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08/Aug/2025

Nobel de economia critica política comercial dos EUA

O economista Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, disse nesta quinta-feira (07/08), que o presidente norte-americano Donald Trump tem “delirado” ao falar sobre os acordos comerciais que tem fechado e sobre os impactos das tarifas comerciais que tem imposto a todo o mundo. Em entrevista à rede de TV CNBC na terça-feira (06/08), lembra Krugman, em um artigo publicado no Substack, Trump explicou o porquê de a União Europeia estar enfrentando uma tarifa de “apenas” 15%. Segundo ele, os europeus concordaram em desembolsar US$ 600 bilhões, que descreveu como um “presente”, não um empréstimo. E enfatizou: “US$ 600 bilhões para investir no que eu quiser. Qualquer coisa. Eu posso fazer o que eu quiser com isso.” “Portanto, Trump aparentemente acredita que a União Europeia concordou em fornecer-lhe um fundo de caixa de US$ 600 bilhões”, disse Krugman. “Na verdade, como eu apontei depois que o ‘acordo’ foi anunciado, a UE não concordou com tal coisa. De fato, literalmente não poderia ter feito tal acordo.

As nações europeias não são economias comandadas onde o governo pode dizer ao setor privado onde investir, e de qualquer forma a Comissão Europeia, que negociou com Trump, não pode dizer aos governos dos Estados membros o que fazer.” Para o economista, pode-se pensar nisso como o “novo acordo comercial do imperador” (uma referência ao conto infantil A Roupa Nova do Rei): “Trump está desfilando por aí, sentindo-se muito impressionado consigo mesmo, mas em termos reais ele está completamente nu”. Segundo Krugman, há muitos comentários dizendo que isso não importa, que se trata apenas de mais uma “fantasia autoengrandecedora trumpiana”, na mesma linha de que a inflação nos Estados Unidos é zero, de que sua taxa de aprovação é de 71% e de que “as pessoas amam as tarifas”. Mas, para o economista, os norte-americanos não podem ficar tranquilos com os delírios comerciais de Trump apenas pelo fato de que ele “perdeu completamente o contato com a realidade”. “O que acontecerá se e quando Trump perceber que a Europa não prometeu realmente o que ele pensa que prometeu, ou, como ele provavelmente verá, que a União Europeia voltou atrás em sua promessa?

Ele já nos deu uma resposta: vai colocar a tarifa sobre a Europa de volta para 35%”, disse o economista. “Ele pode não ser capaz de cumprir essa ameaça. De fato, há uma possibilidade muito real de que os tribunais considerem muitas das tarifas que Trump já impôs ilegais (o que certamente são) e ordenem à administração que devolva o dinheiro que já coletou”, escreveu. “Mas suponha que a Suprema Corte faça o que habitualmente tem feito e decida que a Constituição permite que Trump faça o que ele quiser. Quão temerosa a Europa deveria estar da possibilidade de Trump colocar as tarifas de volta, mais altas do que antes?” Krugman disse que tem tentado fazer essas contas. “E, pelo que posso dizer, aumentar as tarifas dos Estados Unidos de 15% para 35% faria menos dano à Europa do que muitos imaginam. Sim, isso machucaria, mas não tanto. Ao fazer de uma tarifa de 15% a base, o que os países pagam mesmo que façam ‘acordos’, Trump usou muito de sua munição de guerra comercial, reduzindo bastante a eficácia de quaisquer ameaças futuras.”

Ele lembra que, no final das contas, a Europa nunca foi tão dependente do acesso aos mercados dos Estados Unidos. “Em 2024, as exportações de bens da União Europeia para os Estados Unidos foram ligeiramente inferiores a 3% de seu PIB, não uma soma trivial, mas também não o suficiente para fazer a prosperidade europeia depender da boa vontade dos Estados Unidos.” As tarifas de Trump, disse, farão a União Europeia ainda menos dependente do mercado dos Estados Unidos. Segundo ele, o número crucial é a “Elasticidade de Armington”, que mede quão sensíveis são os fluxos comerciais às tarifas, e uma estimativa razoável dessa elasticidade é 3. “Se formos com esse número, esperaríamos que a tarifa de 15% atualmente em vigor cortasse as exportações da União Europeia para a América em cerca de um terço, para cerca de 2% do PIB”, escreveu. “Isso é um golpe palpável, mas não enorme. Escrevendo no Financial Times, Richard Milne nos diz que relatórios de empresas europeias estão mostrando resiliência surpreendente. Além disso, a perda de negócios dos Estados Unidos será parcialmente compensada por maiores gastos do governo na Europa, com a Alemanha, em particular, aumentando gastos tanto em infraestrutura quanto em defesa.”

Isso, segundo ele, se dá com uma tarifa de 15%. “Mas o que acontece se Trump elevar as tarifas para 35%? Meus cálculos de padeiro dizem que isso reduziria as exportações da Europa para os Estados Unidos em mais 0,7% do PIB. Ou seja, o golpe na Europa se Trump cumprir suas ameaças seria menor do que o golpe que ele já impôs com as tarifas que planeja manter em vigor, independentemente”, disse. “Quanto maiores as tarifas que Trump impõe sobre as importações, menos os outros países vendem para a América”, escreveu. “E quanto menos eles vendem para nós, menos eles têm a perder se empurrarmos as tarifas ainda mais para cima.” E esse argumento, disse, nem leva em conta a forte possibilidade de que outra rodada de tarifas de Trump provoque retaliação da Europa e de outros parceiros comerciais. “A União Europeia até agora optou por não retaliar contra as tarifas de Trump porque seus oficiais decidiram que fazer um acordo, ou pelo menos parecer fazer um acordo, era melhor do que entrar em uma guerra comercial de olho por olho, dente por dente.

Mas, se chegar ao ponto em que Trump vê um acordo não como o fim da história, mas simplesmente como o ponto de partida para novas demandas, suspeito que até os burocratas tímidos em Bruxelas eventualmente decidirão que chega é chega.” “Sempre houve um traço de megalomania na política tarifária de Trump, uma crença de que ele pode usar a ameaça de tarifas para forçar outros países a fazer sua vontade em várias frentes, desde prometer não se afastar do dólar como moeda de reserva até abandonar a perseguição a aspirantes a ditador que tentaram derrubar a democracia”, escreveu, em clara referência ao processo do Supremo Tribunal Federal brasileiro contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. “No entanto, ao fazer das tarifas de 15% o novo normal, mantendo tarifas altas mesmo quando os países fazem, ou fingem fazer, concessões aos Estados Unidos, Trump usou grande parte de qualquer munição comercial que ele tinha”, escreveu. “Trump será a última pessoa a reconhecer que há limites para sua capacidade de intimidar o mundo, seja no comércio ou em qualquer outra coisa. E essa falta de consciência deveria nos preocupar a todos.” Fonte: Broadcast Agro.