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02/Mar/2026

EUA: política comercial de Donald Trump é inócua

O presidente americano, Donald Trump, fez na semana passada uma avaliação sobre o primeiro ano de seu segundo mandato, em um discurso ao Congresso. O pronunciamento serviu para reafirmar os pontos da agenda do republicano delineados ainda em seu discurso de posse: combate à imigração ilegal, protecionismo e um reposicionamento dos Estados Unidos no cenário global. Trump vinha de um ano de sucessivas vitórias para seu projeto de poder. Ele aprovou uma lei orçamentária que permitiu corte de impostos para os mais ricos e o aumento de recursos para sua operação anti-imigração; reposicionou os interesses estratégicos norte-americanos para a América Latina, com intervenções diretas ou indiretas em países como Honduras, Venezuela e Argentina; e afastou-se politicamente da Europa, que tem visto uma ascensão de partidos de direita radical que fazem parte da Internacional Populista.

E, claro, saiu impondo tarifas a torto e a direito, contra rivais e aliados, como se essas coisas funcionassem num toque de mágica e como se taxas sobre exportação fossem uma espécie de panaceia para resolver problemas tão complexos e distantes como a paz no Oriente Médio e a decadência do setor manufatureiro norte-americano. Todo esse sucesso ocorreu às custas de uma espécie de hiper-presidencialismo. O presidente assinou no primeiro mandato 225 decretos, um recorde histórico, atrás apenas dos primeiros anos de mandato de Franklin Roosevelt. Alguns deles, como os decretos sobre o direito à cidadania de filhos de imigrantes nascidos no país, foram contestados na Justiça. Um dos mais importantes, sobre o direito do Executivo de impor tarifas alfandegárias, chegou à Suprema Corte, e a decisão veio apenas quatro dias antes do discurso de Trump (no dia 24 de fevereiro).

E, após um ano concedendo liminares que permitiam ao presidente seguir com seu hiper-presidencialismo até um veredicto final da Corte sobre os mais variados temas, os juízes decidiram dar um freio em Trump. As tarifas impostas em abril, que variavam entre 10% e 40% sobre produtos comprados pelos Estados Unidos, foram consideradas inconstitucionais. Trump, pela primeira vez no segundo mandato, foi contido. A derrota na Justiça foi importante do ponto de vista da manutenção do Estado de direito e do sistema de freios e contrapesos, que muitos temiam que estava em risco nos Estados Unidos. Mas, a decisão também oferece a Trump uma rampa de saída para uma política amplamente inócua. A lógica vendida por Trump para impor as tarifas era a seguinte: outros países se aproveitam do mercado norte-americano para vender, sem concorrência, produtos que poderiam ser produzidos dentro dos Estados Unidos. Para (re)industrializar o país, seria necessário taxar esses países.

Com isso, as indústrias norte-americanas voltariam a produzir e empregar norte-americanos. A ideia não é nova. Chama-se substituição de importações. Quem se lembra das aulas de história do colégio sabe que o Brasil passou por um processo semelhante no século 20. Outros países latino-americanos, com a Argentina, também. Mas, nos Estados Unidos isso não deu certo. Segundo o Departamento de Economia e Estatísticos, o déficit comercial norte-americano diminuiu apenas 0,2% no ano passado. As importações, inclusive, aumentaram 4,8%, com tarifas e tudo. Economistas têm dois argumentos para explicar esse aumento. Em primeiro lugar, houve uma corrida às compras no primeiro trimestre antes de Trump anunciar as tarifas no chamado "Dia da Libertação". Além disso, as importações não foram substituídas, os Estados Unidos apenas mudaram de cliente. Em vez de comprar da China, passaram a comprar de outros países com tarifa menor, como Índia e Vietnã, por exemplo.

Os empregos prometidos por Trump não vieram. No ano passado, o setor de manufatura fechou 30 mil vagas. O aumento de tarifas de matérias-primas como aço e alumínio, por exemplo, diminuiu a margem de lucro de indústrias que trabalham com cadeias de suprimento internacionais. E elas tiveram de demitir. A economia não está totalmente no vinagre porque os investimentos em IA puxam o PIB norte-americano e parte do choque de preços provocados pelas tarifas foram absorvidos sem que a inflação saísse do controle. Ainda assim, o custo de vida continua alto. Trump poderia agarrar-se na corda esticada pelos juízes da Suprema Corte, mas decidiu dobrar a aposta. Usando um outro dispositivo temporário, aplicou tarifas indiscriminadas de 15% a diversos parceiros comerciais por um período de 150 dias. É menos do que no ano passado, mas ainda é suficiente para causar mais estragos. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.