11/Feb/2026
O uso recorrente da recuperação judicial no agronegócio brasileiro começa a apresentar sinais de desaceleração após um ciclo intenso observado nos últimos dois anos. Embora o movimento esteja perdendo força, os impactos estruturais sobre o mercado de crédito rural tendem a se estender por um horizonte mais longo, afetando não apenas produtores individuais, mas também o funcionamento da cadeia como um todo.
A avaliação predominante no setor é de que se consolidou um uso excessivo desse instrumento jurídico como solução padrão para problemas de endividamento, em muitos casos substituindo alternativas de renegociação direta e reestruturação financeira. Essa prática acabou criando distorções relevantes, com custos de longo prazo para os produtores, especialmente no que se refere ao histórico de crédito.
Parte expressiva do endividamento atual tem origem no ciclo de preços elevados observado entre 2022 e 2023, período marcado por forte expansão de investimentos, muitas vezes realizada em ambiente de euforia e com estruturas financeiras mais frágeis. Com a reversão do ciclo de preços e o aumento do custo do crédito, essas operações passaram a pressionar o fluxo de caixa, levando produtores a recorrerem à recuperação judicial.
O efeito mais duradouro desse processo tem sido a deterioração do perfil de risco do crédito rural. A entrada em recuperação judicial compromete não apenas o relacionamento do produtor com instituições financeiras, mas também com fornecedores, tradings, cooperativas e demais elos da cadeia agroindustrial. O impacto, portanto, extrapola o indivíduo e afeta a liquidez e a confiança do sistema como um todo.
Os indicadores de inadimplência no crédito rural refletem esse movimento. Após anos operando em patamares historicamente baixos no período pós-pandemia, os índices avançaram de forma relevante, ainda que permaneçam abaixo da média observada em outros segmentos da economia. Mesmo assim, esse aumento é considerado significativo em um setor fortemente dependente de linhas de crédito com juros subsidiados, onde pequenas variações na inadimplência elevam de forma expressiva o custo financeiro.
Desde o segundo semestre de 2025, no entanto, começam a surgir sinais de inflexão. Após um período de estabilização, os indicadores passaram a apresentar recuo gradual, desconsiderando operações formalmente reestruturadas. A expectativa não é de retorno aos mínimos observados nos anos anteriores, mas de convergência para níveis mais próximos aos registrados em ciclos de ajuste anteriores, caracterizando um novo patamar estrutural de risco.
A normalização desse ambiente depende da combinação de três fatores principais: redução de escala ou venda de ativos por produtores mais alavancados, alívio gradual do custo financeiro com a expectativa de queda dos juros e maior previsibilidade das margens, decorrente de menor volatilidade entre preços e custos de produção. O principal fator de risco permanece associado a eventos climáticos adversos sem mecanismos adequados de proteção.
Como resposta a esse cenário, ganha força uma abordagem mais preventiva no relacionamento com o produtor rural, priorizando diálogo, acompanhamento próximo e identificação antecipada de dificuldades financeiras, com o objetivo de reduzir a judicialização e preservar a funcionalidade do crédito no agronegócio.
Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.