24/Apr/2026
Logo após os primeiros ataques norte-americanos e israelenses ao Irã, longas filas se formavam em um posto de gasolina de Sialkot, uma cidade no interior do Paquistão, quando um motorista desceu do carro e pediu para que o frentista enchesse dois galões de gasolina para ele. O funcionário se negou, pois é ilegal no país vender combustível em galão. O motorista foi embora furioso. Uma hora depois, retornou armado e matou o trabalhador. A morte do frentista paquistanês em 8 de março é um exemplo dramático do ‘efeito dominó’ provocado pela guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã no consumo global de energia. A principal retaliação iraniana ao conflito, o fechamento do Estreito de Ormuz, tem ampliado os preços dos combustíveis em diversos países, com consequências que, em alguns casos, têm saído do controle. Nos países que mais dependem do petróleo como fontes de combustível saques e protestos se espalham. Alguns já enfrentam desabastecimento.
Os mais afetados são países da Ásia, altamente dependentes do petróleo do Golfo. Nas Filipinas, o governo decretou emergência nacional pelo risco de desabastecimento de energia. Em Bangladesh, grupos criminosos invadem postos de gasolina à noite para roubar combustível. O Sri Lanka está fazendo racionamento de combustível por meio de QR Code. Mortes como a do frentista do Paquistão também foram relatadas na Índia e em Bangladesh. Companhias aéreas da Europa, Índia, Nova Zelândia e Estados Unidos cancelaram voos por causa do exorbitante preço do combustível de avião. A União Europeia e o Reino Unido já temem um apagão aéreo pela crise. Só a alemã Lufthansa fala em cancelar 20 mil voos nos próximos meses. Fazendeiros protestam dirigindo lentamente seus tratores para denunciar a falta de combustível para máquinas agrícolas na Irlanda, na França e na Noruega.
Na África e na Ásia, governos estão orientando as populações a desligar o ar-condicionado, em países onde o calor pode chegar a 40ºC. No inverno a situação pode ficar ainda pior sem gás para aquecimento. No Caribe, haitianos queimam pneus em protestos contra o aumento de preços. Na Oceania, Austrália e Nova Zelândia orientam a não fazer viagens longas ou, se for necessário, optar por ônibus. O FMI projetou que o crescimento da economia mundial será muito menor do que o previsto por causa desta guerra. As idas e vindas sobre o destino do Estreito de Ormuz são mais um indício de que vai demorar para a situação se normalizar. Economistas estimam que a crise vai se agravar se o preço do barril de petróleo ultrapassar a barreira dos US$ 100,00. Medidas de racionamento, fechamento de comércios e limitação de deslocamentos que foram adotadas por alguns governos também têm elevado os ânimos em países mais vulneráveis.
Estudo da Universidade de Londres sobre a correlação entre alta dos preços da energia e insatisfação popular explica que esse tipo de crise não se trata apenas de uma explosão de raiva popular, mas de sentimento de traição em relação ao governo, independentemente de qual tipo de regime a qual elas estão submetidas. É por isso que governantes olham para estes humores exaltados com bastante preocupação, pois são muitos os precedentes de caos político e até governos derrubados pela fúria causada por aumento de preços. Casos recentes ocorreram no Haiti, no Paquistão e no Sri Lanka. Outros exemplos históricos envolvem a Alemanha durante a República de Weimar (1918 - 1933) e a Primavera Árabe de 2011. Em uma tentativa de conter este cenário, a Agência Internacional de Energia (AIE) publicou em seu site um guia para que as nações adotem medidas que ajudem a mitigar os impactos, entre elas: trabalho e aulas remotos, redução de velocidade nas vias, promoção do transporte público, entre outros.
Os governos têm adotado diferentes medidas de acordo com suas realidades. Desde o fechamento de escolas e universidades, como em Bangladesh; até determinar home office para servidores públicos, como no Peru, Egito, Laos, Camboja e outros. A maioria, contudo, tem apostado em duas estratégias: redução de impostos para energia e combustíveis e ampliação de subsídios a esses mesmos produtos. Medidas que podem ser eficientes em tempos de crise. O problema, diz, é que estas não são políticas sustentáveis no médio e longo prazo. Os governos estão fazendo o que precisam fazer politicamente. Quando há um grande choque, a população espera que os governos tomem alguma atitude. Mesmo que as pessoas saibam que esta crise não é culpa de seus governos, elas esperam que eles as ajudem porque são eles que têm o dinheiro. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.