24/May/2024
As medianas do relatório Focus para o IPCA de 2026 e 2027 devem subir nas próximas semanas. A incerteza sobre o compromisso da diretoria do Banco Central com o cumprimento das metas de inflação a partir do ano que vem pesa. Mas, o movimento também é amplificado pelas dúvidas sobre a política fiscal e sobre a própria meta de inflação, após declarações do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O aumento vem sendo telegrafado pelas expectativas do mercado desde a última decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), no dia 8 de maio. Enquanto as medianas para 2026 e 2027 continuam em 3,5% (0,5% acima do centro da meta, de 3%), as médias têm avançado consistentemente. Essas medidas, mais sensíveis a variações nas projeções individuais, costumam antecipar o movimento das medianas.
Depois de ter ficado estacionada entre 3,54% e 3,55% nos últimos meses, a média do Focus para o IPCA de 2026 saltou a 3,59% após a decisão do Copom e continuou subindo, até 3,69% no dia 17 de maio. A média para o IPCA de 2027, antes estável em torno de 3,50%, marcava 3,65% na leitura mais recente. E mesmo a média de 2028 subiu no período, de 3,49% para 3,62%. Segundo a A.C. Pastore & Associados, todas as indicações são de que essas medianas vão se deslocar. O que parece estar por trás desse movimento mais recente é principalmente a divisão do Copom, e o que se vê é o risco de ter um comitê menos comprometido com a inflação na meta. Na última decisão, o Copom diminuiu a taxa Selic em 0,25%, de 10,75% para 10,5%, em uma decisão tomada por cinco votos a quatro.
A minoria, inteiramente composta pelos diretores que foram indicados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, crítico do nível dos juros, votou por um corte maior, de 0,5%. Esse placar renovou o temor de que o comitê será mais leniente com a inflação a partir de 2025. No fim deste ano, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e os diretores Carolina de Assis Barros (Relacionamento, Cidadania e Supervisão de Conduta) e Otávio Damaso (Regulação) deixarão os cargos. Sete dos noves membros do Copom terão, então, sido indicados pelo atual governo. Segundo a G5 Partners, a gestão de Alexandre Tombini no comando do Banco Central durante o governo Dilma agora cobra um preço em relação à credibilidade da instituição.
No período Tombini, o mercado avalia que a política monetária mirava mais o teto do que o centro da meta, à época de 4,5%, que tinha 2% de tolerância. Se a memória do mercado de um presidente do Banco Central indicado pelo PT fosse Henrique Meirelles, não haveria essa celeuma toda. Outros dois fatores também pesam para a expectativa de desancoragem adicional das medianas do Focus. Um deles, as dúvidas em relação à mudança da meta de inflação, veio à tona na quarta-feira (22/05) quando o ministro Fernando Haddad afirmou que a meta de 3%, definida pelo próprio governo, é "exigentíssima para as condições do Brasil."
Esse comentário renovou a percepção de que ainda há o risco de que o governo possa, eventualmente, aumentar esse objetivo. Na primeira metade do ano passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu em várias oportunidades um alvo mais alto, na faixa de 4%. O Conselho Monetário Nacional (CMN) definiu, em junho, que manteria a marca de 3% e alteraria o modelo, de um alvo anual para uma meta contínua. Mas, o decreto que regulamentaria a mudança ainda não foi publicado. Nesta quinta-feira (23/05), no entanto, fonte da equipe econômica afirmou que se o governo quisesse alterar o patamar dos 3%, teria feito isso no ano passado.
Se Haddad não mandar o decreto até meados de junho, o CMN vai ter de decidir de novo sobre a meta de 2027. E ele deu uma indicação de que não está com pressa para fazer isso, diz a G5. A incerteza fiscal cresceu no País desde que o governo anunciou, em abril, uma revisão das metas de resultado primário dos próximos anos, o que também pesa sobre as expectativas. Quando junta as incertezas sobre o Banco Central, sobre a política fiscal e sobre as metas de inflação, está feita a tempestade perfeita para o mercado extrapolar as projeções para os próximos anos. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.