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20/Aug/2025

Desigualdade de renda cresce no topo da pirâmide

Desde o fim da pandemia, a desigualdade de renda deu um salto: os ricos ficaram mais ricos e a distância em relação aos mais pobres e à classe média aumentou. Mas, nos últimos anos, também na ponta da pirâmide, no 1% mais rico, a diferença cresceu. Em termos numéricos, o 0,1% mais rico da população ganhou ainda mais do que os demais integrantes do clube do 1%. O 0,1% mais rico, este seleto grupo de pouco mais de 160 mil pessoas, tem renda mensal superior a R$ 146 mil por mês (ou R$ 1,7 milhão por ano). Nessa conta não entra o patrimônio (casas, carros, mansões ou fazendas), mas o quanto esses contribuintes recebem na geração de riqueza decorrente deste patrimônio, como os lucros de uma empresa, por exemplo, além da sua renda do trabalho e de ganhos financeiros. O estudo está publicado no site Fiscal Data, um hub de publicações sobre política fiscal e tributária.

A renda dos mais ricos vem sendo investigada com base em informações da Receita Federal, que passou a dar acesso a dados estatísticos mais detalhados do Imposto de Renda a partir de 2017. Isso abriu a porta para a elaboração de estudos com mais informações sobre o comportamento da renda no topo da pirâmide. Entre 2017 e 2023 (último ano com dados disponíveis), a renda do 0,1% mais rico cresceu 6,9% ao ano, bem mais do que o Produto Interno Bruto (PIB) e do que a renda média das famílias brasileiras (+1,4%). O 1% também viu a sua renda aumentar (+4,4%), mas numa velocidade inferior à da ponta da pirâmide. Entre o 0,01% mais rico, estrato ainda mais seleto dos mais ricos (com renda acima de R$ 855 mil mensais), o crescimento da renda foi ainda maior, de 7,9% no mesmo período, o que comprova a tese de uma "concentração também no topo da pirâmide".

A participação do 1% mais rico (na renda total) passou de 20,4% para 24,3%, e 85% desse acréscimo de 3,9% foi apropriado pelo 0,1% mais rico. O 0,1% detêm sozinho 12,5% da renda total das famílias brasileiras, número que poderia ser ainda maior se os pesquisadores tivessem computado as rendas de fundos fechados e offshore, que passaram a ser declarados em 2023. A exclusão foi feita para não deformar a comparação com os dados passados, mas indica que a concentração no pico da pirâmide é provavelmente maior. Os economistas traçam hipóteses para entender o que pode explicar esse comportamento de concentração até entre os mais ricos. Para tanto, eles decompõem as origens do aumento da renda. A partir disso, nota-se que, entre os 0,1% mais ricos, o que se destaca é a contribuição vinda de lucros e dividendos (66% do crescimento veio dessa origem) e 23% do incremento de outras rendas do capital.

No 1% mais rico (afora os 0,1%), os lucros e dividendos também explicam boa parte do aumento; mas, neste caso, os economistas notam que a contribuição foi praticamente equivalente à queda da renda do trabalho. Isso sugere que muitos profissionais liberais que estão nessa faixa de renda podem ter aderido à pejotização como forma de recolher menos Imposto de Renda e, assim, obtiveram ganho de renda, ainda que inferior ao cume da pirâmide. Os dividendos são atualmente isentos de IR. O projeto de lei que propõe isentar o imposto de quem ganha até R$ 5 mil prevê a tributação dessa fonte, desde que o contribuinte não tenha recolhido o IR mínimo para a sua faixa de renda. O chamado "Imposto de Renda Mínimo" deve alcançar 144 mil contribuintes com renda acima de R$ 50 mil mensais e que recolhem menos IR porque têm acesso a isenções, como a dos dividendos, para escapar da tributação. O projeto prevê uma tributação adicional gradual que chega a 10% para quem ganha R$ 100 mil por mês ou mais.

O ganho aumentou nas rendas altas, o que redobra a importância de se mudar o tratamento tributário conferido a lucros e dividendos, o que torna mais latente a premência de uma reforma que altere isso. Mas como os ganhos com lucros e dividendos podem ter contribuído para um crescimento maior da renda no topo da pirâmide sem que o PIB tenha crescido na mesma proporção? A hipótese dos pesquisadores é que os ganhos podem ter aumentado com preços mais altos de commodities (como as agrícolas), após a pandemia, que ampliam a renda dos mais ricos, mas não necessariamente a quantidade produzida e o PIB. Isso pode ajudar a explicar como a renda se concentrou mais em Estados da Região Centro-Oeste no período analisado. Em Mato Grosso, de 2017 a 2023, a renda concentrada no 1% mais rico subiu de 20% para 30%, superando até a média nacional (24,3%). Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.