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13/Aug/2025

Entrevista: Mansueto Almeida – economista BTG

O economista-chefe do BTG Pactual, Mansueto Almeida, diz que o tarifaço de Donald Trump, a curto prazo, pode ajudar a reduzir a inflação no Brasil por conta do aumento da oferta de produtos. Já sobre o crescimento econômico, o efeito é limitado. Empresas como a Embraer poderiam ser severamente afetadas, mas foram poupadas, ao serem excluídas da taxação adicional de 40% sobre produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos. Provavelmente, essa lista de exceções vai aumentar. Segue a entrevista:

Qual o efeito do tarifaço de Trump no Brasil? Ajuda a reduzir a inflação?

Mansueto Almeida: No curto prazo, sim, porque há uma oferta maior de produtos aqui. No crescimento, pela modelagem que quase todo mundo fez, colocar uma tarifa em 50% resulta, em 12 meses, numa queda de 0,2 a 0,4 ponto porcentual, portanto, muito pequena. Se os 50% fossem aplicados na sua totalidade, em vez de crescer 2,1%, o PIB cresceria 2% ou 1,9%. Já vimos que quase metade da pauta ficou de fora, o que diminui ainda mais o impacto. Se for crescer menos, vai até ajudar o Banco Central. O efeito é mais na inflação do que no crescimento, mas também não diminui muito a inflação, não.

O impacto ocorre mais em alguns setores, certo?

Mansueto Almeida: Sim. É brutal para algumas empresas. Para a Embraer, era brutal, porque a empresa produz aviões nos Estados Unidos, mas só jatos executivos. Jatos comerciais, que são grande parte das vendas e cujos compradores são companhias norte-americanas, são produzidos no Brasil. Ao final, deixaram a Embraer de fora, como eu previa. Excluíram alguns itens muito importantes para os EUA. E eu achava que fariam isso. Se não, seria um tiro no pé deles.

Quais itens da lista de exceções ao tarifaço o sr. Destacaria?

Mansueto Almeida: Os EUA são o país que mais investe em inteligência artificial. Em decorrência disso, investem muito em energia e em data centers. Para investir em data centers, precisam comprar transformadores de alta potência de energia. E eles compram esses transformadores da União Europeia e do Brasil, mais baratos do que nos próprios EUA. No Brasil, há fábricas de transformadores de alta potência, com 100% da produção que vai para os EUA. Hoje, para comprar um transformador de alta potência nos EUA, a espera é de quatro anos. Se eles aumentassem a tarifa de importação para 50%, atrapalhariam o investimento em data centers ligados à inteligência artificial. Por isso, ficaram de fora, como também ficou de fora o suco de laranja consumido no café da manhã. Provavelmente, essa lista de exceções vai aumentar.

O sr. vê melhora, então?

Mansueto Almeida: Trump estendeu o prazo de negociação com a China, com o México... no Brasil, esperávamos tarifas de 50%, mas quase 45% da pauta ficou de fora. De repente chegamos a um meio-termo. Mas vamos sair de tudo isso com algumas coisas muito claras: primeiro, o mundo daqui para frente terá juro maior. Segundo, preços mais altos. Haverá mais fricção no comércio, mais dificuldades do que antes da pandemia, por todo esse movimento protecionista, porque mesmo com esses acordos, que retiram risco, é tarifa de 15%. Antes da pandemia, a tarifa média nos EUA era de 2%, 2,5%. Agora vai para 17%. É alto. Diria que nossos maiores problemas são internos. Se houvesse perspectiva de melhora fiscal, inflação e juros estariam mais baixos e o Brasil, melhor. Trump atrapalha, mas nosso maior problema é resolver o fiscal.

O Banco Central manteve a Selic em 15%, mas manteve as projeções de inflação. Não é um contrassenso?

Mansueto Almeida: Tem uma coisa que temos de estudar muito no Brasil. Infelizmente, e diferente de outros países, para trazer a inflação para baixo precisamos de um juro real muito maior. Neste ano, com as cotações esperadas, estamos falando de um juro real de 10%. Diante dessa taxa, em qualquer outro lugar do mundo, poderíamos falar que haveria uma recessão. Mas não é o caso do Brasil. Vamos crescer na casa de 2%. Para os economistas, o menor crescimento este ano é 1,9%.

Parte disso veio do primeiro trimestre, da agricultura forte, mas a economia vai crescer, mesmo com juro alto?

Mansueto Almeida: A economia vai crescer, o consumo vai crescer. E embora os últimos números do BC tenham mostrado um aumento da inadimplência e uma desaceleração do crédito, ele ainda está crescendo e numa situação de mercado de trabalho muito bom.

Fonte: Broadcast Agro.