07/May/2024
Em um discurso na Sorbonne, o presidente francês, Emmanuel Macron, alertou: “A Europa pode morrer”. Em entrevista à revista The Economist, ele aumentou a voltagem: o fim pode ser “brutal”, “muito mais rápido do que imaginamos”. Sob essa fraseologia apocalíptica, não se pode excluir interesses eleitorais, ambições sobre a União Europeia ou seu próprio ego (o gosto pelas “grandes ideias” já lhe rendeu o adjetivo “jupiteriano”). Seria reconfortante se essas fossem suas únicas motivações, se tudo isso fossem só hipérboles alarmistas. Mas, sua análise aponta antes para uma realidade alarmante, não só para a Europa, mas para as democracias liberais. “É um risco existencial triplo”. Além de militar e econômico, há o perigo da “incoerência interna e de ruptura do funcionamento de nossas democracias”. Na linha de frente do primeiro risco está a ameaça russa. A Rússia fez uma escolha “radical” em 2022: violou o direito internacional, lançou uma guerra de agressão a um país soberano europeu, cometeu crimes de guerra e, agora, assume uma “lógica de guerra total”.
Com ameaças nucleares, agressões híbridas, ameaças no espaço e no mar, a Rússia hoje é um poder de desestabilização regional. Entre as hesitações Ocidentais, Macron vocaliza a clareza moral: “Se a Rússia vencer na Ucrânia, não haverá segurança na Europa. Quem pode fingir que a Rússia parará lá? E quem pode garantir que a Europa sempre contará com os Estados Unidos? A Europa precisa se preparar para proteger a si mesma.” O segundo desafio é econômico e tecnológico. No início dos anos 2000, esperava-se que a China jogasse pelas regras do comércio internacional e até se democratizasse. Mas, ao contrário, os Ocidentais estão emulando o modelo chinês, injetando subsídios e erguendo barreiras protecionistas. Nas fronteiras tecnológicas, a Europa pode ficar para trás, a uma distância irrecuperável. Finalmente, o continente que “inventou a democracia liberal” se vê ameaçado pelo ressurgimento de nacionalismos e populismos turbinados por redes de desinformação.
O diagnóstico é mais inequívoco que as soluções. Ante a volubilidade da política externa norte-americana, Macron está certo em propor um “arcabouço” de defesa europeu distinto, mas não separado, da OTAN. Mas, há o risco de incitar ainda mais os apetites isolacionistas dos Estados Unidos, provocando efetivamente a “morte cerebral” que ele atribuiu à OTAN em 2019. Macron defende uma restauração das regras de comércio internacional, mas admite que a realidade impõe o dirigismo em áreas estratégicas, combinado com a desregulação do mercado para facilitar negócios e atrair investidores. Mas, há o risco de que os governos implementem o dirigismo, sem a liberalização, prejudicando ainda mais a competitividade. É preciso cooperar com a China em desafios globais, como o meio ambiente ou a proliferação nuclear, e buscar uma reciprocidade econômica mutuamente vantajosa. Mas será isso possível ante a divergência política cada vez maior do regime autocrático chinês com os valores democráticos ocidentais? E em relação às ameaças domésticas, a estratégia de isolar e demonizar extremistas não comporta o risco de radicalizá-los e fortalecê-los ainda mais?
“Ainda sou um otimista”, disse Macron. “Mas o mundo é um lugar mais tenebroso. É preciso ser lucidamente otimista e determinado. Tivemos a pandemia de Covid. Temos a guerra da agressão da Rússia. Temos uma tensão sino-americana sem precedentes. Temos uma guerra terrível no Oriente Médio, que está abalando nossas sociedades em suas bases. Temos divisões massivas na Europa. Temos enormes riscos geopolíticos.” Suas soluções podem ser questionáveis. Mas, sob elas, há um alerta incontornável. Em meio à Grande Guerra, o poeta francês Paul Valéry advertiu: “Nós, as civilizações modernas, aprendemos a reconhecer que também somos mortais como as outras”. É essa a lição que Macron quer recuperar e que nenhuma democracia pode se permitir ignorar. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.