20/Aug/2025
Técnicos do Ministério da Fazenda negociam com o Congresso alterar as regras de direcionamento dos recursos captados pelos bancos com a venda de Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), ampliando a exigência de alocação em crédito rural. A promessa é de que isso poderia aumentar em 25% o volume de crédito à disposição do agronegócio. A iniciativa foi lançada na tentativa do governo de diminuir a resistência da bancada ruralista à incidência de 5% de Imposto de Renda sobre as LCAs. Hoje, elas são isentas, mas passarão a ser tributadas no ano que vem caso a proposta do governo Lula seja aprovada pelo Congresso. A tributação desses investimentos está na medida provisória (MP) lançada para recompor parte das perdas de receita no IOF, cujo aumento foi limitado por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
Para negociar, uma proposta da Frente Parlamentar do Agronegócio (FPA) levada ao Ministério da Fazenda é elevar o direcionamento dos atuais 60% para 75%. Isso significa que, a cada R$ 100,00 captados pelos bancos com a venda de LCAs, R$ 75,00 seriam revertidos em crédito rural ou na compra de títulos ligados ao agronegócio, como as Cédulas de Produto Rural (CPR) e Certificados de Direitos Creditórios do Agronegócio (CDCA). O restante do dinheiro captado é de aplicação livre pelos bancos. Nesses empréstimos, os bancos oferecem taxas mais baixas do que as de mercado, porque não há incidência de IR sobre as LCAs, e esses recursos entram a custo mais baixo no sistema. Nos 40% restantes, como a aplicação pelos bancos é livre, eles podem emprestar a qualquer taxa, incluindo as mais altas, e receber pela diferença.
O argumento do governo é que ampliar o direcionamento vai forçar os bancos a oferecerem mais recursos ao setor rural, reduzindo o espaço para que esse dinheiro "fuja" para outros tipos de operações, que até podem ser mais lucrativas para os bancos, mas efetivamente não chegam ao setor rural. A Sapeba Agronegócios Ambientais, afirma, porém, que é preciso ter cuidado na dosagem para não desincentivar o setor bancário a emitir LCAs, o que pode ter como resultado oposto: secar o crédito para o setor rural em 2026. Aumentar a exigibilidade nas LCAs pode ter efeito contrário ao pretendido. O aumento do direcionamento neste ano pode ser positivo, uma vez que a perspectiva de incidência de IR está produzindo no mercado uma corrida de emissões de novas LCAs até o fim deste ano. Numa conta rápida: aumentar o direcionamento em 2025 adicionaria R$ 20 bilhões ao crédito rural.
No ano que vem, a situação se altera, uma vez que já se espera uma redução na emissão de LCAs em razão da tributação e do movimento de antecipação neste segundo semestre. Um maior direcionamento pode contribuir para a redução do interesse dos bancos em emitir esses papéis e, como consequência, secar o crédito ao setor rural. Dessa forma, a sugestão é que o direcionamento maior do que 60% se limite às emissões deste ano. A bancada do agronegócio trabalha para delimitar a incidência do IR apenas às LCAs, preservando da tributação os Fiagros, fundos imobiliários e CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio), que também são alvo da tributação proposta pelo governo. No primeiro semestre, havia no mercado R$ 588 bilhões em recursos aplicados em LCAs, segundo dados da B3. A FPA é contra o aumento do IR e vai trabalhar para fortalecer os títulos que têm sido uma formidável alternativa de fundos para o setor. Manter a sua atratividade é fundamental para haver 'funding' para o agro".
Outra parte da discussão diz respeito ao que pode ser financiado com os recursos obtidos por meio da captação com a venda de LCAs. Lideranças do Congresso pressionam para incluir entre as alternativas o financiamento a transporte e logística, saneamento rural, conectividade no campo e até energia renovável. O governo vê com ressalvas a iniciativa, temendo que os recursos acabem sendo aplicados em outros usos que não a atividade agropecuária. A medida é de difícil execução porque o prazo de lançamento das LCAs é curto, atualmente de seis meses, após decisão de maio do Conselho Monetário Nacional (CMN), e o financiamento desses empreendimentos é mais longo (acima de um ano), o que provocaria um descasamento nas instituições bancárias. Além disso, haveria mais setores interessados em disputar esses recursos, o que poderia ter como efeito adverso a produção de crédito para as atividades tradicionais do campo. O crédito rural é como um clube, quanto mais sócios maior vai ser a disputa por recursos. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.