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28/Nov/2025

COP30: Brasil protagonista na agricultura tropical

O ex-ministro da Agricultura e coordenador-geral do FGV Agro, Roberto Rodrigues, defendeu que o Brasil precisa assumir, de maneira estratégica, o protagonismo da agricultura tropical, uma agenda que pode não apenas impulsionar a segurança alimentar global, mas também contribuir para a paz mundial. Foi apresentado o resultado de um amplo trabalho técnico que envolveu especialistas de diferentes áreas e culminou na criação do Fórum Nacional de Agricultura Tropical. O grupo consolidou mais de 50 documentos e propostas sobre o futuro da agropecuária em regiões tropicais, sintetizados em um livro de 153 páginas. A coordenação técnica da publicação ficou a cargo da pesquisadora Adriana Brandani, que organizou o material em duas partes: a trajetória da agricultura brasileira nos últimos 50 anos e um conjunto estruturado de recomendações para orientar políticas agrícolas de países tropicais. Há cinco décadas, o Brasil importava 30% dos alimentos que consumia e hoje exporta para cerca de 200 países.

Essa revolução foi construída com tecnologia, pesquisa, aumento de produtividade e preservação ambiental, pilares que precisam ser compartilhados com o mundo em desenvolvimento. "É uma história extraordinária. Eu tenho um orgulho tão grande disso que fico até emocionado", disse. Segundo Rodrigues, a síntese das propostas do novo fórum destaca dois desafios centrais: financiamento e regras de comércio. Sem recursos, países pobres não conseguirão replicar o modelo tecnológico desenvolvido pelo Brasil. E, mesmo com financiamento, poderão enfrentar barreiras comerciais impostas por países desenvolvidos. "Se as regras não mudarem, ninguém entra no mercado", alertou. Ele lembrou que até a União Europeia decidiu adiar, por mais um ano, a entrada em vigor de sua legislação ambiental para o agro, reconhecendo limites práticos à implementação imediata das normas. O material produzido reúne ainda oito blocos de propostas temáticas, que serão detalhados pelo FGV Agro.

A premissa é que o mundo tropical (América Latina, África Subsaariana e parte da Ásia) concentra a maior disponibilidade de terras cultiváveis e tem potencial para ser responsável pelo próximo salto global de produção agrícola. Rodrigues também relatou os resultados da participação brasileira na COP30, afirmando que a agricultura tropical ganhou respeito internacional por sua base tecnológica e pela sustentabilidade demonstrada. O Brasil organizou seminários sobre pecuária e metano, sobre sistemas energéticos e biocombustíveis e sobre combustíveis sustentáveis de aviação. Dados apresentados mostraram a contribuição dos biocombustíveis nacionais para a redução de emissões: etanol de cana-de-açúcar, etanol de milho e biodiesel foram destacados como exemplos de eficiência climática. Ainda em Belém, durante a COP, o ex-ministro reforçou uma agenda de longo prazo: o estudo Agro Brasil 2050, que pretende projetar quem produzirá e quem consumirá alimentos globalmente nas próximas décadas.

Rodrigues pediu apoio dos adidos agrícolas na coleta de dados para embasar a estratégia brasileira. O ex-ministro situou essa discussão em um cenário de forte instabilidade geopolítica, marcado por guerras, disputas comerciais e perda de protagonismo de organismos multilaterais. Para ele, o mundo vive um período de "perplexidade global" que exige uma nova força de coesão: a paz. E não há paz sem comida, energia e emprego, áreas nas quais a agricultura tropical pode desempenhar papel decisivo. O modelo agrícola brasileiro, quando aplicado ao cinturão tropical do planeta, pode reduzir insegurança alimentar, impulsionar renda em países pobres, gerar energia renovável e promover inclusão produtiva. O agro tropical será um patrocinador da paz mundial. Ele afirmou ter retornado da COP30 ainda mais confiante no papel estratégico do Brasil: "Voltei de Belém mais orgulhoso do que eu já era. Convencido de que o Brasil tem um papel fundamental para garantir paz, comida, energia, emprego e clima".

