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22/Jan/2025

Brasil deve ser pragmático na relação com os EUA

O cenário de incertezas globais prenunciado pelo segundo mandato de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos impõe desafios a todo o mundo. Mas, para o bem ou para o mal, a América Latina não está entre suas prioridades geopolíticas. Suas políticas econômicas criam riscos aos emergentes em geral. Para o Brasil, em particular, não será diferente, mas o impacto tende a ser comparativamente moderado e pode até vir acompanhado de oportunidades. O maior desafio é doméstico: evitar que vulnerabilidades econômicas e voluntarismos políticos potencializem esses riscos e desperdicem essas oportunidades. A guerra comercial com a China e as políticas protecionistas devem desacelerar a globalização comercial.

Mas, os Estados Unidos já exportam para o Brasil mais do que importam, e o maior dano que Donald Trump poderia causar ao País já aconteceu em seu primeiro mandato, com as taxas de importação sobre produtos siderúrgicos. À época, as disputas com a China levaram a um aumento das exportações do Brasil, em especial do agronegócio, o que deve acontecer novamente. Os impactos de políticas protecionistas mais agressivas sobre tradicionais parceiros dos Estados Unidos, como Canadá, México e Europa também podem favorecer colateralmente negociações com o Mercosul e o Brasil. O País pode inclusive ser uma alternativa de investimentos para empresas norte-americanas.

Esse cenário só reforça a necessidade de uma agenda de modernização econômica, como a diversificação de exportações, melhorias no ambiente de negócios e na governança pública, redução do “custo Brasil”, mais incentivo à participação de investimentos privados e, sobretudo, equilíbrio fiscal. A perspectiva global de um dólar forte, juros altos e pressões inflacionárias impõe adversidades a todo o mundo, mas o desequilíbrio fiscal no Brasil imporá custos especialmente altos sobre a política monetária e o apetite dos investidores. O Brasil receberá a Cúpula do Clima da ONU em 2025. Com Donald Trump, a desidratação da agenda multilateral climática já está contratada, mas isso não reverterá a trajetória mundial rumo à transição energética, e o Brasil possui minerais críticos que interessam a todo o mundo, inclusive a empresas norte-americanas.

Outra zona de potencial atrito em 2025 é a presidência do Brasil no Brics. Como se sabe, China e Rússia manobram para transformar o bloco de um grupo de grandes emergentes em um clube autocrático antiocidental. O governo Trump pode ser um pretexto conveniente para o Brasil jogar água na fervura e voltar a focar em questões econômicas, aproximando-se de outros países que buscam uma política de não alinhamento, como Índia ou Arábia Saudita. É também uma oportunidade para ampliar a distância das autocracias latino-americanas. Tudo isso exigirá doses extras de sangue-frio e pragmatismo por parte do Planalto. Assim como as afinidades pessoais e ideológicas com Jair Bolsonaro não trouxeram grandes vantagens ao Brasil no primeiro mandato de Donald Trump, as antipatias mútuas entre ele e o presidente Lula não precisam acarretar maiores prejuízos. Lula já derrapou antes das eleições, anunciando sua preferência pela democrata Kamala Harris e associando um governo Trump à volta do “fascismo”.

Espera-se que esse estoque de gafes e provocações irresponsáveis já tenha sido queimado. “Da nossa parte, não queremos briga nem com a Venezuela, nem com os americanos, nem com a China, nem com a Índia, nem com a Rússia. Nós queremos paz, harmonia, ter uma relação em que a diplomacia seja a coisa mais importante e não a desavença”, afirmou o presidente Lula no dia da posse de Donald Trump, afirmando que torce para que o republicano faça uma “gestão profícua, para que o povo americano melhore”. Do mesmo modo, o povo brasileiro espera uma diplomacia profícua. O Itamaraty tem quadros competentes e profissionais. Bem fará o presidente se deixar que eles lubrifiquem o mecanismo institucional e diplomático com os Estados Unidos, e se concentre em sanar as vulnerabilidades econômicas internas que podem dificultar a navegação do Brasil no mar revolto à frente. Com exportações de US$ 40,3 bilhões para os Estados Unidos em 2024, o Brasil poderá ser gravemente prejudicado se o presidente Donald Trump, recém-chegado ao poder, concretizar suas ameaças protecionistas.

Ele descreveu como “excelente” o relacionamento com o Brasil e, de modo geral, com a América Latina, mas acusou os países do Brics de estarem procurando prejudicar os Estados Unidos. “Se fizerem isso”, acrescentou, “não ficarão felizes com o que vai acontecer”. A advertência vale, portanto, para o Brasil, o B da palavra Brics, assim como a referência, mais vaga, a maiores tarifas de importação. A possível aplicação de tarifas de 25% foi mencionada, no discurso, numa alusão ao México e ao Canadá, mas a ideia de fechamento comercial foi explorada de modo mais amplo. O mercado norte-americano é o terceiro principal destino das exportações brasileiras. No ano passado, a maior parcela das vendas externas brasileiras, US$ 95,9 bilhões, foi destinada ao conjunto formado por China, Hong Kong e Macau. A União Europeia absorveu produtos brasileiros no valor de US$ 48,2 bilhões. Os Estados Unidos ficaram em terceiro lugar, seguidos pelos componentes da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean), importadores de bens no valor de US$ 26,4 bilhões.

Os Estados Unidos também se destacam, entre os compradores de produtos brasileiros, como grandes importadores de bens industriais. Essa parcela correspondeu, no ano passado, a US$ 31,6 bilhões, 78,4% do valor destinado a clientes norte-americanos. Especialmente relevante como destino de mercadorias de alto valor agregado, esse mercado absorve, em valor, 17,4% das vendas brasileiras de bens produzidos pela indústria de transformação, equivalentes, no ano passado, a US$ 181,9 bilhões. Essas exportações corresponderam a cerca de 54% do valor total de bens vendidos ao exterior. Cuidar da preservação desse mercado será, portanto, uma das tarefas mais importantes da diplomacia econômica brasileira, enquanto o presidente Donald Trump se empenhar na mudança das condições do comércio exterior. De fato, a manutenção desse comércio, geralmente equilibrado e às vezes superavitário para os Estados Unidos, interessa aos dois lados. O reconhecimento desse fato poderá facilitar a manutenção desse intercâmbio sem novas barreiras tarifárias ou de qualquer outra natureza. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.