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28/Jan/2026

Mercosul-UE: Brasil precisa aproveitar oportunidades

A dimensão da abertura da janela de oportunidade para o Brasil do acordo comercial fechado entre Mercosul e União Europeia, depois de mais de 26 anos de negociações, não será definida apenas por decisões tarifárias, mas também, e principalmente, por avanços domésticos para fazer a economia brasileira competir mais em pé de igualdade com os países da União Europeia. Aumento da produtividade, modernização da produção, redução do custo Brasil, estabilidade regulatória e do ambiente de negócios, ajuste das contas públicas e previsibilidade econômica são os fatores-chave na busca dessa simetria. Se superar os entraves políticos e judiciais na Europa, como se espera, o tratado entre os dois blocos econômicos, celebrado como um marco histórico num momento de reordenamento geopolítico e fragmentação do comércio global, embute alguns riscos, como pressões competitivas sobre a indústria menos preparada à concorrência internacional e mais voltada ao mercado interno.

É necessário preparar o terreno, sobretudo institucionalmente, para que o Brasil possa aproveitar plenamente o potencial dessa nova fase comercial. No artigo “Avaliando os impactos regionais no Brasil do acordo Mercosul-União Europeia”, publicado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), é reforçado os ganhos potenciais, que podem influenciar, inclusive, decisões de novos investimentos. Mas, destaca também riscos e condicionantes, institucionais e produtivas. No âmbito do comércio exterior brasileiro, a China, os Estados Unidos e a Argentina ocupam, respectivamente, as primeiras posições como principais parceiros comerciais. Contudo, os países da União Europeia também desempenham papel relevante no contexto agregado: em 2025, as exportações brasileiras para esse bloco totalizaram US$ 49,8 bilhões em mercadorias, representando um acréscimo de 3,2% em relação ao ano anterior.

Porém, chama a atenção a grande diferença nas dinâmicas regionais internas do comércio, concentrado nas Regiões Sudeste e Sul do País, embora a Região Centro-Oeste, com o agronegócio, cresça de forma mais notável. Quatro regiões tiveram crescimento no ano passado, em maior ou menor grau, enquanto a Região Nordeste teve queda expressiva nas exportações para o bloco europeu, de 12,3% no período. As disparidades permitem estimar que os efeitos da ampla liberalização tarifária não se distribuirão de forma uniforme nem pelas regiões nem por setores. Haverá oportunidade para uns e grandes desafios para outros. Avanços estruturais poderiam garantir maior aproveitamento. A despeito das recorrentes declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em defesa do multilateralismo, a economia brasileira, como é amplamente sabido, se mantém entre as mais fechadas do mundo, com baixa participação do comércio exterior em relação ao PIB e altas tarifas de importação, o que limita crescimento e produtividade.

Não raro, setores industriais são carimbados como "estratégicos" para dispor de incentivos governamentais, prática comum. Os déficits no comércio do Brasil com a União Europeia concentram-se em setores mais industrializados. Já o agronegócio tende a ampliar oportunidades. O saldo final dessa conta será ditado não apenas pela eliminação tarifária, mas pelo necessário aumento da competitividade e capacidade de atendimento de exigências sanitárias, ambientais e técnicas. Caso não venha acompanhada por avanços em produtividade, redução do custo do capital, fortalecimento institucional e políticas de apoio à adaptação empresarial, a liberalização comercial pode resultar em perda de densidade industrial em determinadas regiões, configurando um processo de desindustrialização relativa. O acordo histórico Mercosul-União Europeia é um importante instrumento de inserção internacional efetiva do Brasil, mas dependerá de uma guinada macroeconômica e institucional para gerar impactos positivos. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.