05/Apr/2024
A forte expansão da produtividade total de fatores (PTF) nos Estados Unidos nos últimos dois trimestres gera a percepção nos meios acadêmicos e em Wall Street de que o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) poderá ser, no curto prazo, um pouco mais tolerante com a força da economia norte-americana sem maiores preocupações com a alta da inflação. Isso permitiria à autoridade monetária seguir com seu plano de reduzir os juros três vezes neste ano. Contudo, não há evidências de que o Fed acredita que o avanço da PTF ocorre por fatores estruturais, o que significa que não alterou de forma substancial suas avaliações sobre o potencial de crescimento do produto interno bruto e da taxa de juros neutra. Depois de avançar 1,5% no segundo trimestre de 2023 ante os três meses do ano anterior, a produtividade nos Estados Unidos subiu 2,3% de julho a setembro do ano passado em relação aos mesmos três meses de 2022, e aumentou 2,6% de outubro a dezembro em comparação aos três meses análogos do ano precedente.
Contudo, a expansão da PTF do país no ano passado foi de 1,3% ante 2022, uma marca semelhante à média registrada nas últimas duas décadas. Segundo a University of California, o fator mais provável para esta expansão recente da produtividade é a maior eficiência pelas empresas na aplicação dos recursos de produção, humanos e materiais, dado que o mercado de trabalho está muito apertado e há dificuldades evidentes para a contratação de funcionários especializados. Como é extremamente difícil prever a evolução da produtividade alguns trimestres adiante, a melhor forma para estimar seu avanço no futuro próximo é considerar que manterá a tendência atual, salvo o surgimento de choques. Desta forma, é possível que a PTF terá um crescimento ao redor de 1,3% neste ano. Com o cenário de continuidade do bom ritmo da produtividade nos próximos trimestres, o Federal Reserve será mais tolerante para administrar a política monetária, pois ela permite que o PIB avance um pouco mais sem causar pressões inflacionárias.
É possível que o recente avanço da produtividade nos Estados Unidos tenha elevado o potencial do crescimento do país de 1,8% para um número entre 2,0% e 2,25%, aponta o banco Wells Fargo. Mas, esta alta pode ter ocorrido por questões cíclicas de curto prazo relacionadas a alguns elementos, como o aumento da imigração ilegal. Contudo, não há sinais de que o Federal Reserve já considera que tal elevação da produtividade ocorre devido a uma mudança estrutural na economia que será mantida nos próximos 5 anos. Há uma avaliação comum de especialistas de que sem uma alta expressiva da produtividade por vários anos seguidos, se os Estados Unidos continuarem crescendo acima do potencial, como ocorre atualmente, as pressões inflacionárias poderão aumentar e elevar o patamar da taxa de juro neutra, que equilibra os ritmos de expansão dos investimentos e da poupança.
É claro que os juros nominais na faixa atual, entre 5,25% e 5,50%, são restritivos. Talvez a taxa neutra para os próximos anos possa ficar entre 3,5% e 4,0%, o que certamente será um patamar bem superior ao juro médio nominal de 0,75% registrado de janeiro de 2010 a dezembro de 2019, quando ocorreu o último ciclo de crescimento econômico antes da pandemia. Esta taxa neutra mais elevada nos próximos 5 anos ocorrerá devido a vários elementos. Entre eles está o aumento dos investimentos públicos e privados para a transição energética a fim de reduzir a emissão de carbono e permitir que os Estados Unidos fiquem em harmonia com os princípios do Acordo de Paris. Como o PIB norte-americano está crescendo acima do seu potencial, com avanço de 2,5% em 2023 e estimativa de outros 2,5% em 2024 conforme a S&P Global Ratings, a inflação no curto prazo está um pouco mais resistente.
Isso pode levar o Federal Reserve a ser mais conservador para começar a baixar os juros nos próximos meses. Para ter certeza sobre a tendência da inflação, o Federal Reserve precisará de mais três leituras dos índices de preços: março, abril e maio. Na reunião que será encerrada em 12 de junho, o Fed terá à disposição a leitura de maio do CPI, mas não terá a do PPI daquele mês. Como os dois indicadores são essenciais para saber como está o PCE, o Fed poderá aguardar até julho para diminuir os juros. Tudo dependerá dos dados de inflação. Se ela não baixar de forma suficiente para um patamar próximo a 2,5% pode ser que o Federal Reserve continue adiando a redução de juros ao longo do segundo semestre. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.