20/Jan/2026
Em meio à crescente recorrência de eventos climáticos extremos, o mercado segurador tem discutido soluções para ampliar a resiliência do Brasil a desastres como inundações e vendavais. Para este ano, o tema é uma das prioridades da Superintendência de Seguros Privados (Susep), que montou um grupo de trabalho consultivo para ajudar na estruturação de um sistema de seguro catástrofe. O superintendente da Susep, Alessandro Octaviani, explica que o comitê é composto por representantes de seguradoras, segurados, reguladores e especialistas. Ao fim da série de reuniões, o grupo produzirá um relatório com propostas para otimizar a resposta a desastres naturais. "Um sistema de seguro catástrofe é uma medida estrutural para o Brasil", afirma Octaviani. Segue a entrevista:
No plano regulatório de 2026, o seguro catástrofe aparece como prioridade. O que isso significa, na prática?
Alessandro Octaviani: Um sistema de seguro catástrofe é uma medida estrutural para o Brasil. Não apenas aumentou a quantidade de eventos catastróficos, como eles estão ficando mais intensos. Esses eventos afetam toda a sociedade brasileira: afetam o gasto público, porque, quando acontece algo desse gênero, o Estado é o pagador em última instância - no caso do Rio Grande do Sul, isso ficou evidente. Dos cerca de R$ 100 bilhões necessários para enfrentar a situação, o mercado segurador entrou com algo entre R$ 6 bilhões e R$ 7 bilhões; o restante saiu dos cofres públicos. Mas há também uma questão de melhora do gasto privado. Quando o empresário tem seguro, ele pode acionar a apólice e realocar o capital indenizado para novas atividades econômicas, como crédito e investimentos.
E o que a Susep está fazendo concretamente nesse tema?
Alessandro Octaviani: Criamos um grupo de trabalho com ampla participação e pluralidade. Chamamos o mercado ofertante de seguros, o mercado contratante, entidades representativas como CNseg, Fenacor, CNI, CNA, empresas específicas, resseguradores, academia e diferentes setores do governo e da sociedade. O objetivo é construir um diagnóstico dos principais gargalos institucionais e identificar como desenhar um arcabouço normativo mais eficiente para que o seguro auxilie nessas questões catastrófica. Trata-se de seguro privado, mas também a mobilização de recursos públicos para fazer fundos garantidores de alguma maneira.
Quando se fala em seguro catástrofe, estamos falando de um produto específico?
Alessandro Octaviani: Seguro catástrofe não é um produto, é um sistema. Um sistema de proteção social que envolve seguradoras, o Estado - como a Defesa Civil e a organizador de fundos - e os setores segurados, que precisam se conscientizar da importância de planejar e contratar adequadamente. Estamos falando de um sistema de seguro catástrofe para lidar com uma complexidade muito maior do que aquela enfrentada até agora.
Esse sistema exigirá mudanças legais ou apenas regulatórias?
Alessandro Octaviani: O próprio relatório do grupo de trabalho vai responder a essa pergunta. Para cada objetivo, vamos mapear se a mudança necessária é legislativa, regulatória, contratual ou comportamental. A ideia é exatamente identificar o que precisa mudar para que o sistema funcione adequadamente.
As mudanças climáticas são um fenômeno global, mas afetam algumas regiões de maneira mais contundente. Brasil tem uma lacuna de proteção maior do que outros países?
Alessandro Octaviani: Os dados mostram que o Brasil tem uma lacuna securitária maior do que economias desenvolvidas como França, Japão e Estados Unidos. O caso do Rio Grande do Sul é bastante eloquente: a cobertura foi de cerca de 6% a 7%. Aqui não foi um desvio, foi a comprovação de um cenário todo. Então, temos sim um problema relevante de lacuna securitária.
Quais são as causas dessa lacuna?
Alessandro Octaviani: Há algumas dimensões. Uma é cultural: o seguro, na percepção de quem não contrata, pode ser visto como algo secundário. Outra dimensão é a de crescimento da economia e distribuição de renda: em uma economia que não cresce e tem uma renda muito concentrada, não é possível dispersar a proteção securitária. O problema da estrutura econômica vem sendo enfrentado, uma vez que o Brasil recuperou níveis de crescimento e distribuição de renda. A terceira dimensão - e essa é o foco do grupo de trabalho - está no desenho e nos gargalos institucionais que podem ser melhorados.
Na prática, como funciona esse grupo de trabalho e qual é o cronograma?
Alessandro Octaviani: O grupo foi criado no ano passado e realiza reuniões de cerca de duas horas. Na primeira hora, quatro especialistas falam por cerca de 15 minutos. Na segunda, há debate livre sobre o que os especialistas falaram. Já realizamos duas reuniões e devemos ter mais uma - possivelmente uma quarta. Ao todo, teremos entre 12 e 16 especialistas fazendo exposições estruturadas, além de contribuições de mais de 50 participantes em cada reunião. A expectativa é realizar a última reunião em fevereiro e, entre um mês e um mês e meio depois, vamos ter o relatório final. É prioridade ter o diagnóstico o mais rapidamente possível para viabilizar as soluções propostas. E esta é uma mensagem que eu gostaria de deixar: este não é um assunto apenas da Susep ou do governo. É um assunto do Brasil. Precisa ser construído com todos os atores relevantes - mercado de seguros, setores fora do seguro, Defesa Civil, produtores de dados climáticos e de resiliência. É uma agenda nacional, que exige pluralidade e coordenação.
Fonte: Broadcast Agro.