13/Mar/2026
O crédito rural permanece como um dos principais instrumentos de financiamento do agronegócio no Brasil, viabilizando recursos para custeio da produção, investimentos em máquinas, infraestrutura, armazenagem e ampliação das atividades agrícolas e pecuárias. Em uma economia na qual o setor agropecuário representa parcela relevante do Produto Interno Bruto, a evolução dos indicadores de crédito tornou-se elemento central para a compreensão da dinâmica econômica no campo.
No período recente, o agronegócio brasileiro apresenta um cenário de expansão produtiva acompanhado por maior pressão financeira. Enquanto a produção agrícola avança e as safras atingem patamares históricos, indicadores de crédito apontam aumento da inadimplência, maior seletividade na concessão de financiamentos e crescimento dos pedidos de recuperação judicial no setor.
As operações de crédito rural no Brasil são regulamentadas pelo Banco Central do Brasil e seguem as diretrizes estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), consolidadas no Manual de Crédito Rural. Esse conjunto de normas define critérios para concessão, taxas, limites de financiamento e exigências de garantias, constituindo um dos principais instrumentos de política agrícola ao assegurar capital para produção e contribuir para o desenvolvimento econômico das regiões rurais.
No campo produtivo, projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam que o Brasil poderá alcançar uma safra de aproximadamente 350,2 milhões de toneladas no ciclo 2025/2026. O volume reflete a expansão da capacidade produtiva do setor. Ao mesmo tempo, fatores como aumento dos custos de insumos, volatilidade climática, elevação das taxas de juros e oscilações nos preços internacionais das commodities agrícolas têm ampliado a pressão sobre a saúde financeira dos produtores.
Esse quadro evidencia um fenômeno recorrente no agronegócio brasileiro, caracterizado pela coexistência de crescimento da produção com elevação do estresse financeiro nas propriedades e empresas do setor. Os indicadores recentes mostram que a demanda por crédito no País continua em expansão. Levantamentos da Serasa Experian indicam que a procura por crédito entre empresas registrou crescimento de 9,8% no acumulado do ano, apesar de retração de 4,5% na comparação mensal. Entre consumidores, a demanda apresentou alta acumulada de 14,0% no ano, com queda mensal de 0,4%.
No setor rural, dados da mesma instituição indicam que aproximadamente 8,3% da população rural registrava atrasos superiores a 180 dias em operações financeiras, avanço de 0,9% em relação ao mesmo período do ano anterior. A análise também aponta diferenças entre perfis de produtores. O índice de inadimplência alcança 10,8% entre produtores sem registro rural formal, 9,6% entre grandes proprietários, 8,1% entre médios produtores e 7,8% entre pequenos produtores.
As análises de risco também indicam variações regionais relevantes. Na Região Norte , a inadimplência aproxima-se de 13%, enquanto na Região Sul situa-se em cerca de 5,5%. A diferença está associada a fatores estruturais, como acesso a cooperativas agrícolas, disponibilidade de seguro rural, assistência técnica e organização financeira das propriedades.
No âmbito empresarial, os pedidos de recuperação judicial no agronegócio registraram crescimento expressivo. No terceiro trimestre de 2025 foram contabilizados 628 pedidos, ante 254 no mesmo período de 2024, o que representa aumento aproximado de 147%. As solicitações envolvem produtores pessoa física e empresas da cadeia produtiva, com maior incidência em atividades como cultivo de soja, pecuária bovina, comércio atacadista de produtos agrícolas e indústrias de processamento.
Entre as unidades da federação, Mato Grosso, Goiás e Paraná concentram o maior número de solicitações, refletindo a elevada participação do agronegócio nessas economias regionais. Indicadores gerais do mercado de crédito mostram que a recuperação de valores inadimplentes apresenta média anual de 38,7% entre empresas e de 57,3% entre consumidores. Informações do Cadastro Positivo também indicam o comportamento médio das operações de crédito no País.
O ticket médio das operações registra valores de R$ 1.344,48 para cartão de crédito, R$ 391,16 para empréstimo pessoal, R$ 1.340,29 para financiamento de veículos e R$ 272,05 para crédito consignado. Em relação à pontualidade de pagamento, os índices atingem 93,4% no crédito consignado, 82,9% no empréstimo pessoal, 80,7% no financiamento de veículos e 78,6% no cartão de crédito.
No contexto macroeconômico, estima-se que cerca de 49,7% da população adulta brasileira possua algum tipo de inadimplência, equivalente a aproximadamente 81,3 milhões de pessoas. Entre as empresas, a inadimplência também apresenta crescimento, com aumento de 27,3% no ano, alcançando 28,2% entre pequenas e médias empresas.
O conjunto desses indicadores reforça que o financiamento permanece essencial para sustentar a expansão produtiva do agronegócio brasileiro, ao mesmo tempo em que evidencia a necessidade de aprimoramento na gestão de risco, no acesso a instrumentos financeiros e na sustentabilidade do crédito no setor rural. Fonte: Globo Rural. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.