Sudeste. Esta seria uma combinação que, em um cenário extremo, pode adicionar até 2% à alta do IPCA no acumulado do biênio. Grupo de maior peso no índice oficial de inflação, que mede a variação de preços de uma cesta de consumo de famílias com rendimentos de 1 a 40 salários-mínimos, a parte de alimentação e bebidas representa mais de um quinto (21,3%) do IPCA. Esse percentual sobe a 24,3% no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), cuja cesta abrange famílias com renda mensal entre um e cinco salários-mínimos. Segundo a RB Investimentos, os clientes do agronegócio estão bastante preocupados com o aumento dos fertilizantes.

Os produtores já estão tentando travar preços em patamar mais alto. Uma parte diminui em lucro, e a outra é repassada. Os alimentos ficarão mais caros, porque não tem como fugir da alta desse insumo. Segundo estudo da Warren Investimentos, seis itens figuram no topo da lista de maior peso que, além de possuírem elevada sensibilidade ao aumento do petróleo, mostram repasse de forma rápida, com transmissão em até um mês do choque. São eles carnes; carnes e peixes industrializados; aves e ovos; leite e derivados; panificados, e óleos e gorduras. Mas também há itens alimentares nos grupos de repasse com média velocidade, que ocorre entre dois e quatro meses, tais como cereais, leguminosas e alimentação fora de casa, e, ainda, no grupo de repasse lento, que se dá cinco meses ou mais após o choque: farinha, féculas e massas e bebidas e infusões.

Assim, estes preços representam uma parte significativa do impacto total, calculado em 1,7% até 2027, do grupo de preços sensíveis à elevação do barril de óleo tipo Brent no IPCA. Os efeitos vêm dos custos de deslocamento dos produtos, principalmente no leite, e do avanço dos fertilizantes, que se concentram mais em 2026 do que no ano seguinte. Alimentos in natura capturam o efeito de fertilizantes mais caros de forma rápida. Mas na parte de grãos e commodities, dependendo de quanto a safra 2026/2027 encarecer devido ao choque, o impacto pode ser mais significativo em 2027. A MB Associados está mais preocupada com a dinâmica dos alimentos no próximo ano do que no atual. Em suas estimativas, o IPCA de alimentação e bebidas pouco vai desacelerar entre 2026 e 2027, de 5,4% para ao redor de 5%, mas os riscos são para cima.

Esse ano tem uma pressão sazonal normal de alimentos, mas esse combo que pode afetar 2027 é mais preocupante, com o efeito adicional de fertilizantes, que depende do andamento da guerra. Caso o El Niño de fato escale para forte, possibilidade considerada por entidades como a Organização Meteorológica Mundial (OMM) e o Centro Europeu de Previsão Meteorológica de Médio Prazo, coincidir com o déficit hídrico na fase crítica do milho da 2ª safra de 2026, de abril a junho, e o câmbio se depreciar, haverá um impacto de 0,39% a 0,49% na inflação ao mês. Nessa hipótese, a inflação acumulada em 12 meses de alimentação pode bater em 10% ainda este ano. Ainda não é o cenário mais provável, mas tem uma possibilidade não trivial.

Mesmo o cenário-base é desafiador para o Banco Central por adicionar mais um elemento de risco em um IPCA já pressionado. A G5 Partners aponta que anos com formação do El Niño registraram inflação anual média de alimentos de 11,6%. Sem o fenômeno climático, o dado ficou em 6,1%. Culturas de safra curta, como legumes, verduras, frutas, podem ser impactadas. Assim, haverá uma inflação maior de alimentos no segundo semestre. Se o evento começar em junho, o efeito nos preços fica mais concentrado este ano. Caso o início se dê em agosto, a produção de alimentos in natura seria mais afetada em 2027. Nas estimativas da G5, a variação dos alimentos no domicílio vai avançar de 5% este ano a 7% no próximo. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.