ANÁLISES

AGRO


SOJA


MILHO


ARROZ


ALGODÃO


TRIGO


FEIJÃO


CANA


CAFÉ


CARNES


FLV


INSUMOS

09/Feb/2026

Clima: NOAA reclassifica El Niño e La Niña com novo índice

A NOAA decidiu revisar a metodologia utilizada para classificar os eventos El Niño e La Niña ao introduzir um novo indicador, o Índice Niño Oceânico Relativo (RONI). A mudança tem como objetivo separar o sinal natural do ENSO do aquecimento global de longo prazo, aumentando a precisão estatística, mas também abriu um debate relevante sobre interpretação climática, impactos operacionais e coerência física dos eventos reclassificados.

Desde o início de 2025, a NOAA vem trabalhando na reformulação do critério de monitoramento do El Niño–Oscilação Sul (ENSO), sistema que descreve a variabilidade climática do Pacífico Equatorial por meio de três fases: El Niño, La Niña e neutralidade. O novo índice passou a ser adotado oficialmente a partir de fevereiro de 2026, substituindo, para fins de classificação, o tradicional ONI.

Até então, a identificação dos eventos se baseava no Índice Niño Oceânico convencional, que mede as anomalias da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 do Pacífico Equatorial em relação a uma média histórica móvel. O problema identificado pela NOAA é que, com o aquecimento global, essa média histórica passou a incorporar uma elevação estrutural da temperatura dos oceanos tropicais.

Na prática, isso distorce a leitura dos fenômenos. Eventos de El Niño tendem a parecer mais intensos ou mais frequentes do que realmente são em termos relativos, enquanto episódios de La Niña ficam enfraquecidos ou deixam de atingir os limiares necessários para classificação. O índice passou a misturar dois sinais distintos: a variabilidade natural do ENSO e a tendência de aquecimento global.

O RONI busca corrigir essa distorção ao adotar uma abordagem relativa. Em vez de considerar apenas a anomalia de temperatura na região Niño 3.4, o novo índice subtrai desse valor a anomalia média da temperatura da superfície do mar em todos os oceanos tropicais globais, entre 20°N e 20°S. Dessa forma, o indicador tenta isolar o sinal específico do ENSO, removendo o “ruído” associado ao aquecimento global.

Os limiares de classificação permanecem os mesmos do método anterior, com desvios de pelo menos ±0,5°C mantidos por cinco trimestres móveis consecutivos. A diferença está na base de cálculo utilizada para medir essas anomalias.

A aplicação do novo critério altera de forma relevante a leitura histórica dos eventos. De um lado, reduz a intensidade de diversos episódios de El Niño do passado recente, ao retirar parte do aquecimento de fundo. De outro, torna visíveis eventos de La Niña que antes não ultrapassavam os limites exigidos pelo ONI tradicional.

Com base no RONI, episódios de resfriamento ocorridos em 2024/2025 e 2025/2026, que não haviam sido oficialmente reconhecidos como La Niña por falta de persistência das anomalias frias, passam agora a integrar a climatologia oficial como eventos classificados. Pelo critério antigo, predominava a condição de neutralidade a partir do trimestre maio–junho–julho de 2024, o que era coerente com a fraca ou inexistente resposta atmosférica associada a esses resfriamentos. Pelo novo índice, entretanto, as condições passam a ser interpretadas como La Niña na maior parte desse intervalo, com exceção de um trimestre intermediário.

Essa reclassificação tem provocado debate dentro da comunidade científica. Embora a ideia de descontar o aquecimento global do cálculo seja conceitualmente consistente, surgem questionamentos importantes quando se observa a resposta climática associada a esses eventos. No Brasil, por exemplo, os episódios recentes de resfriamento do Pacífico não produziram os padrões clássicos de La Niña observados em eventos históricos, como alterações consistentes nos regimes de chuva e temperatura, o que está em linha com a literatura científica existente.

A mudança levanta dúvidas relevantes para a interpretação prática do clima. Eventos classificados sob a mesma categoria passam a apresentar respostas atmosféricas distintas, o que dificulta comparações diretas. Também surge a questão de saber se o aquecimento global está apenas afetando os índices estatísticos ou se está alterando o próprio comportamento físico do ENSO, possivelmente reduzindo a resposta atmosférica aos resfriamentos do Pacífico Equatorial.

Do ponto de vista operacional, o novo critério impõe desafios adicionais. A partir de agora, a simples classificação de um evento como La Niña pode não ser suficiente para inferir seus impactos sobre precipitação, temperatura e extremos climáticos, exigindo análises mais cuidadosas da intensidade, da persistência e do acoplamento oceano-atmosfera.

A adoção do RONI não é um movimento isolado. O Bureau of Meteorology da Austrália já utiliza, desde 2025, um índice relativo semelhante para o monitoramento do ENSO. Ainda assim, a transição inaugura uma nova fase de incertezas, que só poderá ser melhor compreendida com o acúmulo de estudos comparativos entre eventos históricos e recentes sob a nova metodologia.

O RONI representa um avanço importante do ponto de vista estatístico e conceitual, mas também amplia a complexidade da interpretação climática. Para setores sensíveis ao clima, como o agronegócio, a principal implicação é a necessidade de cautela redobrada: mais do que a classificação formal do ENSO, será fundamental acompanhar os sinais atmosféricos efetivos e sua coerência com os padrões históricos conhecidos.

Fonte: NOAA. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.