06/Mar/2026
A escalada do conflito no Oriente Médio, iniciada na madrugada de 28 de fevereiro com ataques coordenados de Estados Unidos e Israel contra alvos no Irã, amplia riscos para cadeias do agronegócio brasileiro, com potenciais impactos sobre exportações agrícolas, custos de fertilizantes, combustíveis e fretes marítimos. A avaliação consta em estudo divulgado pelo Insper Agro Global, que analisa os efeitos da instabilidade geopolítica sobre fluxos logísticos e mercados de energia.
Em 2025, o Brasil exportou US$ 12,4 bilhões em produtos agrícolas para o Oriente Médio, valor equivalente a 7,4% do total das vendas externas do País. Desde 2000, o comércio com a região registrou crescimento médio anual de 49%. O Irã foi o principal destino individual das exportações brasileiras no bloco, com US$ 2,9 bilhões, o que correspondeu a 23,6% do total regional. Na sequência aparecem Arábia Saudita, com participação de 23,3%, e Emirados Árabes Unidos, com 20,4%.
Além do valor agregado, o estudo destaca a relevância estrutural da região para algumas cadeias do agronegócio brasileiro. Em 2025, o Oriente Médio absorveu 29% das exportações de carne de frango do Brasil, equivalentes a 1,5 milhão de toneladas, e 31,5% das vendas externas de milho, com 12,9 milhões de toneladas. A região também respondeu por 17% das exportações de açúcar, com 5,8 milhões de toneladas, e por 6,5% das vendas externas de carne bovina, totalizando 220 mil toneladas.
Entre as commodities analisadas, o milho apresenta o maior grau de exposição comercial. O Irã foi o principal comprador individual do cereal brasileiro no ano passado, com 9 milhões de toneladas, volume equivalente a 22% do total exportado pelo País e superior à média histórica próxima de 5 milhões de toneladas registrada na última década. Egito respondeu por 19% das exportações brasileiras do grão, Vietnã por 10% e Arábia Saudita por 5%.
O estudo identifica dois pontos críticos de risco logístico diante da escalada das tensões na região: o estreito de Ormuz e o estreito de Bab el-Mandeb. O primeiro concentra aproximadamente 20% do fluxo global de petróleo e gás natural. Já o segundo representa um corredor estratégico de acesso ao Canal de Suez e constitui rota essencial para o transporte marítimo de contêineres entre Ásia e Europa. Instabilidades nesses corredores podem elevar o risco de interrupções logísticas com alcance global.
No mercado de fertilizantes, o principal canal de transmissão identificado envolve os nitrogenados. Cerca de 45% das exportações globais de ureia transitam direta ou indiretamente por rotas associadas ao Golfo Pérsico. Pela mesma região passam aproximadamente 25% da amônia comercializada globalmente, 20% do fosfato diamônico (DAP), 10% do fosfato monoamônico (MAP) e quase 30% do enxofre negociado no mercado internacional.
Em 2025, o Oriente Médio respondeu por 15,6% das importações brasileiras de fertilizantes nitrogenados. China, Rússia e Nigéria concentraram conjuntamente 70,4% do volume adquirido pelo País. O momento do ciclo de compras amplia a exposição do setor, já que as aquisições de insumos destinadas à safra de verão 2026/27 encontram-se em fase inicial, com parcela relevante dos volumes ainda não contratada.
Outro canal relevante de transmissão ocorre por meio do mercado internacional de energia. Conflitos no Oriente Médio tendem a incorporar prêmios de risco às cotações do petróleo, pressionando custos de combustíveis e a formação de preços de fertilizantes nitrogenados, cuja produção depende diretamente do petróleo e, principalmente, do gás natural.
Os custos logísticos também podem ser impactados por eventuais desvios de rotas marítimas e pelo aumento dos prêmios de seguro no transporte internacional. Esse conjunto de fatores tende a elevar despesas operacionais ao longo da cadeia do agronegócio e a reduzir a competitividade do setor em um ambiente marcado por margens mais estreitas, custos elevados, juros elevados e restrições de financiamento.
No curto prazo, a intensidade dos impactos dependerá da evolução do conflito e da manutenção do fluxo de cargas nos principais corredores marítimos internacionais. O estudo ressalta ainda que a instabilidade pode afetar exportações destinadas a outros mercados, uma vez que o Oriente Médio também funciona como ponto de abastecimento de embarcações brasileiras em rotas com destino à Ásia.
Caso as tensões se normalizem rapidamente, os efeitos tendem a se limitar a episódios de volatilidade em preços e fretes. Em um cenário de prolongamento do conflito, contudo, as pressões sobre fertilizantes, logística e custos operacionais podem se intensificar, com reflexos sobre margens do setor e decisões de produção agrícola. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.