22/Apr/2026
A escalada do conflito no Oriente Médio colocou o Estreito de Ormuz no centro das atenções e acendeu um alerta no Brasil: o bloqueio da rota, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial e volumes expressivos de fertilizantes, pode pressionar a inflação, afetar o agronegócio e expor a vulnerabilidade do País a choques externos. Desde o início do conflito, o Estreito de Ormuz deixou de ser um ponto distante no mapa para entrar no vocabulário cotidiano como símbolo de um dos principais gargalos da geopolítica global. Trata-se de uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo, responsável por conectar os grandes produtores do Golfo Pérsico aos mercados da Ásia, Europa e Américas. O fechamento desde o fim de fevereiro escancarou a dependência global desse corredor e a fragilidade do sistema energético internacional. No dia 17 de abril, o Irã anunciou a reabertura total do Estreito de Ormuz para embarcações enquanto durar o cessar-fogo com os Estados Unidos. Mas, no fim de semana passado as tensões na região voltaram a escalar e os iranianos voltaram a dizer que tinham fechado o Estreito.
Esse ambiente de incertezas mantém os mercados em alerta, sustenta volatilidade nos preços do petróleo e dificulta o planejamento de empresas e governos. A relevância do Estreito não se limita ao petróleo. Por ali passam diariamente grandes volumes de gás natural liquefeito e fertilizantes. Países altamente dependentes de importação de energia, como China, Índia, Japão e diversas nações europeias, têm suas cadeias produtivas diretamente ligadas à estabilidade dessa rota. Qualquer interrupção, mesmo que pontual, tende a provocar efeitos imediatos sobre produção, custos e preços globais. No Brasil, esse choque externo se transmite principalmente pelos preços. A alta da cotação do petróleo encarece os combustíveis, transportes e energia, bate na inflação e, consequentemente, pode afetar a decisão do Banco Central de reduzir os juros ou não num momento em que a autoridade monetária iniciava o ciclo de corte da taxa (a Selic está em 14,75% ao ano). Por outro lado, o Brasil é um grande produtor de petróleo e tem ganhado espaço no mercado global, exatamente como opção aos países do Oriente Médio.
No curto prazo, a alta do preço do petróleo poderia até beneficiar as receitas de exportação brasileiras, especialmente com o aumento da demanda por óleo nacional, sobretudo da Ásia. Mas, esse ganho pode ser anulado ou reduzido por pressões internas, já que combustíveis mais caros afetariam diretamente o custo de vida da população e a competitividade da indústria. A relação do Brasil com a região vai além da energia e ajuda a explicar essa interdependência. Levantamento com base em dados do Ministério de Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior (MDIC), mostra que, só em relação aos cinco países no entorno do Estreito de Ormuz (Irã, Iraque, Kuwait, Emirados Árabes e Omã), o País exportou US$ 9,7 bilhões em 2025, sendo os principais produtos a carne de frango, milho, açúcar, carne bovina e soja. Apenas para o Irã, o Brasil vendeu US$ 2,92 bilhões em produtos do agronegócio.
O principal produto vendido foi o milho (US$ 1,98 bilhão em 2025, 68% do total), seguido por soja (US$ 563,63 milhões), açúcar (US$ 189,113 milhões), farelo de soja (US$ 182,19 milhões) e café verde (US$ 153,02 milhões). Do outro lado, o Brasil importa do Irã ureia para o agronegócio brasileiro; em 2025, foram importadas 184.738 toneladas do adubo, com desembolso de US$ 66,834 milhões pelos importadores. É justamente nesse ponto que a dependência do Brasil se torna mais sensível. O Estreito de Ormuz é uma artéria central da cadeia global de fertilizantes, por onde escoa uma parcela significativa da ureia, amônia, fosfatos e enxofre consumidos no mundo. Para o Brasil, a dependência brasileira (relação importação/consumo) dos macronutrientes é bem mais grave do que no resto do mundo: nitrogênio (90%), fósforo (75%), potássio e enxofre (mais de 95%), segundo o Insper Agro Global. Assim, apesar de ser uma potência agrícola, o Brasil depende fortemente do fluxo internacional desses insumos.
A maior parte, cerca de 23%, vem da Rússia. Mas, há uma parte importante que vem do Irã, Catar, Omã e Arábia Saudita. Isso significa que uma parcela dessas cargas também transita, direta ou indiretamente, pelo Estreito de Ormuz. Em caso de bloqueio ou instabilidade na região, o fluxo logístico global pode ser interrompido ou encarecido, afetando o abastecimento brasileiro. Os efeitos seriam diretos e simultâneos. De um lado, há risco de escassez ou atraso na entrega de insumos em momentos críticos para a safra agrícola (no caso do Brasil, seria o segundo semestre). De outro, os preços tenderiam a subir, pressionados tanto pela menor oferta quanto pelo aumento dos custos de energia e frete. Como os fertilizantes representam uma fatia importante do custo de produção no campo, qualquer alta relevante tende a ser repassada ao longo da cadeia. A exemplo do petróleo, isso pode elevar os preços dos alimentos, reduzir margens dos produtores e, em casos mais extremos, levar à diminuição do uso de insumos, com efeitos diretos sobre a produtividade das lavouras.
O Estreito de Ormuz é uma passagem marítima localizada entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã. Geograficamente, ele separa o Irã de Omã e dos Emirados Árabes Unidos. O corredor tem 167 Km de extensão, com largura entre 33 Km e 56 Km. A área navegável, no entanto, é de apenas 3 Km em cada sentido. É uma das rotas mais estratégicas do planeta. Por ele passa aproximadamente um quinto de todo o petróleo consumido globalmente, além de grandes volumes de gás natural liquefeito. Essa concentração faz com que o local seja considerado um dos principais “gargalos” do comércio internacional de energia. Sua importância vai além do volume transportado. Como há poucas alternativas logísticas com capacidade semelhante, qualquer tensão geopolítica na região, como conflitos ou ameaças de bloqueio, pode provocar alta imediata nos preços do petróleo e impactos em cadeias produtivas no mundo todo. Por isso, o Estreito de Ormuz é visto como um ponto-chave para a segurança energética global e um dos locais mais sensíveis da geopolítica internacional. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.