05/Apr/2024
Nos últimos 50 anos, o mercado mundial de produtos agrícolas, em especial os grãos, foi dominado pelos Estados Unidos, pelos países europeus e pela China. Na última década, o Brasil se tornou o quarto país dentre os maiores produtores globais. O ingresso da China na OMC, em 2001, coincide com a aceleração do crescimento do país e com o aumento do consumo da classe média chinesa. O mesmo crescimento ocorreu com outros países asiáticos. Essa circunstância coincide com o começo do crescimento de grãos e proteínas no Brasil. Havendo proposto uma parceria estratégica com o Brasil, a China aproveitou-a rapidamente com o incremento das compras de produtos agrícolas do Brasil, especialmente grãos e proteínas (carnes). Para exemplificar o comportamento do mercado internacional, na década de 70 o cenário global em grãos era o seguinte:
- Soja: Estados Unidos detinham 90% do mercado mundial do produto; em 2022, as vendas externas da soja pelos Estados Unidos somaram apenas 44 milhões de toneladas. A China, que em 2000 importava 21 milhões de toneladas, em 2023 comprou 100 milhões de toneladas.
- Milho: Estados Unidos, na década de 80, exportavam 84% do consumo global; em 2000, 60%, e em 2023/2024, somente 24%. China entra no mercado a partir de 2010 com a importação de 1,3 milhão de toneladas; na safra 2023/224 vai comprar 23 milhões de toneladas.
- Trigo: Estados Unidos, na década de 70, detinham 40% do mercado global. Em 2023/2024 apenas 9%, perdendo mercado para a Europa, Austrália, Rússia e Ucrânia. China em 2022, apesar de ser um dos maiores produtores mundiais, tornou-se o maior importador de trigo com 13,3 milhões de toneladas; e em 2023 com pequena queda para 12,5 milhões de toneladas.
Na questão de proteínas:
- A China, até 2021, estava fora das listas dos principais compradores mundiais. Passou a ser o maior importador mundial nos últimos anos e assumiu a primeira colocação nos anos recentes. Em 2024, deverá comprar 3,55 milhões de toneladas de carne bovina, no valor de US$ 12 milhões.
- Carne bovina: em 2000 os Estados Unidos eram um dos líderes, com 19% do mercado, hoje exportam apenas 10%.
- Frango: Os Estados Unidos, que em 2000 detinham 44% do mercado de frango, estão com 24% agora.
- Suínos: os Estados Unidos perderam espaço no volume mundial das exportações, mas ainda detêm 38% do mercado global e elevaram receita para US$ 35 bilhões ao ano; as vendas de maior valor agregado, 228% a mais do que em 2000.
Desempenho do Brasil
- Grãos:
- Soja: exporta 75 milhões de toneladas.
- Milho: só entrou no mercado em 2000, com vendas de 5,6 milhões de toneladas; em 2023, decuplicou suas vendas para 55,9 milhões de toneladas, representando 29% das exportações globais.
- Trigo: não tem participação significativa no mercado. Em 2022, 3,1 milhões de toneladas e, em 2023, 2,4 milhões de toneladas. A StoneX estima aumento de 14% no volume produzido de trigo, após um 2023 marcado pela quebra de safra. Nessa nova temporada, a expectativa é de sejam produzidas 9,22 milhões de toneladas do cereal. Isso é um cenário positivo para os moinhos, que voltaram a importar uma maior quantidade de trigo depois do último ano, tanto em função do menor estoque quanto em relação à qualidade.
- Proteínas:
- Carne bovina: o Brasil começou a aparecer em 2005. Em 2024, ficara com 25% do mercado global.
- Frango: o Brasil é líder mundial com 36% do fornecimento global (em 2000, 17%).
- Suínos: as exportações estão aumentando, mas devem subir hoje a 15% do mercado global.
O agronegócio brasileiro é um setor importante não somente para a economia nacional, sendo responsável por 30% do crescimento total do Produto Interno Bruto do País (PIB), mas também para o restante do mundo, principalmente no que se refere à exportação de alimentos e/ou matéria-prima para a sua produção. As vendas externas brasileiras foram avaliadas em mais de US$ 166 bilhões. China e União Europeia são dois dos principais destinos de produtos agrícolas brasileiros. Isso demonstra o papel que o País exerce hoje não somente no agro, mas no contexto econômico e alimentar global.
Foi significativo o crescimento do agro e da pecuária brasileiros em 25 anos, tendo a China como principal mercado. Em 2023, em termos de valor, a China foi o destino de 30,7% do que o Brasil exportou nessa área. Os chineses compraram 73% de toda a soja que o Brasil exportou em 2023. Em termos de toneladas, 75,6 milhões de toneladas. No caso do milho, 31% foram comprados pelos chineses, substituindo os Estados Unidos. Os chineses passaram a ser também os primeiros importadores de proteínas do Brasil, com 1,24 milhão de toneladas. A dependência dos produtos do agro e da pecuária brasileiros de um único país vai se manter estável e tenderá a aumentar nos próximos anos.
Essa tendência é perigosa e deveria demandar um esforço concentrado do governo e do setor privado para a abertura ou a ampliação de outros mercados na Ásia e em outras regiões como o Oriente Médio, a Índia e a Rússia. As transformações geopolíticas globais demandam esse esforço para evitar surpresas que possam afetar o setor que hoje se transformou no motor da economia nacional. Nas últimas semanas, por exemplo, a União Europeia apresentou proposta para implementar tarifas restritivas em relação à entrada de cereais e outros produtos da Rússia e de Belarus no continente, o que pode impactar a dinâmica comercial do planeta caso a medida seja aprovada.
Isso sem falar nas restrições alfandegárias que a Europa começa a impor à importação de produtos agrícolas em função de políticas ambientais para a preservação do desmatamento em florestas tropicais que vão afetar o Brasil e outros países nas exportações de produtos agrícolas e proteínas para a Europa como verdadeiras barreiras protecionistas de forma unilateral. O Brasil deveria começar a pensar em formas de retaliação também unilateral se nas negociações em curso as justas pretensões dos países exportadores não forem atendidas. Com o mundo em constante transformação, em meio a conflitos, efeitos das mudanças climáticas e outros tantos obstáculos, nosso setor deve se organizar e se planejar a médio e longo prazo, com o objetivo de reduzir os riscos e vulnerabilidades para o futuro. Fonte: Rubens Barbosa. Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo).