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15/Jan/2026

Mercosul-UE: valor geopolítico do acordo para UE

Segundo o banco holandês ING, o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia deve gerar impacto econômico limitado no curto e médio prazos, mas tem relevância estratégica elevada para o agronegócio e para a política comercial europeia. A projeção é de crescimento adicional de apenas 0,1% no PIB da União Europeia até 2032, enquanto o Mercosul teria impulso um pouco maior, de 0,3%, com ganhos graduais e concentrados em setores específicos. O tratado, a ser assinado no sábado (17/01) no Paraguai, cria uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, abrangendo mais de 700 milhões de pessoas e cerca de 20% do PIB global. Para a União Europeia, não se trata apenas de comércio, mas de garantir recursos estratégicos e contrabalançar a concorrência global.

Do ponto de vista geopolítico, o acordo envia sinais claros aos Estados Unidos e à China de que a Europa busca reduzir dependências comerciais e avançar em autonomia estratégica. Os efeitos econômicos diretos serão moderados e distribuídos de forma desigual dentro do próprio bloco europeu. Países com setores agropecuários mais competitivos, como Espanha e Itália, tendem a capturar uma parcela maior dos ganhos. Apesar dos benefícios comerciais, o impacto econômico geral permanece modesto. Os ganhos não serão compartilhados de forma equitativa entre os Estados-membros da União Europeia. O principal valor do acordo vai além do comércio. O impulso gerado por este acordo deve ser aproveitado para acelerar negociações de outros tratados, como o acordo entre União Europeia e Índia, que já esteve perto de ser concluído.

O acordo com o Mercosul fortalece a credibilidade da União Europeia como ator do comércio global e abre uma janela para destravar negociações que estão paralisadas há anos. No agronegócio, os produtos alimentares concentram o eixo central do acordo. Em 2024, esses itens responderam por 24 bilhões de euros das importações europeias provenientes do Mercosul, o equivalente a 43% do total. Para reduzir a resistência de produtores europeus, a Comissão Europeia incluiu salvaguardas e propôs a criação de um fundo de crise agrícola de 6,3 bilhões de euros, além do redirecionamento de 45 bilhões de euros do orçamento para a agricultura no ciclo 2028-2034. Ao fazer isso, a Comissão Europeia trocou mais oportunidades de exportação por menos flexibilidade orçamentária no período de 2028 a 2034.

As exportações agroalimentares da União Europeia para o Mercosul somaram 3,3 bilhões de euros em 2024, e o acordo amplia o acesso ao mercado para produtos de maior valor agregado. Como esses itens europeus enfrentam tarifas nos Estados Unidos, a abertura de novos mercados tende a ajudar na diversificação de rotas comerciais, cadeias de abastecimento e canais de distribuição. Chama atenção o papel estratégico das matérias-primas, tema que recebeu menos destaque no debate público. Isso é surpreendente, já que a União Europeia é altamente dependente da China para matérias-primas essenciais. Países do Mercosul, como Argentina e Brasil, concentram reservas relevantes desses insumos. A demanda europeia por baterias de lítio deve crescer 12 vezes até 2030, enquanto a procura por metais de terras raras tende a aumentar de cinco a seis vezes no mesmo período.

Ao fortalecer os laços com o Mercosul, a União Europeia entra de forma mais ativa na disputa global por matérias-primas essenciais, ao lado da China e dos Estados Unidos. O acordo busca reforçar a segurança das cadeias de suprimento e facilitar investimentos europeus em processamento local. Isso apoia a estratégia de redução da dependência da China e introduz um elemento de competição aliada com os União Europeia na América Latina. O tratado ainda enfrenta obstáculos políticos. O Parlamento Europeu precisa aprová-lo para que entre em vigor, e há partidos que defendem o envio do texto ao Tribunal de Justiça da União Europeia, o que poderia atrasar a implementação por até 18 meses. Uma referência é o acordo entre União Europeia e Canadá, em aplicação provisória desde 2017, mas ratificado por apenas 17 dos 27 Estados-membros até hoje. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.