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07/Aug/2025

EUA vira “república das bananas” sob Donald Trump

"Quando os fatos mudam, eu mudo de opinião." A frase atribuída a John Maynard Keynes resume o que se espera de estadistas maduros: coragem para adaptar decisões à realidade, e não falsear a realidade ao sabor das decisões. Donald Trump, ao contrário, tem se especializado em "mudar" os fatos, e punir quem os revela. A mais recente vítima do presidente americano é Erika McEntarfer, comissária do Departamento de Estatísticas do Trabalho (BLS), demitida após a divulgação de números de emprego desfavoráveis ao governo. A justificativa? Os dados estariam manipulados para prejudicar os republicanos. Provas? Nenhuma. A metáfora da "república das bananas", cunhada para descrever Estados nanicos, instáveis, personalistas e propensos à corrupção e à demagogia, hoje se aplica com inquietante pertinência aos Estados Unidos governados por um presidente que tenta “matar o mensageiro” sempre que a mensagem contraria seu discurso.

Desde que reassumiu o poder, Trump intensificou pressões sobre o Fed, o banco central norte-americano, alimentou teorias conspiratórias contra estatísticas oficiais, desmontou órgãos de controle e transformou perfis oficiais nas redes em palanques. Tudo isso num ambiente econômico marcado por tarifas erráticas, inflação instável e crescimento anêmico. Um governante sensato reconheceria os alertas. Trump opta por quebrar a balança, ou virar o tabuleiro, como uma criança contrariada. A credibilidade das estatísticas oficiais é um pilar da confiança dos mercados e da formulação de políticas públicas racionais. Sem dados confiáveis, empresas congelam investimentos, o banco central hesita, investidores fogem, servidores trabalham de olhos vendados. Um país que mente sobre si mesmo perde sua bússola, e o respeito dos outros. Não é um risco teórico. A Argentina, sob os Kirchners, fraudou sistematicamente os índices de inflação, implodindo a credibilidade internacional e incitando ações legais de credores.

A Venezuela chavista destruiu sua estatística oficial e mergulhou num colapso econômico. A China enfrenta ceticismo crônico. A Grécia pagou caro por ocultar déficits, com uma década de crise e tutelas externas. A História mostra que falsear números não resolve problemas. Só os agrava. O Brasil conhece bem essas manobras diversionistas. Nos governos petistas, houve fraude fiscal nas chamadas "pedaladas", manipulação da meta de superávit e tentativas de escamotear o déficit. No governo Bolsonaro, o negacionismo se traduziu na tentativa de ocultar dados da pandemia e desacreditar e constranger órgãos técnicos, como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Em todos os casos, o resultado foi o mesmo: erosão da confiança, judicialização, fuga de capitais. O governo Biden também tentou minimizar a inflação recorde de 2022, subestimou os efeitos de pacotes de gastos e lançou mão de eufemismos contábeis. Mas no caso de Trump, a hostilidade à verdade, mais do que sinal de desespero, é um método. O ataque ao BLS ecoa seus assaltos ao sistema eleitoral, à imprensa livre, à Justiça e ao Capitólio.

Trata-se de um padrão autoritário: rejeitar qualquer realidade que não sirva à sua causa e destruir instituições que resistam. Nos próximos meses, Trump poderá nomear um novo presidente do Fed mais "leal" à sua agenda. Se também subjugar a máquina estatística federal, as fronteiras entre propaganda e verdade estarão irremediavelmente borradas. O país que já foi o modelo do capitalismo democrático corre o risco de se parecer mais com os regimes que jura combater. É fácil destruir a confiança. É muito difícil restaurá-la. Gestores públicos, empresários e cidadãos precisam confiar que a régua não será alterada conforme o humor do presidente. Trump gosta de repetir que “a América voltou a ser grande”. Mas grandeza não se mede em bravatas. Mede-se em instituições sólidas e respeito à verdade. Os Estados Unidos de Trump, hoje, se parecem mais com uma caricatura tropical: um governante que não admite más notícias, demite técnicos, agride árbitros e transforma o governo num reality show pessoal. Esse é o retrato de uma república bananeira. E ela fala inglês. Fonte: Broadcast Agro.