O desafio agora é interno: a sociedade brasileira precisa desejar esse protagonismo e consolidar a visão de que o País pode, e deve, liderar a agenda global da agricultura tropical nas próximas décadas. O Brasil ganhou centralidade na discussão climática mundial e avançou na construção de uma nova narrativa sobre agricultura tropical. A COP30 representou um ponto de inflexão: colocou o agronegócio como parte fundamental das soluções ambientais e aproximou, como nunca, os debates sobre financiamento, tecnologia e sustentabilidade. Para a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), a COP30 foi "apoteótica" e marcou um divisor de águas na presença do agro nas discussões climáticas. 56 mil pessoas reunidas para debater clima criaram um ambiente singular e, pela primeira vez, foi observado um movimento consistente do setor financeiro em direção ao agronegócio. A pré-COP preparou um terreno muito rico. O setor financeiro discutiu financiar o agro não só como solução climática, mas também como redutor de risco.

Uma das maiores vitórias da conferência foi o leilão do EcoInvest, que mobilizou R$ 30 bilhões a juros de 1% ao ano, recursos viabilizados diretamente pela agenda climática. O dinheiro pode ser o promotor da junção entre a agenda ambiental e a agenda agro. A COP30 superou a pauta restrita às emissões da pecuária. O encontro consolidou a visão de que o Brasil tem um modelo robusto de agricultura tropical capaz de gerar soluções em escala. A COP foi muito mais do que falar do ‘arroto do boi’, foi falar da sustentabilidade da agricultura tropical. A pecuária é solução. A integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) simboliza esse caminho, por ser uma tecnologia transversal e democrática. A importância de traduzir o sucesso brasileiro para o mundo foi destacada pela Syngenta. O País deixou de ser importador para se tornar um grande exportador graças ao uso intensivo de ciência e técnicas sustentáveis, um movimento que ainda não é plenamente compreendido fora do Brasil. A COP30 contextualizou a agricultura tropical num cenário diferente.

A AgriZone deu visibilidade global ao modelo tropical, mostrando que é possível produzir e conservar sem que haja competição interna. O Brasil deve consolidar, nos próximos meses, uma "ciência da agricultura tropical", capaz de unificar dados, pesquisas e evidências que sustentem essa narrativa no exterior. Será um ano sob a presidência do embaixador André Corrêa do Lago para transformar isso em prática. É preciso aprofundar sistemas, mostrar resultados e estruturar um instrumento permanente de diálogo. A visão pragmática do setor foi reforçada pela Rede ILPF, que elogiou a capacidade da COP30 de expor, de maneira concreta, os resultados da agropecuária brasileira. A AgriZone foi um marco por apresentar, de forma transparente, práticas que já geram retorno econômico e ambiental. O agro é pragmático. Não pode ter romantismo: se não der resultado, não fica de pé. O País já tem 17,4 milhões de hectares sob ILPF, mas o potencial é imenso diante dos 127 milhões de hectares de pastagens existentes.

Há um campo enorme para transformar essas áreas. Não haveria melhor lugar para se fazer uma COP no Brasil do que Belém. Os estrangeiros ficaram impressionados com a chuva. A comunicação é peça-chave na próxima etapa. O setor precisa adaptar sua linguagem para falar com o público urbano, explicando com clareza as vantagens e desafios da agricultura tropical. O Brasil tem a oportunidade de produzir várias safras ao ano. É um diferencial enorme o clima brasileiro. Ao mesmo tempo, o solo é pobre e precisa de manejo adequado. A ILPF é um caminho eficiente para recuperar áreas degradadas, aumentar matéria orgânica e integrar, de forma inteligente, lavoura, gado e floresta. A COP30 não apenas projetou o Brasil como referência mundial em agricultura sustentável, mas também abriu uma janela estratégica para transformar esse reconhecimento em políticas, investimentos e ciência aplicável. O desafio agora é aproveitar o momento histórico para consolidar a agricultura tropical como um modelo global, e o Brasil como seu principal articulador. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.