06/Jan/2026
Os recentes desdobramentos geopolíticos envolvendo Estados Unidos, Venezuela e as reações firmes da China expõem, mais uma vez, uma realidade que o agronegócio já não pode ignorar: o mundo não precifica apenas safras, clima e demanda. O preço dos alimentos passa a absorver riscos adicionais, entre eles o risco político, o custo energético e decisões estratégicas tomadas fora da porteira. A Venezuela, embora não seja hoje um grande player agrícola, ocupa um espaço simbólico e estratégico no tabuleiro global por sua posição geopolítica e energética. Quando uma ação militar direta ocorre, seguida por reações duras de potências como a China, o mercado não espera a poeira baixar. Ele reage imediatamente, recalibrando percepções de risco. Durante minha temporada recente na Europa, esse sentimento de escalada global já vinha sendo processado pelos mercados. Investidores, analistas e agentes econômicos com quem dialoguei demonstravam clara antecipação de decisões globais mais extremas, reposicionando estratégias e alertando para um ambiente de crescente tensão internacional.
O episódio envolvendo Estados Unidos e Venezuela apenas materializou um movimento que já vinha sendo precificado e debatido nos principais centros econômicos europeus. O primeiro canal de transmissão dessa tensão não é o grão em si. É a energia. O petróleo funciona como termômetro instantâneo de instabilidade. Qualquer aumento de risco geopolítico em regiões sensíveis eleva o prêmio embutido no barril, mesmo sem alteração imediata de oferta física. Esse movimento chega rapidamente ao diesel, base operacional de toda a cadeia do agronegócio. No Brasil, energia mais cara pressiona o frete interno, encarece o transporte até os portos, interfere na formação da base e corrói margens em reais. Mesmo que a Bolsa de Chicago permaneça estável, o custo de execução sobe. Em um ambiente de câmbio volátil, essa pressão se intensifica e exige decisões mais técnicas e menos intuitivas. O efeito não para aí. Energia mais cara se espalha pelos insumos.
Fertilizantes, defensivos, processamento industrial, armazenagem e embalagens carregam componentes energéticos relevantes. O risco geopolítico se transforma, rapidamente, em custo operacional. Esse movimento de reprecificação não se limita à energia. Ele se espalha por outros mercados sensíveis ao risco. O movimento de aversão ao risco também costuma se refletir no mercado de metais. Em cenários de tensão geopolítica, metais preciosos como o ouro, que já se encontram em ciclo de alta e em máximas históricas, tendem a se valorizar como ativos de proteção. Ao mesmo tempo, metais industriais como cobre, alumínio e níquel passam a incorporar prêmio adicional de incerteza ligado a cadeias globais de produção, energia e logística. Esse comportamento reforça um ambiente estruturalmente mais caro para setores intensivos em insumos industriais, inclusive para o agronegócio. Máquinas, implementos, estruturas de armazenagem, embalagens metálicas e componentes logísticos tornam-se mais onerosos, ampliando o efeito cascata do risco geopolítico sobre a estrutura de custos da produção agrícola.
A alta dos metais, portanto, não é um fenômeno isolado. Ela compõe o mesmo movimento que eleva energia, frete e custo financeiro, aprofundando a pressão sobre margens em um ambiente já mais volátil e exigente. Outro vetor crítico é o seguro. Em momentos de tensão internacional, seguradoras ajustam prêmios, reclassificam rotas, endurecem cláusulas e exigem garantias adicionais. O custo de proteger carga, navios e contratos aumenta. O que antes era rotina passa a exigir gestão fina e margem adicional. O custo financeiro também responde. Ambientes instáveis elevam a aversão ao risco, encarecem o crédito e ampliam spreads. Para um setor intensivo em capital como o agronegócio, isso reduz a tolerância a erros e torna o planejamento financeiro e o hedge instrumentos centrais de sobrevivência, não de sofisticação. Há ainda um fator frequentemente subestimado: o tempo. Processos ficam mais lentos, liberações mais criteriosas e inspeções mais rigorosas. No agro, tempo é custo. E, muitas vezes, um custo invisível até o resultado final. Esse é o lado menos sedutor do cenário.
Um mundo mais caro, mais volátil e mais exigente. Mas é justamente nesse pano de fundo que se desenha um segundo movimento, estratégico e silencioso, no qual o Brasil pode capturar uma nova janela de oportunidade. A reação da China ao episódio venezuelano não deve ser lida apenas como defesa circunstancial, mas como parte de uma lógica de sinalização geopolítica. Historicamente, Pequim, assim como outras grandes potências, utiliza o comércio como instrumento político. Tarifas, autorizações, flexibilizações e fluxos de compra funcionam como linguagem diplomática. Nesse contexto, a intensificação da tensão com os Estados Unidos pode levar a China a recalibrar relações comerciais, reforçando vínculos com parceiros estratégicos fora do eixo americano. Esse movimento tende, inclusive, a provocar um arrefecimento ou retrocesso em negociações recentes entre China e Estados Unidos. É nesse ponto que o Brasil surge como peça central.
O agro brasileiro reúne atributos que ganham valor globalmente: escala, previsibilidade de oferta, histórico de cumprimento de contratos, capacidade de resposta e, cada vez mais, sustentabilidade. Não se trata apenas de eficiência produtiva, mas de confiabilidade sistêmica. Dentro dessa lógica, não é improvável que a China reaja diretamente no tabuleiro comercial e reveja a recente decisão de taxar o acesso à carne brasileira. Uma decisão nesse sentido estaria menos associada a uma aproximação com o Brasil e mais a um distanciamento estratégico em relação aos Estados Unidos. Ainda assim, a consequência prática seria altamente benéfica ao setor brasileiro. Brasil e, em menor escala, Argentina, seriam beneficiados por esse reposicionamento. A Argentina, apesar de limitações macroeconômicas conhecidas, tende a capturar oportunidades pontuais. O protagonismo regional, porém, permanece com o Brasil, pela escala, regularidade e capacidade de entrega.
Esse estreitamento não seria retórico. Seria operacional, técnico e institucional. O paradoxo do momento é evidente. O mesmo cenário que pressiona custos, margens e execução no curto prazo pode elevar o Brasil a um nível mais estratégico no médio prazo. O agro brasileiro deixaria de exercer apenas a figura de fornecedor eficiente e passaria a ocupar, em um mundo fragmentado, o papel de parceiro relevante. Contudo, essa oportunidade não é gratuita. Ela demanda leitura macroeconômica refinada e exige governança, rastreabilidade, gestão de risco e excelência operacional. Em um ambiente onde energia, política e alimentos caminham juntos, improviso deixa de ser opção. O comércio global está mais político. O custo de errar está mais alto. Mais do que reagir, o desafio do agro brasileiro será interpretar o tabuleiro em movimento e decidir com base em contexto, não em ruído. Fonte: Andrea Cordeiro. Fonte: Broadcast Agro.