10/Mar/2026
O conflito no Oriente Médio, iniciado após o ataque de Estados Unidos e Israel ao Irã, passou a gerar pressão inflacionária sobre custos do agronegócio brasileiro, com efeitos principalmente sobre combustíveis e fertilizantes. A elevação das cotações internacionais do petróleo e a valorização dos fertilizantes nitrogenados já indicam aumento de custos produtivos, com impactos potenciais sobre a próxima safra agrícola no Brasil.
Análise técnica aponta que os efeitos já começaram a ser observados nos preços do diesel e da ureia importada. A depender da duração do conflito e de seus desdobramentos sobre cadeias globais de energia e insumos, o encarecimento pode afetar decisões de plantio da safra 2026/27, cuja semeadura tem início em setembro. A alta dos custos tende a influenciar o planejamento produtivo caso haja persistência das pressões sobre combustíveis e fertilizantes.
Entre os principais canais de impacto identificados estão a elevação do preço da ureia associada ao aumento do custo do gás natural, o encarecimento do frete, do seguro e das operações marítimas diante do risco geopolítico no Estreito de Ormuz, a limitação da oferta global devido à redução de embarques e atrasos logísticos e o aumento da volatilidade nos mercados, com oscilações nos preços, nos contratos futuros e no câmbio.
A região do Oriente Médio concentra aproximadamente 20% do comércio internacional de petróleo e gás natural, cerca de 30% do comércio global de fertilizantes e entre 25% e 35% das negociações mundiais de amônia e ureia. A relevância estratégica da região para a oferta global desses insumos amplia a sensibilidade do mercado internacional a eventuais disrupções logísticas. Desde o início do conflito, o preço do petróleo Brent registrou alta de 27%, com o barril alcançando US$ 84.
No mercado interno brasileiro, já foram observados impactos sobre o diesel, com relatos de aumento de aproximadamente R$ 1 por litro em regiões produtoras de Goiás. O encarecimento do combustível afeta diretamente as operações mecanizadas no campo, incluindo a colheita das lavouras de verão e o plantio das culturas de inverno, além de pressionar os custos logísticos de transporte de insumos e produtos agrícolas.
O segmento de fertilizantes apresenta elevada exposição ao cenário geopolítico. O Oriente Médio exporta cerca de 22 milhões de toneladas de ureia por ano e responde por aproximadamente 35% da ureia utilizada no Brasil. Desde o início do conflito, entre 26 de fevereiro e 6 de março, o preço da ureia importada registrou aumento de 33%. Apesar disso, parte relevante da demanda atual já havia sido adquirida anteriormente pelos produtores, o que tende a limitar impactos imediatos sobre o custo das lavouras em andamento.
O ambiente econômico do agronegócio brasileiro amplia a sensibilidade aos aumentos de custos. O setor enfrenta restrições de acesso a crédito, juros elevados, aumento do endividamento, compressão das margens e baixa perspectiva de recuperação de preços em diversas cadeias produtivas, o que reduz a capacidade de absorção de novos aumentos nos insumos. No comércio exterior, o Brasil exportou US$ 2,920 bilhões em produtos do agronegócio para o Irã no último ano, posicionando o país como o 11º principal destino global e o 3º maior destino regional no Oriente Médio. Os principais produtos embarcados foram milho, soja e açúcar.
Entre essas cadeias, o milho apresenta maior sensibilidade potencial aos desdobramentos do conflito, enquanto a carne bovina apresenta exposição baixa a moderada e soja e açúcar apresentam exposição considerada baixa. A participação do Irã nas exportações brasileiras de soja corresponde a cerca de 1,3% do total, enquanto no açúcar representa aproximadamente 1,7%, o que reduz o impacto direto e permite eventual redirecionamento para outros mercados.
No caso do milho, aproximadamente 23% das exportações brasileiras são destinadas ao Irã. Entretanto, os embarques do cereal ocorrem predominantemente em janela sazonal entre agosto e janeiro, o que limita efeitos imediatos sobre o fluxo comercial no curto prazo. Alterações no mercado global de fertilizantes podem, por outro lado, influenciar a competitividade de produtores em outras regiões, com possíveis efeitos sobre preços internacionais do cereal. Para o setor de proteína animal, cerca de 23% das exportações brasileiras de carne de frango têm como destino o Oriente Médio. A cadeia produtiva tem realizado ajustes logísticos para manter o fluxo comercial, mesmo diante de elevação de custos de frete e seguro marítimo.
Nas exportações de carne bovina, aproximadamente 6,8% do volume brasileiro é direcionado ao Oriente Médio. Apesar disso, as principais rotas comerciais destinadas à China e aos Estados Unidos não passam pela região do conflito, o que tende a reduzir impactos logísticos diretos sobre esses mercados. Ainda assim, o ambiente de incerteza contribuiu para queda recente nos preços da arroba no mercado interno, movimento considerado prematuro diante da ausência de definição sobre custos logísticos efetivos e duração do conflito, além de escalas de abate ajustadas nos frigoríficos. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.