11/Mar/2026
Segundo a XP Research, os pedidos de recuperação judicial de produtores rurais devem se acelerar nos próximos meses, pressionados pela combinação de fertilizantes mais caros, crédito escasso e relações de troca no pior nível desde a guerra da Ucrânia. O relatório aponta 30 de abril como o momento crítico de avaliação: é quando se concentra a entrada de caixa da colheita da soja e o setor terá clareza sobre o nível real de inadimplência. Com bancos e revendas mais seletivos, o financiamento da safra tem migrado para tradings, multinacionais e varejistas de insumos mais capitalizados. As taxas de mercado para crédito rural não regulado atingiram cerca de 14% ao ano em 2025, alta de 50 pontos-base em relação a 2024. Tradings, multinacionais e varejistas de insumos devem continuar ganhando participação no financiamento da safra, criando riscos e oportunidades para empresas de serviços ao produtor.
O principal vetor de pressão sobre as margens são os fertilizantes. A ureia CFR Brasil acumula alta de 52% no ano e o MAP CFR Brasil subiu 20% no mesmo período. O conflito no Oriente Médio agrava um quadro que já era estruturalmente apertado: cerca de um terço do comércio marítimo de fertilizantes nitrogenados passa pelo Estreito de Ormuz, rota estratégica para o abastecimento global. A China também mantém restrições às exportações de ureia e MAP para preservar o abastecimento doméstico. Ainda há espaço para altas adicionais nos preços dos fertilizantes, especialmente se o conflito persistir. O impacto nas relações de troca já é visível. Em Sorriso (MT), a relação MAP por soja está no pior nível desde a guerra da Ucrânia, enquanto a ureia por milho segue em patamar historicamente elevado.
A XP projeta custo total de produção de soja em Sorriso de 49,3 sacas por hectare na safra 2026/27, ante 48,6 sacas na safra atual. Para o milho 2ª safra de 2026, a estimativa sobe para 126,5 sacas por hectare, contra 119 sacas em 2025/26. Os fertilizantes, que historicamente representam cerca de 30% do custo total de cultivo, devem responder por aproximadamente 35% na próxima safra. Custos persistentemente elevados de fertilizantes devem levar a ajustes no comportamento de compra de insumos e de venda da produção, com potenciais implicações para os fluxos de comércio e para expectativas de área plantada. Os defensivos agrícolas oferecem alívio parcial. Os preços recuaram cerca de 10% em média em 2025, puxados pela maior presença de fabricantes de genéricos chineses e indianos no mercado brasileiro, o que levou produtores a migrar para produtos de menor valor agregado e aumentar o volume aplicado por hectare.
O uso médio de defensivos no Brasil passou de 9,8 litros por hectare em 2024 para 12 litros em 2025. Ainda assim, a redução não compensa a alta dos fertilizantes. Apesar do aperto nas margens, a XP não projeta retração de área no cenário-base, fenômeno classificado como o "paradoxo margem-produção" do ciclo atual. Embora as margens permaneçam comprimidas, a margem de caixa, que aproximamos via Ebitda por hectare, continua positiva e acima dos piores níveis observados no ciclo 2023/24. Propriedades em recuperação judicial frequentemente mantêm a produção, seja por capital próprio, financiamento informal ou arrendamento das áreas para operadores mais capitalizados. Para as companhias agrícolas listadas em bolsa, o cenário representa risco de revisão de resultados. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.