ANÁLISES

AGRO


SOJA


MILHO


ARROZ


ALGODÃO


TRIGO


FEIJÃO


CANA


CAFÉ


CARNES


FLV


INSUMOS

22/Jan/2026

A Europa precisa enfrentar as ameaças dos EUA

Não há nada de intrinsecamente ilegítimo em discutir os interesses estratégicos dos Estados Unidos na Groenlândia. A ilha ocupa posição central no Ártico, abriga infraestrutura militar sensível e tende a ganhar relevância com a abertura gradual de novas rotas marítimas e a disputa por recursos críticos. O problema não está tanto no objeto da ambição norte-americana, mas no método escolhido para persegui-la. Ao recorrer à retórica da coerção (tarifas punitivas, ameaças veladas e insinuações de força contra aliados democráticos), o presidente Donald Trump rompe um tabu que sustentou a estabilidade atlântica por décadas. A anexação não é necessária para atender a nenhuma das alegadas preocupações do governo norte-americano. Desde o Acordo de Defesa de 1951, os Estados Unidos dispõem de amplos direitos militares na Groenlândia, incluindo bases, radares e presença permanente. Nada impediria a ampliação dessa cooperação, nem no plano militar nem no econômico.

A Dinamarca e o próprio governo groenlandês já deixaram claro que estariam dispostos a negociar maior presença norte-americana, investimentos, exploração mineral ou novas instalações estratégicas. A soberania formal, portanto, não é um requisito funcional. É um símbolo. É justamente aí que a narrativa de "segurança estratégica" desmorona. A infraestrutura mineral da Groenlândia é incipiente, os custos são elevados, e os prazos, longos. A militarização adicional do Ártico poderia ser obtida por meios cooperativos. Ainda assim, os Estados Unidos insistem que nada basta aquém da posse territorial. A explicação mais plausível não é estratégica, mas política: além de uma manobra diversionista para deixar os malogros domésticos em segundo plano, trata-se da busca por um gesto de força, um marco de legado, a afirmação de uma lógica em que o poder se mede pela capacidade de impor vontades, não de construir acordos.

Esse desvirtuamento não ocorre no vácuo. Ele se insere numa visão mais ampla de um mundo dividido em esferas de influência, na qual compromissos, tratados e alianças são instrumentos táticos, não vínculos duráveis. Aplicada à Groenlândia, essa lógica produz um efeito corrosivo sobre a Aliança Atlântica. Pela primeira vez desde a criação da Otan após a 2ª Guerra, aliados se veem compelidos a discutir dissuasão simbólica contra os próprios Estados Unidos. A confiança, ativo invisível, mas essencial, se deteriora a olhos vistos. E quando a confiança é desintegrada, os custos se multiplicam em cadeia: na coesão política, na previsibilidade estratégica, na credibilidade financeira. A resposta europeia, por isso, não pode ser nem submissa nem impulsiva. Ceder à chantagem seria desastroso: consolidaria o princípio de que a força faz o direito, convidando novas pressões no futuro. Mas escalar sem cálculo apenas aprofundaria a fratura.

Há um caminho intermediário: firmeza institucional, coordenação entre aliados e uso inteligente dos freios disponíveis dentro do próprio sistema norte-americano. O Congresso dos Estados Unidos, a opinião pública e a tradição jurídica do país ainda podem funcionar como contrapesos reais. Ao mesmo tempo, uma presença europeia moderada no Ártico e a manutenção de canais diplomáticos sérios podem criar espaço para uma saída negociada. Um acordo que reforce a segurança do Ártico, amplie a cooperação militar e preserve a soberania dinamarquesa permitiria a Trump declarar vitória sem destruir a aliança que os Estados Unidos levaram décadas para construir. A alternativa, a normalização da coerção entre aliados, teria custos muito mais amplos. Rússia e China observam atentamente. Ambas ganham quando o pilar central da ordem liberal passa a agir como seu principal fator de instabilidade. A Groenlândia é pequena. O precedente, não.

Ao tratar aliados como obstáculos e regras como inconvenientes, Trump acredita colocar a América em “primeiro lugar". Na prática, acelera a transição para um mundo menos previsível e muito mais perigoso. Por esse motivo, a Europa precisa reagir a Trump, estabelecendo um limite para a sua irresponsabilidade. O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, afirmou que uma invasão americana é improvável, mas não pode ser descartada. Ele também apelou à população de cerca de 50 mil pessoas do território que pertence à Dinamarca que se prepare para esse cenário. Ele enfatizou que a Groenlândia faz parte da Otan, e, se houver uma escalada, isso também terá consequências para o mundo exterior. Nielsen também afirmou que a soberania da Groenlândia não está em discussão. “Se observarmos o setor de defesa, podemos ver que há muitos exercícios de países aliados e que há uma crescente tensão no Ártico. E não há dúvida de que precisamos de uma presença militar maior”, afirmou. “Mas falar sobre a posse da Groenlândia é inaceitável."

O Pentágono não tem planos prontos para uma possível tomada militar da Groenlândia, disseram fontes do Departamento de Defesa. Quando questionado se usaria a força para tomar a Groenlândia, Donald Trump não descartou a possibilidade. Embora os funcionários do Pentágono preparem-se para todos os tipos de contingências militares, eles ainda não receberam ordens para planejar uma invasão da Groenlândia ou as consequências de tal operação. Ainda, o Pentágono decidiu reduzir a participação dos Estados Unidos em alguns grupos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em mais um sinal da estratégia do governo do presidente Donald Trump de diminuir a presença militar norte-americana na Europa. As informações são do jornal The Washington Post. A medida deve afetar cerca de 200 militares e reduzir principalmente o envolvimento dos Estados Unidos nos 30 Centros de Excelência da Otan, responsáveis pelo treinamento das forças da aliança em diferentes áreas da guerra. Entre os grupos que devem sofrer cortes estão os dedicados à segurança energética e à guerra naval.

O plano do Pentágono não prevê uma retirada imediata. A estratégia seria não repor o pessoal à medida que os contratos forem expirando, um processo que pode levar anos. As autoridades ressaltaram que a participação dos Estados Unidos nesses centros não será encerrada completamente. O Pentágono pretende reduzir sua atuação em organismos da Otan voltados a operações especiais e inteligência. Parte dessas funções, no entanto, pode ser transferida para outros pontos dentro da própria aliança, o que reduziria o impacto prático da decisão. Autoridades norte-americanas afirmaram que a medida vem sendo discutida há meses e não está relacionada às recentes declarações de Trump sobre a Groenlândia. As ameaças do presidente norte-americano geraram críticas de líderes europeus e de parlamentares nos Estados Unidos, que temem prejuízos à aliança militar. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.