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13/Jan/2026

Entrevista com António Costa - Conselho Europeu

Após mais de duas décadas até seu fechamento na sexta-feira (09/01), o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia pode ter sido arrastado, mas foi encerrado no momento geopolítico e geoeconômico mais oportuno, na avaliação do presidente do Conselho Europeu, António Costa. Também é visto por ele como mais necessário hoje do que quando foi idealizado. "Este acordo pode ter chegado tarde, mas chega no momento em que mais precisamos dele", avaliou. "Ele reflete claramente o tipo de relação que ambas as regiões procuram reforçar: uma relação baseada em regras e confiança mútua que, além disso, nos ajudará a navegar o turbulento contexto geopolítico global em que estamos e a fazer isso de acordo com nossos valores." Para o ex-premiê de Portugal, o tratado envia ao mundo uma mensagem em defesa do multilateralismo, do livre comércio, e do diálogo, posicionando-se contra o unilateralismo e as tensões.

Diplomático, não citou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas analisou que a paralisação da Organização Mundial do Comércio (OMC) e tarifas unilaterais, incentivadas ou promovidas por Trump, são sintomas de que o multilateralismo está sob pressão. Costa acredita que uniões como esta tornam as partes mais fortes para enfrentar vários desafios do momento, como o respeito ao direito internacional. A alternativa à ordem baseada em regras é um mundo mais caótico e violento. "A União Europeia tem procurado responder com inteligência, reforçando o diálogo, a cooperação e uma parceria global baseada em regras." Costa falou também sobre a decisão unilateral do bloco do Norte de criar salvaguardas a itens agrícolas a serem exportados pelos países do Sul, tema que ainda gera protestos de produtores europeus. Ele garantiu que o instrumento será usado excepcionalmente e que não têm o objetivo de restringir o comércio entre as partes ou criar barreiras. A União Europeia, afirmou, está plenamente comprometida com a implementação efetiva do acordo. Segue a entrevista:

Após a aprovação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, o próximo passo é a assinatura dos documentos, que está prevista para sábado, dia 17. O senhor pretende se deslocar para o Paraguai? António Costa: É com muito gosto que viajarei para Assunção no próximo sábado para participar da cerimônia de assinatura do tratado Mercosul-União Europeia, juntamente com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. A ocasião merece todo o empenho. Após 25 anos de negociações, a assinatura no dia 17 criará a maior zona de livre comércio do mundo, um mercado de mais de 700 milhões de consumidores, o que gerará enormes oportunidades para os nossos cidadãos e para as nossas empresas.

Em sua manifestação nas redes sociais ao anunciar o acordo, o senhor enfatizou a importância do tratado para a UE. Gostaria que o senhor apontasse as principais vantagens para o bloco não apenas do ponto de vista econômico como também geopolítico.

António Costa: Sua relevância vai além do aspecto puramente econômico. O acordo entre a União Europeia e os países do Mercosul envia uma mensagem clara ao mundo em defesa do multilateralismo e do livre comércio baseado em regras e em padrões ambientais e sociais elevados. Em defesa do diálogo e da cooperação, contra o unilateralismo e as tensões. Isso não é algo trivial no contexto internacional atual. O papel do presidente Lula, ao qual estamos especialmente gratos, foi crucial para que a Comissão Europeia pudesse fechar o acordo com os países do Mercosul e, se a União Europeia tivesse concluído seus procedimentos internos para aprová-lo em dezembro, de fato a assinatura teria ocorrido no Brasil. Para a União Europeia, a relação com o Brasil é estratégica e confio que possamos celebrar uma nova cúpula bilateral o mais rapidamente possível. Brasil e União Europeia são dois grandes polos regionais com enorme potencial para fortalecer ainda mais os laços que unem a Europa e a América Latina.

O Mercosul vem fechando outros acordos recentemente. A UE não teria mais vantagens se não tivesse demorado tanto tempo?

