18/Jun/2025
Em meio ao recrudescimento do conflito entre Israel e Irã, os potenciais impactos econômicos e reflexos sobre o fluxo comercial brasileiro entraram no radar do governo. Mas, a palavra de ordem nos bastidores é cautela. Os esforços hoje estão concentrados na retirada de brasileiros e autoridades dos países, ao mesmo tempo que as implicações comerciais que o confronto acarreta ao País já são uma preocupação para o governo. No início dos bombardeios entre os países na sexta-feira (13/06), o Itamaraty condenou a ofensiva aérea israelense sobre o Irã e já citou riscos para a economia mundial. "Os ataques ameaçam mergulhar toda a região em conflito de ampla dimensão, com elevado risco para a paz, a segurança e a economia mundial.
O Brasil insta todas as partes envolvidas ao exercício da máxima contenção e exorta ao fim imediato das hostilidades", afirmou o Ministério das Relações Exteriores (MRE). No âmbito doméstico, autoridades avaliam que ainda é cedo para mensurar efeitos comerciais, mas já há uma análise de que poderá haver impactos no fluxo comercial de produtos, em especial agropecuários, que são o forte da balança doméstica. Interlocutores afirmam que será preciso esperar eventuais alterações em rotas marítimas, assim como as estruturas logísticas, caso dos portos, serão afetadas. Além disso, em virtude dos embargos financeiros e econômicos ao Irã, há redirecionamento de parte de produtos agropecuários via outros países a Teerã.
Há exportação de volumes expressivos via Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Turquia. A balança comercial entre os países é considerada complementar. O Brasil exporta sobretudo soja e milho ao Irã e importa fertilizantes, em especial ureia. De janeiro a maio deste ano, as exportações de produtos agropecuários brasileiros ao Irã alcançaram US$ 1,036 bilhão em receita, de acordo com dados do Agrostat (sistema de estatísticas de comércio exterior do agronegócio brasileiro). A pauta exportadora é concentrada em cereais (US$ 508,165 milhões), complexo soja (US$ 466,394 milhões), carne de frango (US$ 153,240 mil) e fumo (US$ 148,539 mil). As importações de produtos agropecuários iranianos pelo Brasil somaram US$ 4,615 milhões no período, em especial de frutas, nozes e castanhas.
Em contrapartida, de fertilizantes iranianos o Brasil importou 61,046 mil toneladas de adubos nitrogenados de janeiro a maio deste ano, com o desembolso de US$ 20,481 milhões, conforme os dados do Comextat, serviço de estatísticas de comércio exterior do Brasil. Uma das principais preocupações do Executivo são as eventuais consequências sobre a inflação de alimentos decorrente do aumento do custo de produção e da valorização de commodities agrícolas, como ocorreu no início da guerra entre Rússia e Ucrânia em 2022. A semelhança advém do fato de que, assim como com a Rússia, o Brasil é dependente de importações de ureia do Irã, utilizada para adubação de lavouras. Os preços dos fertilizantes nitrogenados já avançaram tanto no mercado internacional quanto nos valores praticados nos volumes internalizados pelo País. Não apenas as nações importadoras podem diminuir as compras, como também as vizinhas.
De novo com cautela, o quadro geopolítico no Oriente Médio vem sendo estudado de perto pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o Ministério de Relações Exteriores (MRE) e o Ministério da Agricultura e vários cenários alternativos de escoamento de produtos para a região estão sendo analisados para tentar minimizar ao máximo o impacto desse conflito. Por enquanto, trata-se de um duelo, mas o Brasil precisa estar preparado para o caso de uma escalada. Principalmente num momento em que o País vem fechando várias parcerias comerciais naquela parte do globo. Em especial, o Brasil vem ampliando as exportações na área agropecuária para Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos (EAU) e não tem a intenção de perder esse novo canal de vendas mais sólido, num momento que tenta aumentar a diversificação de produtos e destinos. A carne bovina é o item mais importante da pauta para a região e parte das remessas utiliza exatamente esses países como uma forma de entreposto para o Irã.
Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), a escalada do conflito entre Israel e Irã adicionou mais incertezas e riscos ao cenário político e mundial já conturbado. O conflito se soma aos ruídos levantados pelo tarifaço anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O acordo assinado entre os Estados Unidos e a China em 10 de junho não afasta as incertezas sobre os rumos do comércio mundial associadas ao governo Trump, e deixa claro que as tarifas são usadas pelo atual governo norte-americano como instrumento de barganha para alcançar outros objetivos. A China é um dos poucos países com poder de barganha face às demandas dos Estados Unidos. No caso do Brasil em relação ao tarifaço de Trump, um cenário não desejável é a manutenção da tarifa de 10% sobre as importações brasileiras e de 50% sobre produtos da siderurgia e de alumínio.
Nesse último caso, uma reversão irá depender não só de negociações que o Brasil possa fazer, mas também pressões da indústria norte-americana que usa produtos siderúrgicos fabricados no Brasil e com oferta insuficiente no mercado dos Estados Unidos. O pior cenário seria se Donald Trump resolver usar as tarifas para obter vantagens em outras áreas, como exploração de minerais estratégicos e terras raras ou pressionar o governo brasileiro em relação a investimentos e/ou importações chinesas. A balança comercial brasileira registrou um superávit de US$ 7,2 bilhões em maio, resultado US$ 1,1 bilhão menor que o registrado em maio de 2024. No acumulado de janeiro a maio, o superávit alcançou US$ 24,4 bilhões em 2025, ante US$ 35,2 bilhões no mesmo período de 2024.
A piora no saldo acumulado é explicada por um aumento das importações. No acumulado de janeiro até maio, as importações somaram US$ 112,5 bilhões, enquanto as exportações totalizaram US$ 136,9 bilhões. A queda no superávit acumulado entre janeiro e maio de 2025 ante o mesmo período de 2024 foi puxada pela redução no saldo comercial com a China, que passou de um superávit de US$ 18,6 bilhões em 2024 para US$ 8,3 bilhões em 2025. Houve também contribuição do aumento do déficit do Brasil no comércio com os Estados Unidos, que saiu de US$ 226 milhões em 2024 para US$ 1,04 bilhão em 2025. A Argentina contribuiu positivamente para o superávit brasileiro, passando de um déficit para superávit. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.