ANÁLISES

AGRO


SOJA


MILHO


ARROZ


ALGODÃO


TRIGO


FEIJÃO


CANA


CAFÉ


CARNES


FLV


INSUMOS

15/May/2024

RS: agroindústrias querem vender a outros Estados

Diante da calamidade pública causada pelas enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul, a Emater-RS e a Associação Gaúcha de Laticinistas e Laticínios (AGL) lançaram um apelo para que o governo federal permita que as agroindústrias familiares com inspeção municipal e estadual, em caráter extraordinário, vendam seus produtos para outros Estados. As agroindústrias do Rio Grande do Sul estão pedindo socorro. O Estado tem 1.700 agroindústrias com inspeção municipal e estoques abarrotados sem compradores no Rio Grande do Sul porque 437 municípios estão em estado de calamidade. Um ofício da AGL pede o lançamento de uma portaria nesse sentido foi enviado ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) na semana passada, mas não houve resposta. Por isso, a AGL decidiu publicar uma carta aberta. A entidade informou que obteve a sinalização do Mapa de que haverá a liberação em caráter provisório para o trânsito dos produtos da agroindústria familiar do Rio Grande do Sul. Das 1.700 agroindústrias familiares, 637 são empresas de produtos de origem animal, como queijos e doces.

Elas não podem vender fora do Estado por não ter inspeção federal. As empresas não estão debaixo d’água, mas todas tiveram sua comercialização prejudicada. Muitas ficaram sem luz, perderam matéria-prima porque não há como estocar, as lavouras que alimentam os animais foram perdidas e as quedas de barreira, de estradas e de pontes dificultam ou impedem o escoamento dos produtos. Muitas agroindústrias vendem seus produtos em feiras gaúchas, que foram canceladas, e as que fornecem alimentação para merenda escolar não sabem se as escolas vão comprar. Além disso, o turismo também acabou em cidades turísticas, como Gramado e Canela. Uma das agroindústrias afetadas pertence ao produtor de leite Roberto de Oliveira. Ele conta que o laticínio Estrela, fundado em 2007 no município de Estrela, na região central do Estado, não foi atingido pela enchente, mas a propriedade ficou sem energia por sete dias e com pouca ração para alimentar as vacas, que reduziram 20% a produção de leite. Na cidade, bairros inteiros ficaram destruídos.

A agroindústria pede socorro para poder vender o doce de leite que produz em outros Estados pelo menos por 90 dias porque, com as estradas interrompidas e com o fim das feiras no Rio Grande do Sul, a família ficou sem renda e com os produtos parados. Suas vacas produzem 3.000 litros de leite por dia, que rendem 15 mil litros de leite tipo A por mês e 12,5 mil quilos de doce de leite. Neste mês, o produtor estima que não vai conseguir vender nem um terço do leite. Para a comercialização do doce de leite, Oliveira diz que já tem convites de feiras em Santa Catarina, mas, como só tem inscrição municipal e estadual, depende de uma autorização especial para vender fora do Estado. A legislação do Mapa já é seguida. Em Estrela, a fiscalização municipal é até mais rígida que a federal e os fiscais estão sempre dentro da agroindústria, já que o município tem três fiscais para sete agroindústrias. Rodrigo Aloisio Staudt, dono do Laticínios Nova Alemanha, em Ivoti (RS), viu serem cancelados pelo menos 60% dos pedidos. A cidade de Ivoti não sofreu com as enchentes na agroindústria, mas das 15 toneladas de queijo que produz por mês, viu serem cancelados pelo menos 60% dos pedidos.

Além disso, clientes que tiveram as lojas alagadas não terão condições de pagar e muitos já pediram a prorrogação dos títulos. A empresa não está conseguindo escoar a produção. Não dá para chegar em Caxias do Sul pela queda de barreiras, assim como há problemas para entregar os queijos em Lajeado e em parte de Porto Alegre. A empresa recebe 5 mil litros de leite por dia e já tem 3 toneladas de queijo no estoque. Em três semanas, atingirá o limite de armazenamento. Com uma empresa de 22 funcionários, sendo 8 pessoas da sua família, e 18 famílias produtoras de leite como parceiras, Staud diz que o ideal seria voltar a comercializar seus queijos no Estado, mas sabe que isso vai demorar. Por isso, ele vê a venda para fora do Estado como única alternativa para não ficar parado e sem renda. O que vai nos ajudar nisso é a parceria com a AGL para o transporte dos produtos de várias agroindústrias para fora do Estado, já que o mercado da empresa hoje é todo no Rio Grande do Sul. Seria uma maneira de pelo menos manter as contas em dia. A calamidade coincidiu com um aumento de seu custo de produção causado por um financiamento que a família fez para expandir o negócio.

Stéfani Harthmann, produtora de morangos e proprietária de uma agroindústria de doces em Cristal (RS), disse que a chuva prejudicou a produção e encheu as plantas de pragas. A empresa dela, que tinha um faturamento de R$ 15 mil mensais, também foi prejudicada pelo cancelamento das feiras. Há produtos estocados de dois meses que estavam prontos para comercialização nas feiras. Ela busca uma saída para que os estoques sejam distribuídos, mas também tenham vida útil na prateleira. Segundo a AGL, a portaria seria uma solução provisória para enviar imediatamente 9 toneladas de queijos das agroindústrias gaúchas que estão estocadas para fora do Estado, já que há mais de 50 lojistas de queijos artesanais de diversos Estados brasileiros prontos para fazer uma compra coletiva de todo esse volume. A sugestão de usar um caminhão que entrega doações de Minas Gerais veio da veterinária Renata De Paoli Santos, dona da escola e da empresa de consultoria Curadoria do Queijo no município de Lambari (MG), que atende agroindústrias de pequeno porte do Rio Grande do Sul. Renata viabilizou o uso de um caminhão da Biotech Logística e está levando doações ao Estado.

Há trâmites para fazer essa logística reversa a fim de levar com segurança e sem barreiras jurídicas os produtos esta semana para Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Minas Gerais. Segundo o Ministério da Agricultura, a demanda foi recebida e está em análise. Uma reunião preliminar com técnicos do Mapa já sinalizou que o Ministério vai criar uma alternativa para os produtores artesanais, especialmente os laticínios, que precisam escoar a produção com urgência, caso da carga de 9 toneladas, mas não há como fazer uma portaria para beneficiar todas as agroindústrias do Estado. Está complicada a liberação da portaria que o pleito foi para todas as agroindústrias porque possibilita que alguns outros tentem se aproveitar do processo, há chance de fraudes de produto e dificuldade de rastreabilidade, ou seja, uma comercialização que pode prejudicar outros cenários, inclusive sanitários. O Mapa deve propor, no entanto, um outro instrumento de médio prazo com validade jurídica para a comercialização desses produtos artesanais para fora do Estado. Fonte: Globo Rural. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.