09/Mar/2026
"Estamos devendo um pouco em termos de inovação (na área de energia)", diz Marcelo Araujo, que já presidiu empresas como Marisa, Ipiranga e Grupo Libra. Na avaliação do executivo, falta financiamento para o País avançar nas pesquisas destinadas à área. Uma das formas de destravar recursos para inovação em energia, segundo ele, é modernizar a regulamentação para que o mercado de capitais atue como um estimulador de novas iniciativas. Outra possibilidade é integrar melhor setor privado, academia e governo.
Araujo é um dos curadores do São Paulo Innovation Week (SPIW), evento que o Estadão realiza em maio em São Paulo e que tem como foco inovação, tecnologia e negócios. A conferência deverá atrair 90 mil visitantes e terá palestras de grandes nomes internacionais e brasileiros, debates e espaços para troca de conhecimento. Membro do conselho de administração da S.A. O Estado de S. Paulo e da JadLog, Araujo avalia que inovação é chave para transição energética. De acordo com o executivo, é ela que poderá tornar mais baratas as soluções necessárias para o mundo reduzir emissões de carbono e garantir segurança energética durante a transformação da economia global. Segue a entrevista.
O que a inovação pode oferecer para um mundo que precisa reduzir as emissões de carbono?
Marcelo Araujo: A transição energética, infelizmente, está se desacelerando, ao mesmo tempo que a demanda por energia cresce devido à inteligência artificial, à urbanização do Sul Global e à eletrificação do transporte. Temos um desafio gigante para resolver e, hoje, a única forma de não desacelerar tanto a transição energética e de fazer isso com segurança energética é através da inovação.
A inovação fará as soluções para a transição energética se tornarem mais baratas ou as encarecerá, dado que inovação demanda investimento em pesquisa?
Marcelo Araujo: É a inovação que vai fazer isso ser economicamente viável. É natural que um novo modelo seja mais caro. Governos, regulações e subsídios deram um impulso inicial na transição energética no mundo todo. Mas, com a mudança do cenário geopolítico e os desafios de segurança energética, isso ficou mais complexo. Portanto, ficou mais necessário investir em tecnologia e inovação para acelerar esse ciclo de redução de custos e de viabilidade econômica. É importante entender que, no setor energético, há três pontos em que a inovação é relevante: nas tecnologias de produção, nas arquiteturas dos sistemas de gestão de energia e nos modelos de negócio.
Das três áreas, qual está mais adiantada globalmente?
Marcelo Araujo: Alguns países estão investindo mais em algumas tecnologias, outros, em outras. Há, por exemplo, investimentos sendo feitos em ganho de escala das fontes renováveis para aumentar a eficiência e reduzir o custo. Tem também uma retomada da energia nuclear. Não mais aquelas grandes usinas como as de Angra dos Reis (RJ), mas o que chamamos de Small Modular Reactors (SMR). São pequenos reatores nucleares modulares com uma tecnologia menos arriscada, mais segura e mais rápida de ser implementada. Tem o hidrogênio verde, que ainda não é economicamente competitivo. No Brasil, temos investido em biomassa para produção de combustível. Podemos usar essa capacidade para produção de combustíveis avançados, como os de aviação e de navegação. Tem também mudanças nos modelos de negócios.
Quais são esses modelos?
Marcelo Araujo: No Brasil, existem dois modelos de contratação de energia: regulado e livre. O regulado é para o consumidor normal. O livre é para grandes consumidores. No livre, você pode contratar diretamente do produtor de energia. No regulado, tem um planejamento do sistema e a Aneel regulando as tarifas. Esses modelos começam a ser quebrados. Hoje você já pode fazer os Corporate PPAs (contratos corporativos de compra de energia, na sigla em inglês), que são contratos pelos quais uma empresa compra energia elétrica diretamente de um gerador - normalmente de fonte solar ou eólica.
O Brasil está avançando nisso?
Marcelo Araujo: Estamos avançando. Mas, para esses modelos evoluírem, é preciso ter mais geração livre de energia e um mercado de compra de energia muito líquido. Também é preciso uma rede muito digitalizada. A rede brasileira é uma das maiores e mais integradas do mundo. Por outro lado, ela não é tão inteligente. O grau de digitalização dela não permite que se consiga monitorar detalhadamente a oferta e o consumo em tempo real. Enquanto não tivermos isso, é difícil evoluir determinados modelos de negócio. É preciso mudar a arquitetura do sistema. E a inteligência artificial pode ser aliada nisso.
A inteligência artificial também é uma vilã da transição energética, porque consome muita energia. Como conciliar isso?
Marcelo Araujo: É um desafio. É inexorável que a inteligência artificial vá se expandir e demandar muita energia. Temos de saber como suprir essa energia para que ela não pressione ainda mais a emissão de carbono. Por outro lado, à medida que se tem inteligência artificial disponível, é possível gerenciar tudo melhor - produção, transmissão, distribuição. É possível equalizar melhor o consumo e a oferta, sendo mais preciso e reduzindo, por exemplo, roubos e perdas. À medida que a geração distribuída (produzida pelos consumidores com painéis solares) aumenta, cresce o problema para a gestão da rede. Uma casa com painéis solares gera energia de dia, e essa energia entra na rede. À noite, essa casa não gera energia e consome da rede. É preciso equilibrar isso. O Brasil tem quase quatro milhões de unidades de geração distribuída integradas na rede sem sensoriamento adequado. A inteligência artificial pode ajudar nisso. Mas é preciso investimento pesado. No Brasil, estamos longe disso.
O Brasil é apontado como um dos países que mais têm a ganhar com a transição energética, por ter fontes de energia renovável e potencial de fornecer biomassa para produção de biocombustíveis. Mas como o País se posiciona globalmente quando se consideram as inovações para a transição energética?
Marcelo Araujo: Estamos devendo um pouco em termos de inovação. Nós também não estamos no zero. Tem muitas iniciativas, mas ainda temos pouco apoio e pouco financiamento. Como o mercado é muito regulado, há pouco estímulo ao venture capital (investimento em empresas inovadoras, com grande potencial, mas também alto risco). Estamos avançando, mas não na velocidade que poderíamos para aproveitar todo o potencial que temos. Temos um sistema integrado, robusto, fisicamente muito bem implementado, mas que carece de investimentos em digitalização.
O que é preciso para isso?
Marcelo Araujo: Para isso acontecer, o modelo de precificação precisa ser mais à base de preço real, para que você não tenha de ficar subsidiando (energia) indefinidamente. Ainda não conseguimos transformar a enorme vantagem comparativa que temos em vantagem competitiva efetiva por causa do custo.
Como as universidades podem participar desse processo?
Marcelo Araujo: A gente tem universidades poderosíssimas no Brasil estudando esse assunto, mas nem sempre tão integradas à iniciativa privada. É preciso uma coordenação maior, mas acho que está fácil fazer isso. Um exemplo é o laboratório de bioenergia da Unicamp, que tem projetos muito bons financiados por empresas. Ali tem uma integração funcionando, também com o apoio de órgãos governamentais. Temos caminhos para fazer isso e podemos alavancar muito, porque claramente vamos precisar da academia nesse processo de inovação. Fonte: Broadcast Agro.