António Costa: Este acordo pode ter chegado tarde, mas chega no momento em que mais precisamos dele. O embrião deste acordo remonta a um mundo que confiava na globalização e no livre comércio como algo quase natural. Hoje, o contexto é diferente: um mundo mais fragmentado, mais hostil à cooperação, onde o comércio deixou de ser um elemento de união para se tornar, muitas vezes, uma arma de arremesso. Por isso, este acordo é hoje mais necessário do que quando foi idealizado. Ele reflete claramente o tipo de relação que ambas as regiões procuram reforçar, uma relação baseada em regras e confiança mútua que, além disso, nos ajudará a navegar o turbulento contexto geopolítico global em que estamos e a fazer isso de acordo com nossos valores. Num cenário de mudanças e desafios, continuamos comprometidos com o diálogo, a construção de pontes e a formação de alianças. Porque acreditamos no comércio justo como força geradora de prosperidade, emprego e estabilidade. A redução de tarifas permitirá grandes poupanças para cidadãos e empresas, abrirá novos mercados de exportação, fortalecerá a nossa competitividade no cenário global e permitirá reforçar a nossa segurança econômica ao diversificarmos as nossas cadeias logísticas globais. Os nossos países poderão extrair enormes benefícios com a entrada em vigor do acordo, mas, insisto, o seu impacto vai além do campo econômico.

Quais são?

António Costa: A parceria entre a União Europeia e o Mercosul será uma plataforma crucial na promoção dos nossos valores comuns, que irá impulsionar o desenvolvimento sustentável e garantir a proteção ambiental, enquanto defendemos os direitos dos trabalhadores de ambos os lados do Atlântico. O acordo chegou tarde, mas no momento geopolítico e geoeconômico mais oportuno.

Junto com o acordo, o Conselho também aprovou salvaguardas para a UE. A decisão é unilateral do bloco do Norte. Há algum risco de esses mecanismos impedirem ou se tornarem um obstáculo para que o pacto comercial seja colocado em prática efetivamente?

António Costa: As salvaguardas adotadas pela União Europeia no apoio ao seu setor agrícola são compatíveis com o texto do acordo firmado entre as duas partes. Elas existem para oferecer segurança em cenários excepcionais, não para restringir o comércio ou criar barreiras indevidas. A União Europeia está plenamente comprometida com a implementação efetiva do acordo com o Mercosul. Esperamos que essas salvaguardas sejam compreendidas como um elemento que fortalece - e não enfraquece - a credibilidade do pacto e a sua aplicação prática. Na primeira fase para que o acordo ganhe validade, há necessidade apenas de ratificações pelo Parlamento Europeu e um dos países do Mercosul.

Para quando o senhor acredita que as primeiras consequências desse tratado serão vistas? Há preocupações em relação à fase posterior, quando será preciso do aval do parlamento dos entes nacionais da UE?

António Costa: É verdade que ainda faltam alguns passos, mas após 25 anos de negociações, demos, certamente, o passo mais importante. A assinatura do tratado no dia 17 em Assunção não é o fim do caminho, mas marca um antes e um depois. E significa que estaremos mais perto de ver o impacto positivo do acordo, principalmente em relação à sua parte comercial, que poderá entrar em vigor antes da parte política, que efetivamente precisará da aprovação específica de todos os estados membros.

Que peso tiveram as recentes ações - tarifas protecionistas e Venezuela - do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para o fechamento do acordo? E como a UE, agora está acossada pela Rússia e os Estados Unidos ao mesmo tempo por causa da Groenlândia, dedicará seus recursos à defesa para as dimensões do projeto de integração?

António Costa: O acordo com o Mercosul insere-se num contexto internacional marcado por profundas transformações, em que o sistema multilateral enfrenta desafios evidentes. A paralisação da OMC ou o recurso a tarifas unilaterais são sintomas de um mundo em que o multilateralismo está sob pressão. A União Europeia tem procurado responder com inteligência, reforçando o diálogo, a cooperação e uma parceria global baseada em regras. A União Europeia dispõe já hoje de uma rede com mais de 70 acordos comerciais, e está a acelerar negociações com vários países e regiões, incluindo a Índia. Esta estratégia reflete uma clara aposta na diversificação dos nossos laços econômicos e na abertura responsável ao mundo. A América Latina é, nesse contexto, um parceiro natural e estratégico para nós. A nossa cooperação é mais importante do que nunca, e a recente cúpula UE-CELAC em Santa Marta deu-lhe um novo impulso. Juntos somos mais fortes para enfrentar desafios comuns, da transição climática até à promoção da paz, da segurança e do respeito pelo direito internacional e pelos valores inscritos na Carta das Nações Unidas. Para a União Europeia, é fundamental sermos consistentes e vigorosos na defesa destes princípios. Sabemos que a alternativa à ordem internacional baseada em regras é um mundo mais caótico e violento.

Fonte: Broadcast Agro.