28/Feb/2024
O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que 40% dos empregos no mundo estarão expostos aos efeitos da inteligência artificial (IA). O cálculo impressiona porque não haverá remédio para parte desses postos de trabalho: vai desaparecer. Mas, como adverte o estudo IA Generativa: A Inteligência Artificial e o Futuro do Trabalho, no qual o dado está inserido, o cenário tende a ainda ser mais doloroso. Ao dizimar atividades laborais e até setores econômicos inteiros, essa revolução tecnológica elevará as tensões sociais em diversas nações e aprofundará o fosso entre os países mais ricos e os mais pobres. Esse efeito da IA somente será mitigado com mais e melhores políticas públicas sociais, de distribuição de renda e de educação. Para todas as economias, redes de segurança social e de treinamento para os trabalhadores mais suscetíveis à inteligência artificial são cruciais para assegurar a inclusão. O estudo foi realizado com base em análises do mercado de trabalho, do sistema produtivo e do potencial de absorção dessa tecnologia em 174 países.
A recomendação vale, sobretudo, para as economias emergentes, como o Brasil e a Índia, e as menos desenvolvidas, entre as quais as africanas e as centro-americanas. Em comum, esse conjunto de nações traz históricos níveis de desigualdade social e, salvo exceções, minguados recursos e/ou vontade política para adotar programas públicos de proteção aos mais vulneráveis. Não se antevê melhora substancial em suas condições fiscais para mitigar os danos da revolução laboral provocada pela IA que, certamente, os alcançará. Tensões sociais estão no radar. É certo que a inteligência artificial seguirá um cronograma de absorção mais lento nessa parcela do mundo. Com a ampla massa de empregos de baixa qualificação e o alto grau de informalidade no mercado laboral, os efeitos da IA nesses países serão moderados, se comparados com o mundo desenvolvido. As economias emergentes estarão alinhadas à média global de 40% de empregos afetados. Nas menos desenvolvidas, não passará de 26%.
O menor impacto, porém, está muito longe de ser uma bênção. Esses mesmos países tardarão a usufruir das vantagens da tecnologia inovadora: o choque de produtividade, o aumento de renda do trabalho e o crescimento econômico. Nas economias avançadas, onde modelos de inteligência artificial não raro são patenteados, os efeitos negativos já começam a ser observados no mercado de trabalho. Nos cálculos do FMI, 60% dos empregos serão afetados, dos quais a metade deve desaparecer. Os sobreviventes tenderão a ser profissionais com educação superior nas funções com complementaridade com a IA. Haverá, obviamente, filas de demitidos sem a mínima condição de empregabilidade, como costuma acontecer sempre que há avanços tecnológicos. Portanto, o risco de tensões sociais tampouco estará afastado no mundo desenvolvido. Considerado pelos pesquisadores como caso intermediário entre economias ricas e pobres, o Brasil está sujeito a ver 41% de seus empregos afetados pela IA, em linha com a média mundial.
A tábua de salvação para 43,7% dos trabalhadores brasileiros estará na educação superior, um diferencial que lhes permitirá buscar postos de trabalho nos quais a IA seja complementar. A alternativa de correr para setores menos afetados implicará perda salarial. O remédio receitado ao País não foge à regra geral: investimento em educação e no reforço dos programas sociais. A transformação prevista no mercado de trabalho, por força da IA, não tem precedentes. Se as máquinas a vapor, a divisão fordiana da produção e a informática deixaram multidões de excluídos e acentuaram as diferenças entre nações industrializadas e pobres, o que está por vir se mostra mais profundo. A consolidação de um mundo bem mais desigual já está nas contas do FMI. É preciso ouvir a instituição financeira o quanto antes: há antídotos, e eles estão nos investimentos em educação e em segurança social. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.