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05/Jan/2026

Crédito Rural encolhe e amplia captação de privados

A crise de crédito que atingiu o agronegócio brasileiro passa por uma mudança de natureza em 2026. Após dois anos marcados por uma sequência de recuperações judiciais, especialmente entre produtores rurais e revendas de insumos, o principal efeito passa a ser a escassez de financiamento tradicional. Com instituições financeiras mais restritivas e o varejo agrícola retraído, produtores e empresas do setor intensificaram a busca por recursos no mercado de capitais, recolocando os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais no centro do sistema de financiamento do agronegócio.

Esse novo cenário se consolidou a partir da disseminação da inadimplência ao longo da cadeia produtiva. A fragilidade de caixa dos produtores comprometeu o modelo tradicional de financiamento via revendas, que antecipavam insumos e recebiam após a colheita. A interrupção dessa fonte privada de crédito reduziu significativamente a liquidez disponível no campo. Em paralelo, bancos públicos e privados passaram a reduzir limites, exigir garantias adicionais e encurtar prazos, diminuindo a capacidade de rolagem das dívidas existentes.

O sistema passou a operar com um desequilíbrio estrutural entre oferta e demanda de recursos. A escassez de crédito ocorreu em um momento em que muitos produtores ainda buscavam reorganizar passivos acumulados em ciclos anteriores, alterando de forma relevante a dinâmica do mercado, com maior seletividade por parte dos detentores de capital.

Nesse contexto, os Fiagros ganharam protagonismo. Criados em 2021, esses fundos operam de forma semelhante aos fundos imobiliários, porém direcionados ao financiamento do agronegócio, investindo principalmente em ativos de crédito rural. O modelo permite a participação de investidores pessoas físicas com benefícios tributários, ampliando a base de financiamento do setor. O mercado conta atualmente com mais de uma centena de fundos desse tipo, com patrimônio líquido superior a dezenas de bilhões de reais.

As carteiras desses fundos são compostas majoritariamente por instrumentos como Certificados de Recebíveis do Agronegócio, títulos de dívida emitidos por empresas do setor para captação de recursos no mercado, e Cédulas de Produto Rural, utilizadas por produtores para antecipar capital antes da colheita, com liquidação em produto ou em moeda. Na prática, esses instrumentos viabilizam a transferência do financiamento do campo para fora do sistema bancário tradicional.

Antes da retomada do interesse dos investidores, o mercado passou por um ajuste significativo. No final de 2024, a elevação do número de recuperações judiciais ampliou a percepção de risco, provocando queda generalizada nas cotas dos Fiagros, inclusive em fundos sem exposição direta a operações problemáticas. O movimento refletiu um contágio sistêmico, impulsionado pelo aumento da aversão ao risco.

Parte dessa volatilidade decorreu da estruturação inicial do mercado, marcada por operações com retornos muito elevados, que embutiam riscos mal precificados. Taxas significativamente acima dos referenciais de mercado implicavam custos financeiros elevados, posteriormente reconhecidos como insustentáveis. Casos de empresas de grande porte com acesso ao mercado de capitais evidenciaram que padrões de governança, isoladamente, não são suficientes para mitigar estruturas de endividamento excessivamente onerosas.

Ao longo de 2025, iniciou-se um processo de correção. Gestoras revisaram critérios de crédito, reforçaram garantias, reduziram a exposição a operações mais agressivas e priorizaram previsibilidade e preservação de capital. Esse reposicionamento resultou em recuperação do desempenho dos fundos, que apresentaram valorização superior à de outros veículos listados, refletindo tanto a recomposição das cotas quanto a reestruturação das carteiras.

A estratégia predominante passou a privilegiar margens de segurança mais amplas, mesmo com menor retorno potencial, além da concentração em regiões consolidadas, onde as garantias apresentam maior liquidez. Em ambientes de instabilidade, a qualidade e a liquidez das garantias tornaram-se fatores centrais na gestão do risco.

Também houve ajuste na relação com os investidores, com maior ênfase na natureza cíclica do agronegócio. A constituição de reservas dentro dos fundos passou a ser utilizada como mecanismo para suavizar resultados em períodos adversos, reduzindo a volatilidade da distribuição de rendimentos.

Apesar da melhora relativa, a avaliação predominante é de que o ciclo de estresse no agronegócio ainda não se encerrou. Dificuldades enfrentadas por empresas de maior porte indicam que os problemas são amplos e se propagam pela cadeia produtiva, ampliando o risco sistêmico. A interdependência entre produtores, revendas e financiadores faz com que choques em um elo afetem todo o sistema de crédito.

A ampliação do acesso à recuperação judicial para produtores pessoas físicas contribuiu para o aumento expressivo dos pedidos recentes, concentrados nesse segmento. Esse movimento não implica comprometimento integral do crédito do agronegócio, mas evidencia que o ciclo anterior de alavancagem avançou além de níveis sustentáveis.

Além do segmento de grãos, outros setores começam a apresentar sinais de risco. Cadeias como a de açúcar e etanol, até então menos pressionadas, podem enfrentar compressão de margens em função da queda de preços, configurando um fator adicional de atenção para 2026.

Apesar do trauma recente, o interesse dos investidores voltou, porém com perfil mais cauteloso. O foco deslocou-se da busca por elevada rentabilidade para uma análise mais rigorosa de risco, refletindo um mercado mais maduro e alinhado às condições estruturais do financiamento do agronegócio. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.