25/Mar/2024
O avanço na aplicação de novas regras adotadas pela União Europeia, que visam proibir a importação de produtos oriundos de desmatamento, colocou em alerta a indústria de base florestal do Brasil. Aprovada em maio de 2023, o chamado Regulamento para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) pode provocar, na pior das hipóteses, um potencial desabastecimento do mercado europeu de produtos como papel e celulose, prejudicando não apenas as empresas exportadoras nacionais, como também a cadeia de transformação na região. A perspectiva é que todo o ambiente regulatório fique pronto até dezembro para que a lei possa entrar em vigor a partir de janeiro de 2025. A Indústria Brasileira da Árvore (Ibá) enviou, no início de março, uma delegação com 18 integrantes, com representantes da entidade e do poder público, para propor ajustes em normas técnicas que a nova legislação determina. A missão incluiu executivos, como o atual presidente da Suzano, Walter Schalka.
Após meses de preparo, a delegação brasileira se reuniu com representantes do Parlamento Europeu e da Comissão Europeia e apontou alguns pontos que considera sensíveis nas regras e que poderiam prejudicar o abastecimento de produtos embarcados do Brasil para a Europa, ao mesmo tempo em que não provocaria qualquer melhoria no quadro de combate ao desmatamento. A Associação Brasileira de Embalagens em Papel (Empapel) explicou que o Brasil atende a todas as regras exigidas pela União Europeia e, em alguns casos, adota até mesmo padrões mais rígidos que o exigido pela regulação. Contudo, nas entrelinhas das novas regras, há alguns pontos específicos que provocam risco ao setor. Um deles diz respeito ao rastreamento. A nova regra europeia exige que, no caso da celulose, o produto seja rastreado desde a origem até o seu formato final. Algo que tecnicamente não é possível. A Empapel explicou que toda a madeira que chega às fábricas brasileiras é identificada e rastreada, porém, durante o processo de transformação, são utilizadas madeiras de diversos lotes ou glebas (áreas geográficas) diferentes, característica de fábricas quer trabalham de forma integrada.
Se tem controle sobre a origem da madeira até a fábrica, e depois tritura-se todas e as mistura, não é tecnologicamente factível nem necessário realizar esse rastreamento porque não vai ter desmatamento dentro do processo industrial. Outro ponto problemático diz respeito ao envio de informações, dado que as novas regras exigem a transferência de dados comercialmente sensíveis da indústria brasileira para o bloco europeu. Há questionamento por parte dos representantes brasileiros sobre o nível de segurança, sigilo e o ambiente em que haverá o compartilhamento das informações. Há muitas questões em jogo nessa fase e o problema é muito grande, com potencial para afetar muitos segmentos. Então, o setor está com um grau razoável de expectativa positiva de que haverá um aperfeiçoamento dessa nova legislação. Os próprios reguladores europeus estão sofrendo pressões internas das empresas importadoras de commodities brasileiras, que também podem ser afetadas pelas novas regras. Hoje, os principais destinos das exportações de produtos de base florestal do Brasil são a Itália, Alemanha, França e Bélgica.
Os embarques de celulose enviados para a Itália, por exemplo, são em maior parte utilizados para a produção do chamado papel tissue, que dá origem a lenços, guardanapos, papel higiênico, entre outros. Na pior das hipóteses, a região poderá enfrentar um cenário de desabastecimento desses produtos. A Ibá destacou o fato de 60% da demanda dos países europeus por celulose ser de origem brasileira. Houve um alto nível de sensibilidade dos reguladores europeus e forte interesse em ouvir as questões trazidas pela delegação brasileira. Havia um real interesse dos europeus em aprender e ter ideias novas, algo que não é tão comum em situações como essa. Isso traz boas expectativas de resolução. Também houve uma transparência por parte deles sobre a possibilidade de prorrogação de algumas partes da EUDR, hoje inviáveis de implementar, até que eles consigam desenvolver melhores ferramentas. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.