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04/Aug/2025

Tarifaço: entrevista com Marcela Rocha - Asset

Apesar da alíquota tarifária de 50% aplicada pelo presidente norte-americano, Donald Trump, sobre importações brasileiras, o País não deve se afastar dos Estados Unidos e deve manter a busca pelo diálogo, avalia a economista-chefe da Principal Asset Management no Brasil, Marcela Rocha. O Brasil pode buscar uma menor dependência dos norte-americanos no longo prazo. Diante da dificuldade de negociar com os Estados Unidos, o Brasil perde vantagem na comparação com outros países latino-americanos, como o México. O Chile, mesmo sofrendo o impacto da tarifa de 50% sobre o cobre, não deve ser tão prejudicado num primeiro momento. O Japão, que fechou acordo com os Estados Unidos, ganha continuidade de concorrência, mas não mercado. Segue a entrevista.

Nas últimas semanas, vimos desdobramentos importantes na política comercial norte-americana, com o anúncio de alguns acordos. Donald Trump pode estar "amarelando"?

Marcela Rocha: Tínhamos a desconfiança de que Trump iria "amarelar" e talvez a questão das tarifas ficassem em segundo plano ou fossem "riscos passados" para os mercados. O que nós vimos foi que as tarifas continuam sendo uma ferramenta muito importante para o governo dele, e elas voltaram no momento em que a economia norte-americana apresenta resiliência, o que dá ao republicano conforto e confiança para aplicá-las em patamares altos.

A negociação com o parceiro Japão, por exemplo, é positiva ou negativa?

Marcela Rocha: O acordo com o Japão foi bom e veio em um momento muito importante, por conta da situação do primeiro-ministro, Shigeru Ishiba. O Japão terá que fazer concessões e ainda há questões incertas, mas o acordo tirou um risco de curto prazo grande de afetar negativamente a atividade, mantemos uma visão otimista para os ativos de risco japoneses. Um novo aumento nas taxas de juros pelo Banco do Japão (BoJ) havia sido adiado por conta de incertezas tarifárias, mas com o acordo anunciado, podemos voltar a ver uma discussão mais quente no BoJ sobre novas altas.

E o Japão "ganha mercado" por ter uma alíquota tarifária menor que a da China por enquanto?

Marcela Rocha: Não. Na verdade, podemos ver o Japão conseguindo ter uma "continuidade de concorrência". Os japoneses exportam muitos automóveis para os EUA, e são carros que não são elétricos.

O acordo com a União Europeia (UE) dividiu opiniões entre os líderes do bloco. Trump "venceu" com essa negociação?

Marcela Rocha: É mais complicado ter um consenso na UE porque os interesses e a dinâmica econômica dos países são diferentes. Isso só ressalta como é um desafio ter a união entre países tão distintos e, muitas vezes, com interesses diferentes. O desfecho do acordo foi menos negativo do que o temido, o que nesse contexto de incerteza já é algo mais construtivo, e mostrou disposição para negociar por parte dos EUA. No entanto, a UE ainda pode se sair muito prejudicada com essa alíquota de 15% por ser uma economia que é dependente de exportações, o que pode refletir em um impacto econômico maior.

A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, ressaltou que uma resolução para a política comercial reduziria as incertezas. Diante do acordo, quais devem ser os próximos passos do BCE?

Marcela Rocha: Costumamos a dizer que é melhor um cenário ruim do que um cenário incerto. Acredito que o ponto da Lagarde seja esse, o que concordamos. Por mais que a tarifa de 15% possa ser negativa para o crescimento da zona do euro, ajuda a reduzir incertezas, recalcular investimentos e até mesmo a política monetária se embasar. Ao longo dos próximos meses, acreditamos que o BCE será surpreendido com números de crescimento um pouco abaixo do esperado e terá espaço para fazer um corte adicional nos juros.

Em relação ao Brasil, a tarifa de 50% é uma "oportunidade" de o País deixar a postura pendular em relação aos EUA e China e se aproximar mais da potência asiática?

Marcela Rocha: A carta de Trump mostrou que o Brasil se tornou um alvo por fatores não econômicos, o que traz muita dificuldade na negociação. Nos parece que há uma boa vontade do governo brasileiro em buscar diálogo com os EUA, mas a boa vontade ainda não encontra uma proposta concreta ou um caminho claro sobre com quem negociar. No entanto, não é momento do governo brasileiro se distanciar dos EUA, não é prudente para o Brasil agora se voltar contra os norte-americanos. No longo prazo, o País pode buscar uma menor dependência, mas agora não seria um bom sinal para as negociações.

Na Espanha, o primeiro-ministro, Pedro Sánchez, citou a importância de fechar acordo com o Mercosul e, na China, demonstraram apoio ao Brasil. Acordos com outros blocos e países podem reduzir o impacto das tarifas dos EUA?

Marcela Rocha: No longo prazo, o Brasil mostra a urgência de construir esses acordos comerciais com outros países, mas ainda é muito cedo para concluir se teríamos um balanço positivo, as condições são de muita incerteza. A qualquer sinal do Brasil agora de querer distanciamento dos norte-americanos ou menosprezar a importância deles para o nosso comércio, podemos ter uma escalada dessa guerra comercial. Mas, depois, além de buscar novos acordos, o País deve privilegiar setores que dependem das exportações para os EUA.

A tarifa para o Brasil coloca o País em uma posição de desvantagem na comparação com outros países da América Latina?

Marcela Rocha: Dos países, o Brasil é o que está com a tarifa mais alta, então passa a ser o foco de preocupação, e possui um setor que não tem tanta facilidade assim de redirecionar exportações, que é a indústria manufatureira. Não é só o agro que está sendo atingido. E, o mais importante: na América Latina, o Brasil acaba com um prejuízo maior. O México também foi alvo de tarifas por Trump, mas a situação dos mexicanos é mais confortável. Eles parecem construir diálogo com os EUA, algo que o Brasil não conseguiu.

A economia do Chile é dependente de exportações de cobre, que também terá uma alíquota de 50%. Qual será o impacto?

Marcela Rocha: Sabemos que as exportações de cobre do Chile para os EUA são muito importantes, só que os EUA não são o principal comprador do metal chileno. O principal é a China e, na sequência, o Japão. Quando pensamos em impacto para o Produto Interno Bruto (PIB), não seria tão relevante, em um primeiro momento. Por outro lado, a dependência da economia do Chile da produção de cobre tem levado a investimentos de longo prazo que poderiam ser travados, reavaliados e até mesmo cancelados, afetando a questão a respeito da confiança e da credibilidade na economia do Chile.

Sobre o Federal Reserve (Fed), o que devemos esperar em relação à presidência e aos juros?

Marcela Rocha: Apesar de todo o ruído e críticas do Trump, ainda vemos o Fed atuando de maneira independente. Acreditamos que Trump não irá levar a fundo essas ameaças, não há benefícios de ele causar uma crise institucional tamanha, sendo que o presidente do Fed, Jerome Powell, deixa o cargo no ano que vem. Esperamos que o primeiro corte dos juros ocorra em dezembro e, no ano que vem, outros dois cortes nos juros. Ou seja, uma redução muito gradual.

Fonte: Broadcast Agro.