12/Jan/2026
O pacto entre o Mercosul e a União Europeia vai muito além dos aspectos comerciais, que constituem o cerne do acordo. Em um cenário geopolítico adverso e de perda de relevância relativa do bloco europeu, o tratado também busca funcionar como instrumento de articulação global e de proteção da economia da União Europeia diante da ascensão dos países asiáticos, especialmente a China. Não por acaso, o texto, negociado há mais de duas décadas, ganhou novo impulso após a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor tarifas a grande parte dos países do mundo.
O fechamento do acordo também reflete a importância que alguns pontos do mundo têm dado ao multilateralismo, num momento em que o governo norte-americano vem tomando ações contrárias a ações consensuadas globalmente. Ao assinarem o tratado no atual contexto geopolítico, União Europeia e Mercosul marcam suas posições internacionais em relação à importância dos acordos multilaterais, enquanto os Estados Unidos tentam solapar as bases da economia ocidental. Em relação ao texto em si, negociadores europeus avaliaram que o tratado é mais vantajoso para a União Europeia do que para o Mercosul.
O Mercosul, por sua vez, vê no pacto uma forma de estar mais aberto economicamente e mais presente no comércio internacional. Os efeitos sobre as economias dos países emergentes tendem a ser ainda mais evidentes. A União Europeia é vista como uma porta de entrada para o mercado global, conferindo uma chancela reconhecida internacionalmente a produtos e serviços da região. Esse acordo cria oportunidades de exportação para empresas de todas as regiões, contribui para um crescimento econômico competitivo e sustentável e apoia milhares de trabalhadores.
Além disso, amplia os fluxos de investimento e dedica atenção especial à proteção ambiental, promovendo valores compartilhados pela União Europeia, pelo Brasil e pelos demais países do Mercosul. Está claro que a maior força, e a mais facilmente mensurável, do acordo está relacionada à economia. O tratado abrange um mercado de 718 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) conjunto de aproximadamente US$ 22 trilhões. Uma série de eventos bilaterais está prevista a partir deste ano em diversas áreas.
Entre eles, um debate sobre transição energética e agricultura, programado para março, e uma discussão sobre inteligência artificial e o futuro do trabalho, marcada para abril, no Rio de Janeiro. Também está programada a realização da primeira cúpula União Europeia-Brasil. Em junho, o comissário europeu para Democracia, Justiça, Estado de Direito e Proteção do Consumidor, Michael McGrath, deve visitar o Brasil. O foco será lançar um novo diálogo sobre segurança pública, incluindo crimes transnacionais e o combate ao crime organizado, além de temas como a cooperação entre as duas regiões.
A União Europeia realizou cinco grandes missões econômicas ao Brasil em 2025 e planeja organizar outras neste ano. Desde que o acordo passou a demonstrar maior viabilidade, houve um aumento significativo na frequência de visitas de representantes da União Europeia ao Brasil. Foram cerca de 40 viagens oficiais em nome do bloco, sem contar as visitas individuais dos Estados-membros. Os europeus também têm reiterado, com maior ênfase, que são os principais investidores no Brasil quando considerados de forma consolidada. A União Europeia é a principal fonte de investimento estrangeiro no País.
Em 2024, os investimentos acumulados somaram 440 bilhões de euros, o equivalente a 40% de todo o capital externo aplicado no Brasil, muito à frente dos Estados Unidos e, sobretudo, da China. Desde 2020, observa-se um crescimento médio anual de 30%. Embora a economia seja o principal destaque do acordo, outras questões globais também ocupam espaço central nas negociações futuras. Há uma crescente polarização no mundo, e alguns mercados se tornaram mais difíceis do que no passado. Em tempos de volatilidade geopolítica, esse acordo aproxima os dois blocos politicamente como parceiros estratégicos. Trata-se de um tema extremamente relevante, não apenas do ponto de vista econômico, mas também político.
Segundo o Fórum Econômico Mundial (WEF), se o multilateralismo está em baixa na economia mundial, em meio às tarifas comerciais do presidente norte-americano, Donald Trump, e o aumento de medidas protecionistas em vários países, a cooperação global tem se mostrado resiliente e avança. Um exemplo claro é o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. O Mercosul, um grande bloco comercial, está cooperando com a União Europeia. Mesmo com os fortes ventos de cauda vindos do aumento das tensões geopolíticas no mundo, a cooperação mundial não está se retraindo, mas se reinventando. Está evoluindo, não acabando.
No estudo do Fórum Econômico Mundial, o multilateralismo caiu para um nível recorde de baixa em 2025, de acordo com uma métrica desenvolvida em conjunto com a consultoria McKinsey & Company. E a expectativa é que recue ainda mais. Nesse ambiente, a tendência é de mais acordos bilaterais, ou regionais, como foi o da União Europeia com o Mercosul. À medida que o sistema multilateral global enfrenta pressões, uma grande reconfiguração nos parceiros comerciais está ocorrendo. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.