05/Jan/2026
O agronegócio brasileiro inicia 2026 sem uma resposta conclusiva sobre se o período mais agudo da crise de crédito foi superado ou se o setor apenas postergou um ajuste mais profundo. Após dois anos marcados por uma escalada expressiva de pedidos de recuperação judicial envolvendo produtores, revendas, cooperativas e agroindústrias, parte do sistema financeiro passou a projetar sinais de inflexão da inadimplência já no primeiro trimestre de 2026. Essa avaliação se apoia no avanço das renegociações realizadas ao longo de 2025 e na expectativa de uma safra mais regular. Ainda assim, o diagnóstico não é consensual, uma vez que juros elevados, custos de produção pressionados e margens estreitas mantêm grande parte do setor operando em condições financeiras restritivas.
Os números recentes dimensionam a intensidade do choque. No terceiro trimestre de 2025, o agronegócio registrou 628 pedidos de recuperação judicial, aumento de 147% em relação ao mesmo período do ano anterior e o maior volume desde o início da série histórica. O movimento atingiu todos os elos da cadeia produtiva. Produtores rurais pessoas físicas concentraram 255 pedidos, enquanto produtores pessoas jurídicas somaram 242, com maior incidência entre atividades ligadas à soja e à bovinocultura. Empresas do setor responderam por 131 solicitações, principalmente nos segmentos de comércio atacadista de insumos e agroindústrias de processamento. Estados como Mato Grosso, Goiás e Paraná concentraram os casos, refletindo a elevada dependência de crédito e capital de giro nessas regiões.
A crise tem origem anterior a 2025. Seu início remonta à safra 2023/24, quando eventos climáticos adversos comprometeram a produção em áreas relevantes e reduziram a geração de caixa. Simultaneamente, os preços de commodities como soja, milho e algodão recuaram, enquanto os custos de produção permaneceram elevados. Para produtores com maior nível de endividamento, o desequilíbrio financeiro se instalou antes mesmo da colheita, transformando atrasos pontuais em um problema estrutural de fluxo de caixa, especialmente entre aqueles que vinham rolando dívidas sem ajustes de custos, revisão patrimonial ou contenção de expansões pouco sustentáveis.
A inadimplência no campo rapidamente se propagou ao longo da cadeia. Revendas de insumos, que tradicionalmente antecipam recursos ao produtor e recebem após a colheita, passaram a enfrentar dificuldades de liquidez. Processos de recuperação judicial envolvendo grandes redes de revenda evidenciaram o impacto sistêmico desse modelo, com fechamento de unidades, renegociações de grande porte com fornecedores e efeitos diretos sobre cooperativas, empresas de comercialização e instituições financeiras. Esses casos demonstraram que a crise deixou de ser localizada e passou a afetar o varejo de insumos, pressionar agroindústrias e contaminar o sistema de crédito como um todo.
Avaliações do sistema financeiro indicam que o pico do estresse ocorreu no segundo semestre de 2025. Parte dos casos mais críticos foi judicializada, enquanto outra parcela conseguiu renegociar dívidas, alongar prazos e aliviar pressões imediatas de caixa. Indicadores internos de grandes financiadores do setor sugerem que as renegociações avançaram e que a inadimplência pode apresentar inflexão gradual ao longo de 2026. Em meados de 2025, a inadimplência da carteira de crédito rural alcançou cerca de 3,5%, o maior patamar em anos, mas ajustes regulatórios e medidas de alongamento de prazos tendem a produzir efeitos progressivos.
Apesar dessa expectativa, o ambiente de crédito permanece mais restritivo. Bancos adotam critérios mais rigorosos de análise de risco, exigem garantias adicionais e operam com menor tolerância a atrasos. Para produtores dependentes de financiamento, isso implica menor margem para erros operacionais ou climáticos. A geração consistente de caixa ao longo do ciclo produtivo tornou-se condição essencial para a manutenção do acesso ao crédito, em um contexto que deixou de ser de expansão e passou a ser de preservação financeira.
O desempenho do setor ao longo de 2025 foi heterogêneo. Produtores mais estruturados, diversificados ou localizados em regiões com melhor desempenho climático conseguiram atravessar o período com menor impacto, enquanto agentes mais expostos a volatilidade de preços, eventos climáticos e elevados níveis de alavancagem sofreram pressões mais intensas. Os efeitos acumulados de ciclos adversos não se dissipam rapidamente, e 2026 tende a se configurar como um ano de transição, com retomada gradual e desigual da rentabilidade. A postura mais cautelosa de investimento adotada em 2025 contribuiu para reduzir a alavancagem, mas juros elevados e margens comprimidas seguem exigindo disciplina financeira e gestão rigorosa de riscos.
Sob a ótica jurídica, o cenário permanece desafiador. Não há sinais claros de alívio estrutural nos indicadores de inadimplência, custos ou endividamento. O aperto financeiro iniciado antes de 2023 tende a persistir, uma vez que os preços das commodities operam em patamares mais estáveis e os juros seguem elevados. A restrição de crédito, combinada à volatilidade de preços e a atrasos de pagamento, amplia o risco de contaminação ao longo da cadeia, pressionando fornecedores de insumos, revendas e prestadores de serviços, com potencial aumento de empresas em situação de desequilíbrio financeiro.
Para que 2026 represente uma melhora mais consistente, será necessária a convergência de múltiplos fatores. Condições climáticas favoráveis e um ambiente macroeconômico menos restritivo podem contribuir, mas não são suficientes para garantir uma recuperação sustentável. O elemento central passa a ser a previsibilidade operacional e financeira, sustentada por planejamento mais rigoroso, controle de custos, estrutura de capital mais equilibrada e uso sistemático de instrumentos de mitigação de riscos produtivos e financeiros. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.