18/Jun/2025
Embora a COP30 seja realizada em Belém do Pará em novembro próximo, não será uma COP da floresta ou da Amazônia; nem será uma COP do Brasil, e muito menos do agronegócio brasileiro. Será mais uma COP do clima, voltada a temas que buscam encontrar os caminhos que impeçam o aumento do aquecimento global e garantam as condições ideais para o desenvolvimento da humanidade. Mas nem por isso o setor rural brasileiro deixará de aproveitar essa oportunidade única de mostrar as características de seu notável desenvolvimento sustentável dos últimos 50 anos, baseado em tecnologia e inovação, no empreendedorismo do produtor rural, em algumas políticas públicas adequadas, na disponibilidade de terras e no crescimento do mercado internacional de alimentos, energia e fibras. Empenhado em combater os quatro modernos cavaleiros do Apocalipse - insegurança alimentar, transição energética, mudanças climáticas e desigualdade social - o agro brasileiro pretende mostrar o que fez, como fez e, principalmente, que suas conquistas podem ser replicadas em todo o mundo tropical para o benefício de toda população do planeta. Com esse objetivo, a FGV Agro preparou o texto abaixo, mapeando os temas prioritários levantados pelas entidades e técnicos do setor, a serem devidamente detalhados para apresentação na COP.
1 - Financiamento climático
O Brasil defende a ampliação da NCQG (Nova Meta Coletiva e Quantificada), superando os US$ 100 bi/ano, com foco em mitigação, adaptação e perdas e danos. Busca garantir acesso direto de cooperativas e pequenos produtores a recursos de fundos globais (GCF, GEF), superar barreiras burocráticas e articular políticas públicas nacionais para viabilizar financiamentos acessíveis no campo. A COP30 é oportunidade para canalizar recursos à agricultura tropical e alinhar instrumentos como PSA, seguros climáticos e títulos verdes.
2. Mitigação de Emissões Agropecuárias
O agro brasileiro quer mostrar sua liderança na adoção de práticas/tecnologias sustentáveis, como sistemas de produção integrados (ex. ILPF), recuperação de pastagens, bioenergia, uso de bioinsumos e agricultura digital. O Plano ABC+ é um pilar e há potencial para explorar alianças internacionais que tenham foco na promoção de temas como em pecuária sustentável, metano e carbono do solo. Desafios incluem custos, lacunas de assistência técnica, métricas globais pouco adaptadas aos trópicos e resistência produtiva. O setor propõe MRV robusto e metas setoriais mensuráveis.
3. Adaptação e Resiliência no Campo
A agenda busca avançar no Plano Nacional de Adaptação Agropecuária, com metas para ampliação da área irrigada, seguro rural, cultivares resilientes e promoção da assistência técnica qualificada. A inclusão nos debates do Objetivo Global de Adaptação (GGA) e o acesso ao Fundo de Perdas e Danos são chaves. O foco é integrar agricultura digital, bioinsumos adaptativos e serviços ecossistêmicos como mecanismos para reduzir/mitigar vulnerabilidades.
4. Comércio Internacional e Barreiras Ambientais
O Brasil defende regras comerciais justas, baseadas em ciência, combatendo o protecionismo verde. Busca reconhecimento internacional do CAR, do Código Florestal e de sistemas de rastreabilidade. Quer liderar frentes tropicais contra barreiras injustas (EUDR, CBAM), propor parcerias para certificações, harmonizar metodologias globais e antecipar riscos setoriais. A narrativa é: do vilão ambiental ao parceiro confiável.
5. Mercados de Carbono e Instrumentos Financeiros
O setor defende a implantação do SBCE (Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões), alinhado ao Artigo 6 do Acordo de Paris. O Brasil pode ser líder global em créditos tropicais de alta integridade, combinando soluções baseadas na natureza e tecnologias agropecuárias. Desafios incluem adicionalidade, rastreabilidade, inclusão de pequenos e integração com PSA, CBios e CRA. Propõe-se criação de registros públicos, centros de referência, programas jurisdicionais e soluções digitais (MRV automatizado).
6. Inclusão Social e Transição Energética Justa
A transição energética e climática precisa ser justa, garantindo acesso equitativo a financiamento, tecnologia e mercados. Nosso grande diferencial está na bioenergia, com toda a experiência na produção de biocombustíveis (etanol de cana e de milho, biodiesel de soja, de sebo bovino, de óleo de palma, biometano, cogeração de eletricidade, lenha vegetal, etc), que permitiu ao Brasil uma matriz energética 50% renovável, e com muito menor emissão de GEE do que os derivados de petróleo. É prioritário incluir agricultura familiar, fortalecendo cooperativas, criação de empregos verdes e fundos comunitários.
7. Reconhecimento Internacional das Iniciativas Brasileiras
O agro brasileiro busca garantir que programas nacionais voltados à agricultura sustentável - como RenovaBio, o Plano ABC+, o Código Florestal, o CAR e o CRA e a bioenergia- sejam reconhecidas como instrumentos válidos para o cumprimento de metas climáticas, por representarem serviços ambientais com impacto global. Mais do que o reconhecimento formal dos programas, a intenção é assegurar que essas ações sejam consideradas nos marcos internacionais, como a UNFCCC, especialmente no contexto do cumprimento da meta nacional. Nesse sentido, o setor propõe a criação de um selo climático brasileiro, visando seu reconhecimento em textos oficiais da UNFCCC e a projeção de uma imagem unificada de sua contribuição climática. A estratégia inclui a realização de eventos paralelos, campanhas internacionais e a defesa do uso de métricas adaptadas à realidade tropical.
O agro brasileiro está pronto para participar da COP30 com propostas concretas, compromissos mensuráveis e ambição climática. O foco é alinhar produtividade, sustentabilidade, inclusão social e competitividade internacional, mostrando que é possível transformar o campo em um pilar da transição verde global. Fonte: Roberto Rodrigues. Broadcast Agro.